Mostrar mensagens com a etiqueta Londres. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Londres. Mostrar todas as mensagens

domingo, 11 de outubro de 2015

Bigger on the inside...


Police Phone Box, Earls Court, Londres - Agosto 2014
Quem passar em Earls Court depara-se, mesmo à saída da estação do metro, com uma cabine telefónica azul.
Nada de especial, não fosse ser objecto constante de fotografias tiradas, a maior parte das vezes, por jovens turistas que arrastam atrás de si a clássica mala de rodinhas, companhia de quem anda a viajar.
Não passa aparentemente de uma cabine telefónica da policia, igual a outras, outrora muito comuns na cidade de Londres, a partir das quais se podia fazer uma chamada de emergência direta à polícia, que podia localizar e socorrer rapidamente quem estivesse em situação difícil.

Mas é aí que está o engano dos incautos que por ela passam, ignorando a verdadeira natureza da cabine.
Não, não se trata de uma vulgar Police Box, mas sim de uma TARDIS, uma "Time And Relative Dimension In Space" time machine, uma máquina consciente que permite ao seu utilizador viajar no tempo e no espaço, dotada de um "circuito camaleão" que lhe permite adotar a aparência de um qualquer objeto comum no local e tempo de chegada. Maior por dentro do que o seu aspeto nos deixa adivinhar.
O sonho de qualquer viajante...

Está ali desde sempre, atraindo viajantes de todo o mundo que conhecem o segredo que ali se esconde e a rondam procurando ter um vislumbre do seu dono, conhecido apenas por Doctor.Who? perguntam os menos informados. Sim, esse mesmo: o viajante do tempo e do espaço que se apaixonou pela Terra e a escolheu, de todo o Universo, como planeta de adoção, depois de ter visto o seu próprio planeta destruído por uma guerra sem fim nem solução. Ninguém sabe o seu verdadeiro nome, mas quem precisa de ajuda não precisa de o chamar. A TARDIS sabe onde o deve levar.

Figura mítica da BBC, Doctor Who, o Doctor, como é conhecido, é a série televisiva com mais longa emissão conhecida, tendo iniciado emissão em 1963 e celebrado 50 anos de vida em 2013. Tornou-se ao longo dos anos uma série de culto que acompanhou o crescimento de pais e filhos, muitas vezes cúmplices na devoção pela série.

Num período em que a guerra fria e muitas guerras quentes se travavam no planeta, Doctor Who trouxe para o ecrã televisivo a recusa da guerra como solução, a linguagem do diálogo necessário e possível entre inimigos, a consciência de que a a violência apenas conduz à destruição do planeta e dos seres que o habitam. Falava de paz e compaixão, de perdão e memória. A violenta simplicidade das histórias conseguiu uma multidão de seguidores fiéis e tornou-se parte integrante da cultura popular britânica.
O culto renasceu em 2005 quando a BBC relançou a série que ganhou uma nova onda de seguidores, muitos deles filhos de antigos seguidores. São esta nova geração que vai a Earls Court prestar o seu tributo ao Doctor.

As Police Box azuis, comuns em Londres nos anos sessenta, foram progressivamente desmontadas durante os anos setenta e oitenta, mas esta foi ali levantada em 1996. Deveria ser apenas uma cabine como as outras, mas para os milhões de adeptos do Doctor Who ela é a TARDIS, um local de visita obrigatória.

Também nós por lá passámos e tirámos a inevitável fotografia, rondando a porta, na esperança de que alguém a abrisse e pudéssemos fianlmente saber quem era o verdadeiro Doctor.
Não tivemos essa sorte. Mas, para todos os efeitos, sabemos onde o podemos procurar.

É que nos tempos que correm nunca se sabe quando precisamos de ajuda...


Police Box
BBC - Doctor Who Site Oficial
TARDIS
Doctor Who
Somerton TARDIS


domingo, 30 de agosto de 2015

Speedy's - Sandwich Bar & Cafe

Speedy's, Londres - 2014
Perdoem-me os que não são apreciadores ou conhecedores da série televisiva da BBC "Sherlock" mas ter estado no Speedy's e não referir o lugar seria um crime.

Para quem não está familiarizado com a série poderei dizer que esta é uma fabulosa adaptação das obras originais de Conan Doyle, transpostas para os nossos tempos.
Sherlock é um génio convencido e mimado, Watson um traumatizado veterano do Afeganistão e Moriarty um génio demente. Todas as interpretações são excelentes, suportadas por um script muito bem elaborado e uma realização desconcertante.
Apesar de terem sido realizados apenas dez episódios, três por temporada e um especial de Natal, foram os suficientes para criar um grupo desmesurado de fãs e uma venda invejável de memorabilia.

