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quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Circular em França

França - 2007
Saímos de uma curva e, na nossa frente, à beira da estrada, estava um único poste de sinalização com dois sinais. Um de "perigo: lomba" e outro de "proibido circular a mais de 30 Km/h". Circulávamos por uma estrada local e estávamos a entrar numa povoação, pelo que, garantidamente, não íamos a mais de 50 km/h.
Foi nessa altura que vimos, junto do já referido poste, uma deformação na estrada.
Uma onda de alcatrão avançou para nós, lembrando o mar da nossa costa. A Manela (mas poderia ter sido eu) travou o mais a fundo e o mais rápido que pode.

Primeiro sentimos o embate nas rodas da frente (ficando com a sensação de que estas tinham ficado encaixadas nos respectivos guarda-lamas), depois "visualizamos" a sua passagem por debaixo do carro, dando-nos a sensação de planar, e por fim aterramos no alcatrão, do outro lado da onda, deixando o motor ir abaixo.
Penso que durante ainda alguns momentos a Manela continuou a pisar o pedal do travão (eu pelo menos continuei e não o tinha).
Só quando recuperámos do susto é que compreendemos o significado da placa que tínhamos acabado de ver alguns metros mais atrás e que dizia "ralentisseur".

Esta situação ocorreu no inicio dos anos 90 e, para bem do nosso ego, não foi presenciada por ninguém. Também não é por este episódio que não deixo de gostar de conduzir em França. Depois deste, muitos ralentisseurs passaram por baixo do nosso carro (sempre a menos de 30).
No entanto esta história serve muito bem para ilustrar a importância que as autoridades francesas dão ao cumprimento das regras de circulação nas estradas e à segurança nas povoações, socorrendo-se sobretudo de meios passivos de controlo.

Rotundas a sério (passámos por uma que tinha no meio uma vinha) e não obstáculos na via (onde quase não é necessário torcer o volante), a elevação do piso nos cruzamentos (criando um degrau antes do cruzamento e outro à saída do mesmo), pequenos "postes" nas saídas das autoestradas separando a faixa de saída da autoestrada própriamente dita (evitando que os "espertos" entrem na via de acesso em cima da saída ou que os distraídos regressem à autoestrada), ou floreiras nos passeios (para que os peões apenas atravessem nas passadeiras), são alguns dos meios que me recordo de ter visto utilizados para aumentar a segurança nas estradas. E, claro, os ralentisseurs.

Porém, nem todas estas "maravilhas" impedem que a França tenha uma grande sinistralidade (que felizmente tem vindo a abrandar), nem a sensação de desconforto que dá o passarmos ao lado de silhuetas negras, colocados na berma da estrada, nos lugares onde terão ocorrido atropelamentos ou mortes em acidentes.

Tanto quanto julgo saber, a sinistralidade em França sempre foi um problema grave e complexo. Um país fabricante de automóveis e em que o número de viaturas a circular é grande, terá, na minha opinião, muitos problemas para resolver.
No entanto, seja pelos meios passivos de controlo implementados, seja pelo controlo policial que é visível, ou seja porque tive sempre muita sorte, é um facto que a grande maioria dos condutores com que me cruzei cumpre as regras do código. Nas autoestradas o simples facto de ligar o "pisca" para indicar que quero mudar de faixa para ultrapassar um veiculo mais lento, faz com que o veiculo que já segue nessa faixa abrande para eu "entrar" (das primeiras vezes quase fui insultado por não "entrar" logo). Claro que devo (tenho de) regressar à faixa da direita assim que puder, o mais rápido possível.

Quanto a nós, como turistas, tentamos cumprir à risca o código de estrada (uma multa apenas serve para estragar as férias), ao contrário do que por vezes fazemos no nosso dia a dia, onde acontece facilitarmos um pouco. Apesar dessa preocupação, a condução em França é, para mim, muito agradável.
As estradas estão bem conservadas, as direcções estão bem indicadas (baseadas num código de cores que nos permite rapidamente identificar destino pretendido), e os condutores são, de uma forma geral, cordatos (ou talvez só apanhe turistas como eu). Resumindo, a viagem é calma, despreocupada e confortável.

