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domingo, 20 de setembro de 2015

The Fringe

                                                             Edinburgh Fringe, The Royal Mile, agosto 2015

Não há como acompanhar nem como ignorar.
As ruas enchem-se progressivamente de uma multidão de atores e espectadores. As mãos dos atores estendem-se na avidez de entregar os pequenos cartões do tamanho de um postal que podem significar sala cheia. Se nós, os possíveis espectadores, abrandamos o passo, somos rapidamente industriados sobre o que se vai passar na sala em questão. Teatralmente. Parece um jogo em que todos procuramos adiantar-nos ao adversário. E em que todos nos divertimos, qualquer que seja o resultado.
É o Fringe, o "antagonista-complemento" do Festival Internacional de Edimburgo. 
Nas ruas da cidade jogam-se por vezes os destinos de muitos atores, num país onde o teatro é por tradição "ensinado" desde a primária, e treinado duramente, por entre competição feroz e em larga escala, por quem quer fazer carreira. As ruas de Edimburgo são o palco daqueles que não conseguem aceder a uma das pequenas salas onde se desenrolam mais de dois mil espetáculos durante o mês de agosto. Por essas salas passaram muitos dos atores, músicos e cantores que hoje aplaudimos.

Se a vida é uma festa, Edimburgo é o salão onde decorre. 
A atmosfera inebria e, quando o Fringe abre oficialmente portas, a música que enche as ruas, a que escorre do Tattoo no castelo, o fogo de artifício que estoura num céu nublado, são o motivo perfeito para todos os risos e todos os pints que se bebem dentro e fora dos pubs.
Que interessa se chove? Ninguém nota!...

Ao mesmo tempo decorre o Festival de Arte e na segunda metade de Agosto sobrepõe-se-lhe o Festival do Livro. Depois vem o Storytelling Festival. Depois vem a feira de Natal. Depois o Hogmanay. E a Burns' Night. Depois o Beltane. A seguir o Film Festival. E o Festival de Ciência. Depois o Festival de Jazz e Blues. Depois um qualquer pretexto para outro festival. 
E, claro, logo de seguida, em agosto, o Fringe e o Festival outra vez.
Deve ser muito cansativo viver numa cidade que está sempre festa. 

Ora venha mais um pint!


domingo, 6 de setembro de 2015

Sarcasm?

Pubs - placards de exterior,  Edinburgh, 2015

Quanto mais vou até terras britânicas mais fascinada fico pelas qualidades que aquele povo tem. E não, não falo do teatro ou da literatura. 
Eu sei que o João Magueijo, com um saber de experiência feito, escreveu demoradamente e por motivos profundos, sobre os horrores da Grã Bretanha e as agruras que por ali passou, mas eu só encontro motivos de delícia e satisfação. 

Vamos lá a ver, a história daquele povo tem lados negros que não foram ainda totalmente trazidos à luz; aquilo que vemos nem sempre é aquilo que lá está; a corrupção e o deboche também lá existem, e as sombras de grey são bem mais que cinquenta. Também sei que o clima da ilha é bastante "cinzento", que a cozinha britânica não tem o fulgor da francesa e que a comida rápida é tão má como outra qualquer. É comida rápida. Para compensar há o Jamie Oliver, que é inglês, e o Gordon Ramsay, que é escocês. Segundo parece até cozinham bem e o primeiro dedicou um livro inteirinho à cozinha tradicional das ilhas britânicas. 

Mas temos de reconhecer que em termos de espírito prático e de "contra-politicamente-correto" ninguém lhes leva a palma.
Certas afirmações, certos conceitos, que, entre nós, gerariam uma corrente de protestos indignados, são em "terras de sua majestade" prova de um olhar sarcástico sobre a sociedade que nos deixa um pouco algures, na terra de ninguém entre o sorriso amarelo de quem tem medo de ser cúmplice de um pensamento pouco correto e a gargalhada funda do "era mesmo isto que apetecia fazer".

O pior é que não só pensam coisas "pouco próprias", como as publicitam em cartazes no meio da rua.
Gostava de ver o que acontecia por cá se os restaurantes do bairro fizessem as propostas feitas por dois respeitáveis pubs, imbuídos desse espírito prático, no centro de Edimburgo.
O mais grave é que muitos/muitas de nós pensam, ou já pensaram, em certas alturas, em soluções semelhantes (ou piores...) a essas.
Mas ninguém tem coragem de o confessar.
Não vá alguém pensar que podemos passar à prática.


The White Hart Inn, Edinburgh
The Newsroom, Edinburgh

domingo, 30 de agosto de 2015

Speedy's - Sandwich Bar & Cafe

Speedy's, Londres - 2014
Perdoem-me os que não são apreciadores ou conhecedores da série televisiva da BBC "Sherlock" mas ter estado no Speedy's e não referir o lugar seria um crime.

Para quem não está familiarizado com a série poderei dizer que esta é uma fabulosa adaptação das obras originais de Conan Doyle, transpostas para os nossos tempos.
Sherlock é um génio convencido e mimado, Watson um traumatizado veterano do Afeganistão e Moriarty um génio demente. Todas as interpretações são excelentes, suportadas por um script muito bem elaborado e uma realização desconcertante.
Apesar de terem sido realizados apenas dez episódios, três por temporada e um especial de Natal, foram os suficientes para criar um grupo desmesurado de fãs e uma venda invejável de memorabilia.