Curiosamente, quando pela primeira vez vi na televisão o anuncio à série, a figura de Sherlock pareceu-me excessiva. Um detective super convencido, pedante e que insultava toda a gente que o rodeava. Não me atraiu e, como tal, não vi nenhum dos episódios da série.
Quis o destino que, numa noite de pasmaceira em que não havia nada de interesse na televisão, o zapping me fizesse cruzar com um dos episódios da série, já a meio. 
Como não havia mais nada para ver, perguntei-me a mim mesmo " e porque não ver o que isto é?"
E foi a minha desgraça. No final do episódio estava rendido.

Mas o que é que tudo isto tem que ver com o Speedy's?
Na série, as filmagens da casa de Sherlock não se realizaram em Baker Street, rua muito movimentada, mas sim na pacata North Gower Street. Junto ao Speedy's.

Apesar do Speedy's já existir antes da série televisiva, foi com ela que ganhou notoriedade, passando de um desconhecido café de bairro ao local de romaria e culto dos fãs da série.

E foi assim que, numa calma manhã de Agosto, perto das 10 da manhã, emergimos da estação de metro de Euston, à procura do dito cujo café. De mapa na mão, lá fomos entrando no sossegado bairro. 
Ao fim de alguns metros, ao virar de uma esquina, ali estava ele. Um café de bairro, pacato, com duas mesas na esplanada, na altura ocupadas por alguns operários que faziam a sua pausa, para beber um café.

Contemplamos o exterior e decidimos, num acto corajoso, entrar e beber também nós um café (corajoso porque, de uma forma geral, o café em Londres é mau).
Ao abrirmos a porta apercebemo-nos da pequenez do lugar. Nas paredes fotografias das filmagens, numa decoração sóbria e despretenciosa, confirmavam a sua ligação à série.
O café estava sossegado mas cheio. Maioritariamente de fãs, uma vez que apenas duas ou três pessoas tinham ar de serem habitantes do bairro, Os restantes clientes destoavam completamente.

Face à lotação esgotada da sala, quando uma simpática empregada nos perguntou o que desejávamos, pedimos três "moka" para levar (o chocolate ameniza o gosto)
Já cá fora, sentados num muro junto ao café, a bebericar as nossas bebidas, fomo-nos apercebendo da silenciosa romaria que ia decorrendo na rua.

Tal como nós, notórios fãs, sós ou em grupo, de mala de viagem a rasto ou mochila às costas, iam cumprindo o mesmo ritual (não necessariamente por esta ordem): uma 'inspeção' ao lugar, uma fotografia ao café, uma fotografia frente ao café ou sentados na esplanada, uma volta pelas redondezas, uma espreitadela ao interior... enfim, tudo aquilo que um fã faz quando se encontra num lugar que, reconhecidamente, pertence ao universo da sua devoção.
Curiosamente sempre num 'registo' discreto, respeitoso, diria mesmo religioso, de quem não quer interromper nada mas apenas "viver" o lugar.

Esgotada a bebida e saboreado o lugar, seguimos o nosso caminho de regresso ao metro. Não sem antes notar uma pequena curiosidade: a casa que seria a morada de Sherlock na série, estava à venda.
Decididamente Holmes já não morava ali.


Informação adicional em:
Speedy's Cafe
Sherlockology - Speedy's cafe

Sherlock na Wikipedia
I Believe in Sherlock Holmes

domingo, 26 de julho de 2015

221 B

Baker Street, Londres - 2014
Baker Street. Em 1985, no primeiro ano que fomos a Londres, esta teria de ser uma das paragens obrigatórias.

A avidez de vermos o mais possível, no pouco tempo que tínhamos, obrigou-nos a fazer escolhas. Alguns museus ficaram de fora e noutros apenas visitamos uma ou outra sala. O mesmo aconteceu com ruas ou bairros. Se uns ficaram de fora do nosso roteiro, outros houve que apenas vimos de dentro de um autocarro.

Mas Baker Street era um destino obrigatório.
Sir Arthur Conan Doyle tornou-a uma das ruas mais populares de Londres ao situar ali a morada daquele que é, talvez, o mais famoso detective: Sherlock Holmes.

O passe de Londres levou-nos de metro até à estação de Baker Street, fazendo-nos sair directamente na rua do mesmo nome.
A rua, com passeios folgados e prédios de três andares, tinha bastante transito. De cabeça no ar, fomos seguindo a sequência dos números das portas até finalmente chegarmos ao tão desejado 221B.

