Mostrar mensagens com a etiqueta Fotografia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fotografia. Mostrar todas as mensagens

domingo, 10 de maio de 2015

O Rali de Portugal

Peninha, Serra de Sintra, Portugal - 1985
O meu primeiro contacto com o rali deu-se na minha juventude.
Lembro-me dos carros passarem por Torres a seguir ao jantar, num troço de ligação a Lisboa.
Podiam não estar em competição mas, para nós, era a mesma emoção. O ruído dos motores, os potentes projectores na frente dos carros e a multidão que se juntava na avenida e ao longo do trajecto para Lisboa, a vibrar com cada carro que passava.
Com um pouco de sorte um dos carros parava para se abastecer, numa das bombas de gasolina, permitindo uma visão mais demorada e próxima, nomeadamente do interior.
Havia ainda alguém com o jornal 'O Motor' na mão que, pelo número do carro, ia identificando quem passava, fazendo o computo dos que já tínhamos visto passar e dos que ainda faltava ver.

A este propósito lembro-me sempre de um episódio caricato.
Nesse ano a revista 'Tintin' publicava a aventura de Jean Graton “Rali em Portugal” (“Cinq filles dans la course”) que, por sinal, coincidiu com as datas do rali, na altura denominado de TAP.
Como de costume, após o jantar, fomos ver passar os carros e "controlar" as passagens. Como a saída de casa nem sempre era fácil (tinha que ser autorizada pelos pais) havia sempre um ou outro que se atrasava, pedindo, ao chegar, um ponto de situação das passagens para saber o que já tinha perdido.
Estávamos nós a aguardar a passagem de mais um carro quando chega um dos nossos amigos retardatários, esbaforido e quase sem folgo a perguntar avidamente "o Michel Vaillant já passou?". Perante as gargalhadas gerais, tomou consciência da pior foma de que o seu herói afinal não existia.

Porque o horário de passagem mudou ou porque o trajecto de ligação foi alterado, o que é um facto é que o meu interesse pelo rali passou para segundo plano e desvaneceu-se.

Retomei o contacto com o rali em 1978. A sobra de um lugar num carro de entusiastas fez-me participar na "romaria" a Montejunto onde pude ver um dos carros de rali mais bonitos: o Lancia Stratos HF.
Mas as estrelas nesse ano eram outras.
O Fiat 131 Abart de Markku Alén e o Ford Escort RS de Hannu Mikkola fizeram toda a emoção. Separados na classificação por segundos levaram até à noite de Sintra milhares de pessoas, entre elas eu.

A etapa consistia em três passagens por três troços cronometrados, pelo que, uma vez arranjado um lugar para ver, tínhamos espectáculo para toda a noite.
Nessa noite ficamos na Lagoa Azul (primeiro troço do 'circuito') com os olhos na estrada e o ouvido num transistor. E a emoção manteve-se até ao último troço da terceira passagem, justificando a noitada.

Na última passagem, junto ao ponto de partida assisti à razão do fim das noites de Sintra. Quando os carros estavam a segundos de partir, ligavam os projectores na sua máxima potência e apenas se via à sua frente uma enorme massa de pessoas, no lugar onde deveria estar a estrada. À mediada que o carro arrancava e acelerava as pessoas afastavam-se, abrindo-se, à velocidade do carro, uma clareira que permitia ao piloto vislumbrar alguns metros do alcatrão. Isto, claro, salpicado com dezenas de flashes.

Não voltei a assistir ao rali mas continuei a acompanhar as provas.

Nos anos 80, com a ascensão dos potentes carros do grupo B, a paixão pelos ralis de um colega de trabalho e o prazer da fotografia, fez-me voltar a Sintra.
Agora de dia, máquina fotográfica ao peito, aconselhou-me a prudência que fugisse da multidão e dos lugares mais "espectaculares", prudência essa que era partilhada pela Manela e pelo Paulo, companheiros na aventura.
Motivava-nos estar perto dos carros, sentir o ambiente e experimentar fotografar em condições extremas.

Foi assim durante alguns anos. No dia do rali, madrugávamos para ir ver os carros.
Até que, em 86, na aldeia do Pé da Serra, recebemos a noticia do acidente mortal que ocorrera no troço da Lagoa Azul e do consequente cancelamento da etapa.
Este trágico acidente marcou o fim da etapa de Sintra e, com ela, a nossa ida ao rali

Hoje, quando olho para as fotografias da altura, vêm-me à memória as caminhadas quase nocturnas pelo meio da serra, o ruído dos motores que cortavam aquele ambiente paradisíaco e calmo, e, claro, a espera pela revelação dos rolos fotográficos, "puxados" a sensibilidades limite. Os resultados fotográficos do dia tinham o gosto amargo das fotografias falhadas mas também doce sabor de uma foto bem conseguida.


Informação adicional em:

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Fotografar

Gradeamento em Fontfroid - França - 2003 (antes e depois de tratada)

Obviamente o primeiro objectivo é sempre a viagem. É ir. Visitar. Ver.
Fotografar é uma “consequência” natural. Ficar com o registo do momento ou do sitio.

No entanto nem sempre é possível conciliar as duas coisas. Ou porque não se pode fotografar o momento (é um momento fugaz, não se pode parar, a luz não permite, ...) ou porque, pura e simplesmente, não se tem a máquina.

Em viagem o material fotográfico pode também ser um problema. Ou pela cobiça dos outros ou pelo incómodo que por vezes representa.
Nesta questão o meio de transporte pode ser um factor limitativo. Numa viagem à boleia pode representar um perigo, numa viagem de comboio pode trazer algum desconforto (especialmente quando se está a falar de máquinas com alguma dimensão e respetivos acessórios).

Na era do análógico (leia-se rolo fotográfico) existiam ainda outros problemas a acrescentar: o custo dos rolos (maior se diapositivo, menor se negativo) e da revelação (exactamente o contrário), assim como, depois, a qualidade do serviço prestado pelo laboratório.
Obviamente havia a surpresa do resultado final. Muitas vezes para melhor mas, infelizmente, muitas vezes para pior (ou por falta de qualidade do fotografo ou, infelizmente em muitos casos, por falta de qualidade do trabalho do laboratório).

Com o advento do digital, o controlo do resultado final ficou mais próximo do momento da fotografia. No entanto surgiram outros problemas. Primeiro o limite da capacidade do(s) cartão(ões) de memória, depois a decisão de eliminar aquelas centenas de fotografias idênticas que não se teriam tirado se a máquina fosse ainda de rolo.

Numa época em que o digital domina (seja pelo prático que é para consultar, seja para utilizar neste blog) e começamos a olhar para o arquivo das imagens de férias, surge um novo desafio: digitalizar as centenas de diapositivos e negativos acumulados ao longo do tempo. Já agora tentando corrigir alguns dos erros que se cometeram, tornado passáveis aquelas imagens por vezes únicas, condenadas ao caixote do lixo.


O exemplo que se apresenta é uma das minhas primeiras incursões na matéria. Não sendo fabuloso (não possuo qualquer mestria na manipulação do Photoshop) revela-se no entanto promissor.