Curiosamente, quando pela primeira vez vi na televisão o anuncio à série, a figura de Sherlock pareceu-me excessiva. Um detective super convencido, pedante e que insultava toda a gente que o rodeava. Não me atraiu e, como tal, não vi nenhum dos episódios da série.
Quis o destino que, numa noite de pasmaceira em que não havia nada de interesse na televisão, o zapping me fizesse cruzar com um dos episódios da série, já a meio. 
Como não havia mais nada para ver, perguntei-me a mim mesmo " e porque não ver o que isto é?"
E foi a minha desgraça. No final do episódio estava rendido.

Mas o que é que tudo isto tem que ver com o Speedy's?
Na série, as filmagens da casa de Sherlock não se realizaram em Baker Street, rua muito movimentada, mas sim na pacata North Gower Street. Junto ao Speedy's.

Apesar do Speedy's já existir antes da série televisiva, foi com ela que ganhou notoriedade, passando de um desconhecido café de bairro ao local de romaria e culto dos fãs da série.

E foi assim que, numa calma manhã de Agosto, perto das 10 da manhã, emergimos da estação de metro de Euston, à procura do dito cujo café. De mapa na mão, lá fomos entrando no sossegado bairro. 
Ao fim de alguns metros, ao virar de uma esquina, ali estava ele. Um café de bairro, pacato, com duas mesas na esplanada, na altura ocupadas por alguns operários que faziam a sua pausa, para beber um café.

Contemplamos o exterior e decidimos, num acto corajoso, entrar e beber também nós um café (corajoso porque, de uma forma geral, o café em Londres é mau).
Ao abrirmos a porta apercebemo-nos da pequenez do lugar. Nas paredes fotografias das filmagens, numa decoração sóbria e despretenciosa, confirmavam a sua ligação à série.
O café estava sossegado mas cheio. Maioritariamente de fãs, uma vez que apenas duas ou três pessoas tinham ar de serem habitantes do bairro, Os restantes clientes destoavam completamente.

Face à lotação esgotada da sala, quando uma simpática empregada nos perguntou o que desejávamos, pedimos três "moka" para levar (o chocolate ameniza o gosto)
Já cá fora, sentados num muro junto ao café, a bebericar as nossas bebidas, fomo-nos apercebendo da silenciosa romaria que ia decorrendo na rua.

Tal como nós, notórios fãs, sós ou em grupo, de mala de viagem a rasto ou mochila às costas, iam cumprindo o mesmo ritual (não necessariamente por esta ordem): uma 'inspeção' ao lugar, uma fotografia ao café, uma fotografia frente ao café ou sentados na esplanada, uma volta pelas redondezas, uma espreitadela ao interior... enfim, tudo aquilo que um fã faz quando se encontra num lugar que, reconhecidamente, pertence ao universo da sua devoção.
Curiosamente sempre num 'registo' discreto, respeitoso, diria mesmo religioso, de quem não quer interromper nada mas apenas "viver" o lugar.

Esgotada a bebida e saboreado o lugar, seguimos o nosso caminho de regresso ao metro. Não sem antes notar uma pequena curiosidade: a casa que seria a morada de Sherlock na série, estava à venda.
Decididamente Holmes já não morava ali.


Informação adicional em:
Speedy's Cafe
Sherlockology - Speedy's cafe

Sherlock na Wikipedia
I Believe in Sherlock Holmes

domingo, 26 de julho de 2015

221 B

Baker Street, Londres - 2014
Baker Street. Em 1985, no primeiro ano que fomos a Londres, esta teria de ser uma das paragens obrigatórias.

A avidez de vermos o mais possível, no pouco tempo que tínhamos, obrigou-nos a fazer escolhas. Alguns museus ficaram de fora e noutros apenas visitamos uma ou outra sala. O mesmo aconteceu com ruas ou bairros. Se uns ficaram de fora do nosso roteiro, outros houve que apenas vimos de dentro de um autocarro.

Mas Baker Street era um destino obrigatório.
Sir Arthur Conan Doyle tornou-a uma das ruas mais populares de Londres ao situar ali a morada daquele que é, talvez, o mais famoso detective: Sherlock Holmes.

O passe de Londres levou-nos de metro até à estação de Baker Street, fazendo-nos sair directamente na rua do mesmo nome.
A rua, com passeios folgados e prédios de três andares, tinha bastante transito. De cabeça no ar, fomos seguindo a sequência dos números das portas até finalmente chegarmos ao tão desejado 221B.

A desilusão não poderia ser maior. Um prédio de habitação semelhante aos demais e nenhuma referência à celebridade da porta.
A imagem que me vem hoje à ideia, é de eu estar no passeio de uma rua com muito trânsito automóvel, a olhar para uma porta e eventualmente a pensar: "Pronto. É isto."

Felizmente nesse mesmo ano, numa das nossas voltas ao acaso, deparamo-nos, junto a Charing Cross, com o Sherlock Holmes... o Pub. Ali sim, havia uma sala, um pequeno museu, evocativo da personagem.