A desilusão não poderia ser maior. Um prédio de habitação semelhante aos demais e nenhuma referência à celebridade da porta.
A imagem que me vem hoje à ideia, é de eu estar no passeio de uma rua com muito trânsito automóvel, a olhar para uma porta e eventualmente a pensar: "Pronto. É isto."

Felizmente nesse mesmo ano, numa das nossas voltas ao acaso, deparamo-nos, junto a Charing Cross, com o Sherlock Holmes... o Pub. Ali sim, havia uma sala, um pequeno museu, evocativo da personagem.

A recente realização de alguns (bons) filmes (nomeadamente o realizado por Guy Ritchie em 2009) e séries de televisão (entre boas - Sherlock da BBC - e menos boas - Elementary da CBS), reavivou a popularidade e a memória do detective.

Assim, quando no ano passado saímos do metro na estação de Baker Street, para mostrar a célebre morada à nossa filha, nada me preparava para o que nos esperava.
Ao contrário da primeira visita, não foi preciso procurara o número 221B.
Do outro lado da rua, ao longo do passeio formava-se uma longa fila de pessoas, sobretudo jovens, que aguardavam a entrada e visita, paga, da conhecida morada.
Na porta ao lado, no 221, entra-se agora para a loja de souvenirs, onde é possível comprar toda a memorabilia do detective.

Embora esta fosse uma visão próxima do que esperava encontrar na minha primeira visita, reconheço hoje que não sei qual das duas foi a mais desiludente.

Felizmente o Sherlock Holmes, o Pub, continuava igual a si mesmo, permitindo acabar o dia curando as 'mágoas' frente a um pint de boa cerveja.


Informação adicional em:
Sherlock Holmes
Sherlock Holmes na Wikipedia
Sherlock Holmes, o pub

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Acampar

Crystal Palace, Londres - 1985

1985
Quando chegámos a Londres, em agosto de 85, íamos em busca da cidade-mito para onde confluíam milhares de jovens de todo o mundo, em busca da essência da liberdade.
Para trás ficavam dois dias de camioneta (os autocarros da Eurolines corriam a Europa) até Paris, uns dias de descanso e visita à cidade, mais umas horas de camioneta e a travessia da Mancha em ferry boat.

Não conheço ninguém que tenha chegado a Inglaterra de barco e avistado as falésias brancas de Dover, e feito uma entrada triunfal em Londres às 5 da manhã, com o dia a nascer, pela ponte de Westminster.
A primeira visão que eu e o Mário tivemos da cidade, foi o Palácio de Westminster e o Big Ben. Só isso chegou para me apaixonar imediatamente pela cidade.
Quando saímos na estação de Victoria ainda não estavamos tão endinheirados que tivessemos reserva num hotel. Não. As mochilas que transportavamos levavam tudo o que era necessário para acampar confortavelmente.
Só era preciso encontrar um parque. Os postos de Turismo, de aspeto eficiente, estavam ali para isso.
Uma senhora deu-nos um mapa da cidade e as indicações de metro necessárias para chegar ao parque de campismo de Acton. Era um bocadinho longe mas o trajeto era rápido.

Trazíamos “na bagagem” as máquinas fotográficas, Travellers Cheques, e bilhetes de comboio que nos iriam permitir correr a Grã-Bretanha durante oito dias. Só faltava montar a tenda.
Quando saímos na estação de Acton deparámo-nos com um outro lado de Londres. Um bairro de subúrbio, de aspeto pobre e mal cuidado, semeado de gente de aspeto dúbio. Mas o cenário não estava completo – o parque de campismo que se nos deparou só podia ser produto de uma alucinação. Num recinto enorme, de limpeza mais que duvidosa, erguiam-se tendas verdes de exército, onde dormiam aqueles que não tinham tenda, uma tenda coletiva que mais parecia uma tenda de circo, não se viam instalações sanitárias e tudo parecia saído de um campo de refugiados.
Dirigimo-nos à recepção na esperança de que nos dissessem que aquilo não era o parque que procurávamos. Mas não. Gente desagradável e notoriamente cansada e sem paciência, atendia quem chegava. Disseram-nos desabridamente que montar a tenda era um risco, pois podia ser roubada, e que convinha que deixassemos as mochilas e os nossos pertences na recepção. Deram-nos, a cada um, um saco enorme de lona para meter as mochilas e tudo o mais lá dentro, e um  cadeado para o fechar.
Só me apetecia chorar e voltar para casa. Ainda tentámos fazer o que nos disseram mas a voz da razão falou mais alto. Que diabo... devia haver gente que acampava. E com roulotes. Gente que não podia permitir que lhe roubassem o meio de transporte. Não, ali não ficávamos. Nem que andássemos oito dias de comboio e só guardássemos de Londres a “entrada triunfal”. Que se “lixassem”... Devolvemos sacos e cadeados numa profunda irritação e num surdo desespero de quem está perdido em terra estranha.