Esquecendo as autoestradas, caras mas com boas áreas de serviço, que apenas nos servem para fazer rapidamente quilómetros, as estradas nacionais e regionais são extremamente agradáveis de percorrer.
Bem marcadas, bem sinalizadas, onde facilmente se encontra uma agradável área de paragem (por vezes aproveitando antigas curvas que foram "cortadas" pelo redesenho da estrada), permitem-nos uma condução descontraída e dar alguma atenção à paisagem envolvente, nomeadamente agora que já sabemos identificar um ralentisseur à distância, atravessando-o suavemente.

domingo, 18 de maio de 2014

Circular em contramão

M1 direcção Leeds, Grã-Bretanha - 2006
Se não sairmos do lugar que conhecemos arriscamo-nos a tomar como certa e universal a realidade que nos rodeia, medindo tudo apenas pelos padrões que conhecemos.

Ao sairmos dos nossos "domínios" tudo se começa modificar: as pronuncias, a gastronomia, a paisagem ...
Já quando passamos para outro país as mudanças são ainda mais claras, começando, obviamente, pela língua,

Pode-se dizer que o contacto com as diferenças, para além de alargar os nossos horizontes, marca o nosso quotidiano, fazendo com que não volte a ser o mesmo. 

No meio de tanta mudança, existem no entanto coisas que consideramos normalizadas, imutáveis. Coisas que é quase impensável serem de outra forma. Mas que, de facto, o podem ser.

É nesta categoria que se enquadra o sentido da condução, a chamada "mão". Na Grã-Bretanha, aquilo que para nós é uma aberração, uma excêntricidade, enfim um perigo, é para os britânicos a normalidade do dia a dia tornando a nossa realidade excêntrica. Eles conduzem pelo "outro lado".

Da primeira vez que estive em Londres aconteceram-me as peripécias clássicas de quem lá vai: olhar para o lado errado na passadeira (e descobrir que o trânsito está todo do outro lado, parado à minha espera) ou apanhar o autocarro no sentido contrário ao do meu destino.

Mas a coisa fica um pouco mais complicada quando conduzimos neste novo paradigma. Quando nos decidimos a aventurar de carro pela Grã-Bretanha veio-me logo à lembrança a anedota do continental (a nacionalidade varia de acordo com quem conta a piada) que se aventurou pelas autoestradas britânicas e que ouve na rádio o locutor a avisar todos os automobilistas de que havia um carro a circular em contramão. O turista, em tom de desabafo, diz para a mulher "Um condutor em contramão? Estão todos!".

Mas, chegada a hora da verdade, e para minimizar as dificuldades da aventura, decidimos alugar um carro "autóctone", com caixa automática. Na empresa de aluguer, em conversa com a senhora que nos atendia, referimos que, para nós, o sentido da circulação já era um pouco confuso e que gerir as mudanças com a mão esquerda ia torná-lo ainda mais complicado. Rindo-se, a senhora disse-nos que não percebia o problema, uma vez que o fazia normalmente todos os dias.

No entanto esta pequena alteração não se esgota apenas na caixa de velocidades. A lição seguinte na "condução à esquerda para Tótos" é de que o volante está à direita, naquilo que para nós é o lugar do pendura. Ou seja, ao abrir a porta do condutor, descobrimos que temos de contornar o carro e sentarmo-nos do outro lado.
Depois vêm os primeiros metros de condução, ainda no parque de estacionamento, para nós do lado certo mas, para os britânicos, claramente em contramão.
Tendo acertado com o lado correcto da estrada, começam as verdadeiras dificuldades: as rotundas (mesmo assim menos complicadas do que aquilo que me tinham dito) e os entroncamentos (estes sim, verdadeiras dores de cabeça porque temos que "adivinhar" qual a  faixa certa da estrada).
Está nesta categoria a pequena peripécia que me aconteceu num entroncamento em Inverness. Ao arrancar num semáforo, virei à direita, ficando frente a frente com um carro da polícia (com os ocupantes possivelmente a suspirar e a pensar "turistas...") na "minha" faixa. Claro está que a marcha atrás funciona também nos carros de caixa automática, permitindo-me retomar a posição inicial no semáforo. No verde seguinte lá acertei com a faixa correcta.

Apesar da Manela, que seguia no agora lugar do "pendura", ter ficado com mais cabelos brancos e, talvez, alguns problemas cardíacos ("Olha o passeio!!"), o que é facto é que, quando entreguei o carro no final da viagem, me sentia pronto para reiniciar a viagem, agora como um qualquer nativo britânico, embora, claro, com caixa automática.

No final das férias, já no aconchego da "normalidade", todas estas peripécias são belas histórias para contar aos amigos e familiares. No entanto, na minha primeira viagem de carro após as férias, ao virar para a rua da casa da minha mãe dou comigo na faixa esquerda, agora sim em contramão. Felizmente não havia trânsito, o que me permitiu mudar de faixa e seguir o meu caminho.