A recente realização de alguns (bons) filmes (nomeadamente o realizado por Guy Ritchie em 2009) e séries de televisão (entre boas - Sherlock da BBC - e menos boas - Elementary da CBS), reavivou a popularidade e a memória do detective.

Assim, quando no ano passado saímos do metro na estação de Baker Street, para mostrar a célebre morada à nossa filha, nada me preparava para o que nos esperava.
Ao contrário da primeira visita, não foi preciso procurara o número 221B.
Do outro lado da rua, ao longo do passeio formava-se uma longa fila de pessoas, sobretudo jovens, que aguardavam a entrada e visita, paga, da conhecida morada.
Na porta ao lado, no 221, entra-se agora para a loja de souvenirs, onde é possível comprar toda a memorabilia do detective.

Embora esta fosse uma visão próxima do que esperava encontrar na minha primeira visita, reconheço hoje que não sei qual das duas foi a mais desiludente.

Felizmente o Sherlock Holmes, o Pub, continuava igual a si mesmo, permitindo acabar o dia curando as 'mágoas' frente a um pint de boa cerveja.


Informação adicional em:
Sherlock Holmes
Sherlock Holmes na Wikipedia
Sherlock Holmes, o pub

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Acampar

Crystal Palace, Londres - 1985

1985
Quando chegámos a Londres, em agosto de 85, íamos em busca da cidade-mito para onde confluíam milhares de jovens de todo o mundo, em busca da essência da liberdade.
Para trás ficavam dois dias de camioneta (os autocarros da Eurolines corriam a Europa) até Paris, uns dias de descanso e visita à cidade, mais umas horas de camioneta e a travessia da Mancha em ferry boat.

Não conheço ninguém que tenha chegado a Inglaterra de barco e avistado as falésias brancas de Dover, e feito uma entrada triunfal em Londres às 5 da manhã, com o dia a nascer, pela ponte de Westminster.
A primeira visão que eu e o Mário tivemos da cidade, foi o Palácio de Westminster e o Big Ben. Só isso chegou para me apaixonar imediatamente pela cidade.
Quando saímos na estação de Victoria ainda não estavamos tão endinheirados que tivessemos reserva num hotel. Não. As mochilas que transportavamos levavam tudo o que era necessário para acampar confortavelmente.
Só era preciso encontrar um parque. Os postos de Turismo, de aspeto eficiente, estavam ali para isso.
Uma senhora deu-nos um mapa da cidade e as indicações de metro necessárias para chegar ao parque de campismo de Acton. Era um bocadinho longe mas o trajeto era rápido.

Trazíamos “na bagagem” as máquinas fotográficas, Travellers Cheques, e bilhetes de comboio que nos iriam permitir correr a Grã-Bretanha durante oito dias. Só faltava montar a tenda.
Quando saímos na estação de Acton deparámo-nos com um outro lado de Londres. Um bairro de subúrbio, de aspeto pobre e mal cuidado, semeado de gente de aspeto dúbio. Mas o cenário não estava completo – o parque de campismo que se nos deparou só podia ser produto de uma alucinação. Num recinto enorme, de limpeza mais que duvidosa, erguiam-se tendas verdes de exército, onde dormiam aqueles que não tinham tenda, uma tenda coletiva que mais parecia uma tenda de circo, não se viam instalações sanitárias e tudo parecia saído de um campo de refugiados.
Dirigimo-nos à recepção na esperança de que nos dissessem que aquilo não era o parque que procurávamos. Mas não. Gente desagradável e notoriamente cansada e sem paciência, atendia quem chegava. Disseram-nos desabridamente que montar a tenda era um risco, pois podia ser roubada, e que convinha que deixassemos as mochilas e os nossos pertences na recepção. Deram-nos, a cada um, um saco enorme de lona para meter as mochilas e tudo o mais lá dentro, e um  cadeado para o fechar.
Só me apetecia chorar e voltar para casa. Ainda tentámos fazer o que nos disseram mas a voz da razão falou mais alto. Que diabo... devia haver gente que acampava. E com roulotes. Gente que não podia permitir que lhe roubassem o meio de transporte. Não, ali não ficávamos. Nem que andássemos oito dias de comboio e só guardássemos de Londres a “entrada triunfal”. Que se “lixassem”... Devolvemos sacos e cadeados numa profunda irritação e num surdo desespero de quem está perdido em terra estranha.

Metemo-nos no metro e voltámos ao turismo a Victoria Station.
Reclamámos contra o que tinhamos visto e ameaçámos fazer queixa a alguém. Um funcionário mais atento deu-nos outra indicação, desta vez a sul de Londres. Apanhámos um autocarro direto que levou quase uma hora a chegar lá e nos permitiu ver outros bairros, de pequenas casinhas iguais e bem cuidadas.

Quando descemos na última paragem e virámos a esquina, as bandeiras hasteadas à porta de um recinto cercado, cheio de árvores e flores, devolveram-nos o sorriso rapidamente. A simpatia do casal escocês que nos recebeu acompanhou-nos todo o tempo que lá ficámos.

Quando acabámos de montar a tenda sentámo-nos a olhar o vale que abrigara o edifício da mais célebre exposição do século XIX: estavamos em Crystal Palace.
E sentimo-nos em casa.

domingo, 3 de maio de 2015

Passeios de domingo

Londres, Inglaterra - 2010
Foi num domingo de Agosto. 
O metro tinha-nos deixado junto à praça de Trafalgar. O dia estava solarengo, convidando a passear, ou seja, enfiarmo-nos num qualquer museu ou edifício estava fora de questão.

Antes de sairmos do hotel tínhamos tomado, calmamente, um substancial pequeno almoço, pelo que a ideia de caminhar pelas ruas, sem um destino específico, fugindo dos turistas e da confusão, foi uma opção unanimemente aceite.

Depois de andarmos algum tempo ao acaso, demos por nós na City, numa qualquer praça secundária, no meio de uma mistura de edifícios modernos e antigos.

O facto de não ser um dia de trabalho dava àquelas ruas, e particularmente aquele lugar, uma calma pouco habitual, fazendo-me lembrar as manhãs de domingo da minha infância, quando não se via vivalma na rua por estar tudo ainda a preguiçar em casa. 
Não fosse o ruído de fundo de um longínquo trânsito automóvel e eu diria que só faltava mesmo ouvir o cantar de um canário numa gaiola, pendurada numa qualquer janela, para o paralelismo ser perfeito.

Enquanto estava neste meu pensamento nostálgico, o meu olhar foi percorrendo os edifícios que nos circundavam, quiçá na esperança de ver uma janela onde colocar o dito canário.
Foi nesse deambular pelas fachadas que me apercebi de algo inusitado.
Num dos edifícios mais afastados, aí pelo que seria um sétimo ou oitavo andar, estavam três figuras penduradas em cabos que vinham do telhado.

Primeiro quase imóveis, davam a sensação de que estariam ali reunidas para apanhar um pouco de ar e sol e conviver umas com as outras.
Passado um pouco desceram lentamente mais uns "andares", fazendo nova pausa.

A visão era estranha embora curiosa e serviu para umas breves trocas de comentários entre nós.
De facto, porque não aproveitar os enormes edifícios de escritórios, quando estes estão "adormecidos", para actividades de lazer? E se não temos montanhas por perto, porque não praticar "alpinismo" e/ou escalada numa cidade?

Passado o impacto do inesperado fiquei com alguma inveja daquele grupo. Para além do desporto em si, a perspectiva da cidade, durante todo o percurso, deveria ser fantástica, partindo do principio de que não iria ter vertigens e ficar colado ao chão, no telhado.

Depois de comentarmos entre nós a curiosidade do facto seguimos o nosso percurso domingueiro, na descoberta de outras facetas de uma Londres desconhecida.


PS: Espero que a minha interpretação dos factos esteja correcta e não tenha sido testemunha de nenhum assalto arrojado.

sábado, 10 de janeiro de 2015

In English, please...

Terras Altas, Inverness, Agosto - 2006
Vamos começar com um ou dois esclarecimentos iniciais, necessários a quem  ler estas linhas e também a consolo próprio:
  • Sou professora de inglês.
  • Sei falar inglês.
  • Tenho viajado com bastante regularidade a países onde a língua inglesa é falada, em diferentes graus de fluência, como, por exemplo, a Grã-Bretanha.
  • Consigo falar ou entender, em graus variáveis de proficiência, mais três ou quatro línguas.

Vamos ao que interessa.

Naquele ano tinhamos arrancado para Londres, onde tinhamos um carro alugado à espera, e daí partido à redescoberta de lugares onde tínhamos estado anos antes.
A viagem foi agradável, cheia de lugares novos e inesperados como Bamburgh ou o castelo de Alnwick, onde tinham sido feitas filmagens de algumas cenas do Harry Potter. Descobrimos Leeds, uma cidade surpreendentemente bonita a que prometemos regressar, dirigimo-nos para Edinburgo e, uns dias depois,  avançavamos para as terras altas da Escócia em direção a Inverness.
Resta dizer que a Escócia é um sítio maravilhoso e mágico, cheio de velhas  histórias e tradições, de paisagens magníficas, de gente alegre e acolhedora. Mas cheio de surpresas.

Depois de sairmos de Edinburgo, e à medida que nos embrenhávamos nas Terras Altas rumo a Inverness, o tempo mudou e foi piorando até ao ponto de nos convencer que, se calhar, viajar no inverno era mais calmo. Estava escuro, chovia torrencialmente, via-se mal, e a Paula, nossa companheira de aventuras, devia estar a interrogar-se em que aventura é que se tinha metido.
Chegados ao destino, deparámo-nos com um trânsito caótico (para nós...), e o que nos valeu foi o conhecimento anterior da cidade e o sentido de orientação do Mário para nos levar ao posto de Turismo, porque estava a anoitecer e precisavamos de encontrar sítio para dormir.

Foi aqui que tudo se precipitou. O Turismo estava a fechar mas disseram-nos que sítio para dormir seria muito difícil porque estava tudo cheio. Viemos mais tarde a saber que estava a decorrer uma importante feira Agro-Pecuária, motivo por que Inverness tinha a capacidade esgotada.

Entretanto continuava a chover. E estava muito desagradável.
Hotéis e coisas parecidas, nem pensar. Decidimos dar umas voltas por zonas menos centrais em busca da velha instituição do Bed and Breakfast. Aliás, sempre tinhamos ficado em B&B e tínhamos boas recordações desses dias. Fomos andando devagar, de rua em rua, bairro em bairro, mas nada. Todas as casas ostentavam tabuletas indicando que estavam cheias. À medida que saíamos da cidade íamos conjeturando onde e de forma íamos, quatro adultos,  dormir dentro do carro.
Foi nessa altura que avistámos a nossa possível salvação: havia um hotel da cadeia Travelodge ao fundo da rua. Dirigimo-nos para lá rapidamente, eu saltei do carro mal ele parou, entrei confiante pela receção dentro onde se encontrava uma senhora baixinha e de ar pouco acolhedor, e perguntei  no meu melhor inglês:
- Good evening! Is there accommodation available for four persons?
- Grwekk nnek fur mannkinnp goop da!!! Treek shwalagh reshuwartgh!!!!
- ...Excuse me???...
- Truskart mannft goop da!!! Schneek priotik shlavet joshtwah nnhetwash!!!

A senhora pareceu-me muito zangada e pensei que em S. Miguel, Rabo de Peixe era um falar facilmente compreensível à vista disto...
Não consegui articular palavra. Nem tive tempo. Entrara outra senhora parecida com a primeira e tinham entabulado um diálogo que me pareceu ter qualquer coisa a ver comigo pelo que repeti:
- Accommodation? Four persons?
Olharam-me as duas com o ar espantado de quem se pergunta porque é que eu ainda ali estava. E continuaram com ar zangado a discutir enquanto me olhavam.

Decidi sair porta fora.
Abri a porta do carro e disse com ar malencarado “ ...’bora!”.
O Mário e a Paula perguntaram com ar delicado,
- Então... não havia nada?...
Respondi desabridamente,
- Sei lá!!! Não faço a mínima das ideias!!...

Ninguém se atreveu a fazer comentários. O Mário arrancou e só uns quilómetros mais à frente, já no quente e alegre acolhimento de uma pequena mas famosa estalagem, The North Inn,  diante de tigelas da melhor sopa do mundo, a ouvir a chuva lá fora, é que nos rimos da “aventura do Travelodge”. 
Mas embora possa alegar que se calhar me tinham respondido em gaélico, o meu prestígio como falante de inglês nunca mais foi o mesmo.

E continuo sem saber se havia ou não quartos disponíveis...

Inverness

domingo, 23 de novembro de 2014

Natal em Agosto

Armazéns Harrods, Londres - 2006
Diz a tradição que o "Natal é quando um homem quiser".

Estávamos nós no inicio de Agosto de 2006 quando, para grande espanto e noticia nos media, os armazéns Harrods, em Londres, anunciaram a abertura da secção de Natal.
Numa época do ano em que boa parte das pessoas só pensa em calor e sol, falar no Natal parece ser um contracenso. Mas pelos vistos não é.

Calhou estarmos em Londres, quando este anuncio se deu. Obviamente não poderíamos deixar passar a oportunidade de entrar em tão controverso lugar.
Foi assim que, numa bela tarde de Agosto, lá fomos nós visitar a propagada secção.

O espaço, composto por várias salas, era todo ele interior, permitindo-nos esquecer, por instantes, o sol e os vinte e muitos graus que estavam na rua.

Passado o primeiro impacto e à medida que fomos entrando nas salas, fomos sendo envolvidos pelas decorações que nos lembravam a neve e os agasalhos do inverno, pelas luzes coloridas e pelos materiais cintilantes, fazendo-nos entrar  no espírito natalício e transportando-nos para outra época do ano.
Tudo isto sem estranhar que, naquele ambiente, as pessoas estivessem com roupas frescas, tais como calções ou  camisolas de manga curta.
Esta nova realidade anacrónica, acabou por gerar e envolver-nos numa certa atmosfera "mágica".

Terminada a visita (tendo eu resistido, por vezes com alguma dificuldade, a comprar enfeites natalícios), regressamos de novo à rua e à realidade de Agosto.
No entanto, esta meia hora deixou-me o estranho sentimento de ter vivido numa realidade paralela, onde o calor e o Natal se misturaram.

Não esquecendo que tudo isto foi uma bem montada manobra de marketing, não é pois de admirar que, muitos dos visitantes desta nova secção, tenham saído cheios de embrulhos.

Infelizmente esta experiência faz-me pensar que, ao contrário do dito popular, nos tempos que correm "Natal é quando o marketing quer".


Nota: actualmente a abertura da secção de natal do Harrods realiza-se em Julho.


Informação adicional em:
A parada de Natal, no Daily Mail
A noticia da 'chegada' do Natal, no Guardian

domingo, 5 de outubro de 2014

Memória

Torre de Londres, Londres - 2014
Sempre fui muito critico com as chamadas “instalações".
Das muitas que já tive oportunidade de ver ao longo dos anos, poucas foram aquelas de que eu tenha gostado, reconhecido o sentido, ou impressionado.
Na minha perspectiva não é só o facto de se descontextualizar um objecto, reestruturar um conjunto de objectos, ou recriar um espaço, que me faz considerar só por si, que isso seja arte ou, no minimo, uma provocação. No entanto há honrosas excepções que me fazem considerar e dar credibilidade ao género,

Neste ano de 2014 assinalam-se os 100 anos do início daquela a que se viria a chamar "A Grande Guerra".
Infelizmente todos nós conhecemos o horror que a mesma foi, bem como as consequências que ela teve.

Para lembrar a efeméride, um pouco por toda a parte, nomeadamente na Europa, organizaram-se diversos eventos e cerimónias solenes.
De todos estes acontecimentos nenhum me marcou especialmente. Apenas ficou no fundo da minha memõria que a guerra tinha começado, fazia agora cem anos.

Mas a arte tem destas coisas. No momento em que menos esperava, a lembrança desta guerra e das vitmas que ela causou, cairam-me em cima, da forma mais estranha que eu poderia imaginar.
Neste verão, ao chegar junto da Torre de Londres fui surpreendido com um espectacular memorial aos soldados mortos na Grande Guerra.
Uma instalação, da autoria de  Paul Cummins, cercou a Torre de Londres com 888.246 papoilas vermelhas, em cerâmica. Uma por cada soldado britânico morto durante a guerra.

O contraste entre o imenso campo florido e a estrutura militar (também ela de má memória) onde as flores foram “plantadas”, tornava o conjunto um misto de dramático, estranho e ao mesmo tempo fascinante.

Mesmo que se desconheça a intenção ou o significado da obra, a visão desta mancha vermelha que “escorre” das muralhas é arrebatadora, sendo impossível ficar-lhe indiferente.
Para o provar bastava o facto da multidão de visitantes que, como eu, olhava o fosso florido, se ter mantido num silêncio ou num sussurro quase religioso, enquanto contemplava a obra.

É face a obras como esta que me reconcilio com as ditas "instalações".

Ah! Apenas como curiosidade: a esta instalação o autor deu o nome de "Blood Swept Lands and Seas of Red" (o sangue cobriu as terras e os mares de vermelho). Mas ter este ou outro nome não altera em nada o impacto da sua visão.


Informação adicional em:
WW1 UK Events
poppies.hrp.org.uk
A Primeira Guerra Mundial - Wikipedia

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Aliens

Bairro dos pescadores, Aberdeen - 1987
Em 1987, nós e uns amigos nossos, fomos de férias para a Grã-Bretanha.
Acampados em Edimburgo, decidimos ir conhecer um pouco mais da Escócia, tendo-nos o comboio levado até Aberdeen.

A viagem foi de um dia. Saimos de manhã e regressamos a Edimburgo no final da tarde. Talvez por essa razão, as recordações que tenho de Aberdeen sejam um pouco difusas e inconsistentes.

Lembro-me de como me impressionou o porto, cheio de guindastes, de navios de carga e enormes navios de pesca (que contrastavam com a ideia que eu tinha, de que a pesca era feita por traineiras como as de Peniche, que povoaram a minha infância) e lembro-me do pequeno bairro de pescadores, junto ao mar e longe do centro, onde, na fachada de algumas das pequenas casas, estavam expostas miniaturas de embarcações.

Mas lembro-me, sobretudo, de uma das mais estranhas sensações que já tive em toda a minha vida: a de ser um estranho ou um alien, como diriam os ingleses (neste caso os escoceses)..

Chegados relativamente cedo a Aberdeen fomos percorrendo a cidade. Com o avançar da manhã a fome começou a insinuar-se, pelo que procuramos um lugar para almoçar. Consultadas as diversa listas e preços dos pubs por onde passamos, decidimo-nos por um que se enquadrava nas nossas expectativas.
Situava-se num edifício que teria sido um armazém. Tinha uma porta dupla, opaca, e apenas denunciava ser um pub, pelo facto de ter junto à porta de entrada um placard com a ementa e os respectivos preços.

Empurramos as portas e entramos. O interior era escuro, contrastando com o sol que brilhava no exterior.
Lá dentro, como é normal, um balcão corrido separava o empregado dos clientes. A diferença estava mesmo aí, nos clientes. Todos pareciam ter saído de um filme de motards ou rockers. Vestiam-se maioritariamente de cabedal negro, com aplicações metálicas e botas também elas escuras.

Ao entramos fez-se um estranho silêncio (ou terá sido apenas imaginação minha?). Todos pararam e olharam para os dois casais estranhos, vestindo camisolas claras, jeans e ténis, que acabavam de entrar. O contraste não podia ser maior.
Olhámos, olhámos à volta e, sem uma palavra, demos meia volta e regressámos à rua.

Acabámos a almoçar num pub igual a muitos outros e que não nos deixou memória.

Ainda hoje não sei se não perdemos uma boa oportunidade de conhecer um pub diferente, com clientes originais. Ninguém nos fez mal (nem julgo o que fizessem) mas nós não éramos dali.

domingo, 13 de julho de 2014

Realidade aumentada

A Tower Bridge e o City Hall vistos do Monumento, Londres - 2010
The Monument.
Também eu subi os muitos degraus que nos levam até uma vista panorâmica verdadeiramente extraordinária sobre Londres. Mas não me lembro de ter ficado sem respiração e de considerar que nunca mais lá subiria. Enfim, na minha infância, de acordo com as modernas considerações e a opinião da minha mãe, eu devia ser hiperativa, o que me facilita muito a vida no que respeita a escadas de caracol. Claro que as 3 libras que nos pedem para trepar uma escadinha de caracol, onde não há espaço para nos cruzarmos com um alfinete, podem ser um impedimento, mas tenho de considerar que uma hora de exercício aeróbico num ginásio qualquer sai mais cara e não tem a recompensa da vista.
A vista é simplesmente única - 360 graus de telhados londrinos numa mistura de vidro da City, onde o "Gherkin" impera, de guindastes, gruas, e prédios anónimos, com o Tamisa a servir de pano de fundo ao City Hall e à imagem de postal da Tower Bridge. De St.Paul's a Westminster e à London Eye, Londres torna-se uma paisagem de filme.

O incêndio de Londres foi, aparentemente, a maior desgraça da cidade. Mas, de acordo com alguns autores, pode também ter contribuído para a salvação da mesma.
Quando o fogo deflagrou, a cidade tinha sido consumida pela peste durante um ano levando a que uma parte importante da população a tivesse abandonado e outra parte importante tivesse morrido. Por um lado, um número substancial de pessoas foi poupado ao fogo;  por outro, talvez o fogo tenha destruído as causas da peste e dado origem a uma cidade mais limpa e ordenada. No entanto, nunca se chegou a uma conclusão quanto ao número de mortos que o fogo terá feito. Oficialmente poucos; na realidade, possívelmente, muitos.

Mas se o Terramoto de Lisboa, uma catástrofe igualmente avassaladora, eliminou as velhas estruturas medievais e obrigou ao nascimento de uma cidade nova, parece que o Grande Fogo não teve para Londres o mesmo efeito. A cidade nova esperaria ainda 300 anos semeados de epidemias de cólera, de blitz e de smog,  para então surgir em corpos de vidro e aço apontando para o céu.

O Monumento continua lá com os seus 311 degraus mas cá por mim irei subir a um 68º andar para ver uma vista ainda mais ampla: a realidade aumentada espera por mim no The Shard.

Mas, desta vez, de elevador.


The Monument to the Great Fire of London
The Shard
The View from the Shard - the sights and sounds of London


sábado, 5 de julho de 2014

O Monumento

"The Monument", Londres - 2010


A 2 de Setembro de 1666 a padaria de Tomas Farriner, em Pudding Line, incendeia-se.
O fogo é extinto apenas a 5 de Setembro, tendo consumido 44 edificios públicos, 87 igrejas, a catedral de St. Paul e aproximadamente 13.200 casas. Mais ou menos 1/3 da cidade de Londres de então.
Foi "O Grande Incêndio".

Para relembrar o facto, entre 1671 e 1677, foi construída uma coluna de pedra, no estilo dórico romano, com 62 m de altura (202 pés) e que se situa a 62 m (202 pés) do local onde se iniciou o incêndio. A esta coluna foi chamado o "Monumento do Grande Incêndio de Londres" ou "O Monumento", para os íntimos.

O Monumento, que domina toda a zona envolvente, tem no seu interior uma estreita escada em caracol, com 311 degraus (dizem, porque não os contei), que permite o acesso à parte superior da coluna.
Uma vez subida a escada, caso não se tenha desfalecido e após recuperar a normal respiração, temos acesso a uma estreita varanda com uma vista espectacular sobre a cidade.

Estive lá num domingo de Agosto de 2010 e paguei 3 libras para subir os degraus até lá acima. De facto a vista é belíssima, arriscando-se mesmo a ser única, uma vez que não sei se e quando lá voltarei. Com a idade o fôlego tende a diminuir.

Mas vale a pena a subida. Mais não seja porque no fim, quando regressamos ao "chão", dão-nos um diploma em como subimos lá acima, e sobrevivemos.



Informação adicional em:
The Monument
Monumento to the Great Fire of London (wikipedia)

domingo, 18 de maio de 2014

Circular em contramão

M1 direcção Leeds, Grã-Bretanha - 2006
Se não sairmos do lugar que conhecemos arriscamo-nos a tomar como certa e universal a realidade que nos rodeia, medindo tudo apenas pelos padrões que conhecemos.

Ao sairmos dos nossos "domínios" tudo se começa modificar: as pronuncias, a gastronomia, a paisagem ...
Já quando passamos para outro país as mudanças são ainda mais claras, começando, obviamente, pela língua,

Pode-se dizer que o contacto com as diferenças, para além de alargar os nossos horizontes, marca o nosso quotidiano, fazendo com que não volte a ser o mesmo. 

No meio de tanta mudança, existem no entanto coisas que consideramos normalizadas, imutáveis. Coisas que é quase impensável serem de outra forma. Mas que, de facto, o podem ser.

É nesta categoria que se enquadra o sentido da condução, a chamada "mão". Na Grã-Bretanha, aquilo que para nós é uma aberração, uma excêntricidade, enfim um perigo, é para os britânicos a normalidade do dia a dia tornando a nossa realidade excêntrica. Eles conduzem pelo "outro lado".

Da primeira vez que estive em Londres aconteceram-me as peripécias clássicas de quem lá vai: olhar para o lado errado na passadeira (e descobrir que o trânsito está todo do outro lado, parado à minha espera) ou apanhar o autocarro no sentido contrário ao do meu destino.

Mas a coisa fica um pouco mais complicada quando conduzimos neste novo paradigma. Quando nos decidimos a aventurar de carro pela Grã-Bretanha veio-me logo à lembrança a anedota do continental (a nacionalidade varia de acordo com quem conta a piada) que se aventurou pelas autoestradas britânicas e que ouve na rádio o locutor a avisar todos os automobilistas de que havia um carro a circular em contramão. O turista, em tom de desabafo, diz para a mulher "Um condutor em contramão? Estão todos!".

Mas, chegada a hora da verdade, e para minimizar as dificuldades da aventura, decidimos alugar um carro "autóctone", com caixa automática. Na empresa de aluguer, em conversa com a senhora que nos atendia, referimos que, para nós, o sentido da circulação já era um pouco confuso e que gerir as mudanças com a mão esquerda ia torná-lo ainda mais complicado. Rindo-se, a senhora disse-nos que não percebia o problema, uma vez que o fazia normalmente todos os dias.

No entanto esta pequena alteração não se esgota apenas na caixa de velocidades. A lição seguinte na "condução à esquerda para Tótos" é de que o volante está à direita, naquilo que para nós é o lugar do pendura. Ou seja, ao abrir a porta do condutor, descobrimos que temos de contornar o carro e sentarmo-nos do outro lado.
Depois vêm os primeiros metros de condução, ainda no parque de estacionamento, para nós do lado certo mas, para os britânicos, claramente em contramão.
Tendo acertado com o lado correcto da estrada, começam as verdadeiras dificuldades: as rotundas (mesmo assim menos complicadas do que aquilo que me tinham dito) e os entroncamentos (estes sim, verdadeiras dores de cabeça porque temos que "adivinhar" qual a  faixa certa da estrada).
Está nesta categoria a pequena peripécia que me aconteceu num entroncamento em Inverness. Ao arrancar num semáforo, virei à direita, ficando frente a frente com um carro da polícia (com os ocupantes possivelmente a suspirar e a pensar "turistas...") na "minha" faixa. Claro está que a marcha atrás funciona também nos carros de caixa automática, permitindo-me retomar a posição inicial no semáforo. No verde seguinte lá acertei com a faixa correcta.

Apesar da Manela, que seguia no agora lugar do "pendura", ter ficado com mais cabelos brancos e, talvez, alguns problemas cardíacos ("Olha o passeio!!"), o que é facto é que, quando entreguei o carro no final da viagem, me sentia pronto para reiniciar a viagem, agora como um qualquer nativo britânico, embora, claro, com caixa automática.

No final das férias, já no aconchego da "normalidade", todas estas peripécias são belas histórias para contar aos amigos e familiares. No entanto, na minha primeira viagem de carro após as férias, ao virar para a rua da casa da minha mãe dou comigo na faixa esquerda, agora sim em contramão. Felizmente não havia trânsito, o que me permitiu mudar de faixa e seguir o meu caminho.


terça-feira, 22 de abril de 2014

The Temple of Law and Order


The Temple, Londres - 2010
Há momentos e momentos. Há sítios e lugares onde estamos e que são diferentes e reais e que, no entanto, parecem cenas de um filme. 
Este é um deles. O bairro de Temple não é apenas o lugar onde se situa a Temple Church, que já era notável antes do Código da Vinci a ter tornado célebre em palavra e imagem. É uma igreja pequena mas que se impõe, situada no centro de um bairro com caracteristicas muito próprias: The Temple, um dos principais centros legais de Londres e da Justiça Inglesa.
Ali se erguem dois dos principais tribunais (Inns of Court), autoridades locais na área onde se situam. 
Entra-se no bairro a partir de Fleet Street ou da Strand, a norte, ou do Victoria Embankment, a sul. É um lugar sossegado, habitado por salas de audiências e de trabalho de advogados e juízes. Fora das horas de expediente é um lugar reclusivo, de ruas labirinticas, que por vezes terminam em portões de carvalho fechados.

Tudo ali respira Lei e Ordem. Não há opressão ou dureza, mas sim uma atmosfera de silêncio, que nos leva a falar baixo, como se tivessemos entrado num tribunal. Ou numa igreja.

Ora ali também há lojas - elas refletem o que ali se vive.
Obviamente, vendem os adereços que adornam a Justiça Inglesa: togas e becas, para usar os termos portugueses, mas também colarinhos e gravatas e, claro, cabeleiras.
Tinhamos acabado de entrar a partir de Fleet Street e, de repente, ali estava ela. Pequena, discreta, sossegada. Mas de montras tão convidativas.
Empurrei a porta e fui recebida com o sorriso intrigado de quem pensa "Olha uma turista que se perdeu!". Mas a conversa foi fácil: comprar um adereço de juiz para um amigo, como recordação de férias, abriu também a porta para a curiosidade mútua.
O sorriso intrigado deu lugar a sorrisos abertos e a uma conversa bastante longa e amigável. Afinal o dono da loja conhecia Portugal, viajava até cá com frequência, uma vez que era sócio de uma empresa sediada bem perto de nós.
A conversa prolongou-se, deu direito a explicações sobre indumentária e a um aperto de mão alegre e afetivo antes da partida.

E, claro, o Zico ganhou uma gravata de juiz.