Metemo-nos no metro e voltámos ao turismo a Victoria Station.
Reclamámos contra o que tinhamos visto e ameaçámos fazer queixa a alguém. Um funcionário mais atento deu-nos outra indicação, desta vez a sul de Londres. Apanhámos um autocarro direto que levou quase uma hora a chegar lá e nos permitiu ver outros bairros, de pequenas casinhas iguais e bem cuidadas.

Quando descemos na última paragem e virámos a esquina, as bandeiras hasteadas à porta de um recinto cercado, cheio de árvores e flores, devolveram-nos o sorriso rapidamente. A simpatia do casal escocês que nos recebeu acompanhou-nos todo o tempo que lá ficámos.

Quando acabámos de montar a tenda sentámo-nos a olhar o vale que abrigara o edifício da mais célebre exposição do século XIX: estavamos em Crystal Palace.
E sentimo-nos em casa.

domingo, 3 de maio de 2015

Passeios de domingo

Londres, Inglaterra - 2010
Foi num domingo de Agosto. 
O metro tinha-nos deixado junto à praça de Trafalgar. O dia estava solarengo, convidando a passear, ou seja, enfiarmo-nos num qualquer museu ou edifício estava fora de questão.

Antes de sairmos do hotel tínhamos tomado, calmamente, um substancial pequeno almoço, pelo que a ideia de caminhar pelas ruas, sem um destino específico, fugindo dos turistas e da confusão, foi uma opção unanimemente aceite.

Depois de andarmos algum tempo ao acaso, demos por nós na City, numa qualquer praça secundária, no meio de uma mistura de edifícios modernos e antigos.

O facto de não ser um dia de trabalho dava àquelas ruas, e particularmente aquele lugar, uma calma pouco habitual, fazendo-me lembrar as manhãs de domingo da minha infância, quando não se via vivalma na rua por estar tudo ainda a preguiçar em casa. 
Não fosse o ruído de fundo de um longínquo trânsito automóvel e eu diria que só faltava mesmo ouvir o cantar de um canário numa gaiola, pendurada numa qualquer janela, para o paralelismo ser perfeito.

Enquanto estava neste meu pensamento nostálgico, o meu olhar foi percorrendo os edifícios que nos circundavam, quiçá na esperança de ver uma janela onde colocar o dito canário.
Foi nesse deambular pelas fachadas que me apercebi de algo inusitado.
Num dos edifícios mais afastados, aí pelo que seria um sétimo ou oitavo andar, estavam três figuras penduradas em cabos que vinham do telhado.

Primeiro quase imóveis, davam a sensação de que estariam ali reunidas para apanhar um pouco de ar e sol e conviver umas com as outras.
Passado um pouco desceram lentamente mais uns "andares", fazendo nova pausa.

A visão era estranha embora curiosa e serviu para umas breves trocas de comentários entre nós.
De facto, porque não aproveitar os enormes edifícios de escritórios, quando estes estão "adormecidos", para actividades de lazer? E se não temos montanhas por perto, porque não praticar "alpinismo" e/ou escalada numa cidade?

Passado o impacto do inesperado fiquei com alguma inveja daquele grupo. Para além do desporto em si, a perspectiva da cidade, durante todo o percurso, deveria ser fantástica, partindo do principio de que não iria ter vertigens e ficar colado ao chão, no telhado.

Depois de comentarmos entre nós a curiosidade do facto seguimos o nosso percurso domingueiro, na descoberta de outras facetas de uma Londres desconhecida.


PS: Espero que a minha interpretação dos factos esteja correcta e não tenha sido testemunha de nenhum assalto arrojado.

domingo, 23 de novembro de 2014

Natal em Agosto

Armazéns Harrods, Londres - 2006
Diz a tradição que o "Natal é quando um homem quiser".

Estávamos nós no inicio de Agosto de 2006 quando, para grande espanto e noticia nos media, os armazéns Harrods, em Londres, anunciaram a abertura da secção de Natal.
Numa época do ano em que boa parte das pessoas só pensa em calor e sol, falar no Natal parece ser um contracenso. Mas pelos vistos não é.

Calhou estarmos em Londres, quando este anuncio se deu. Obviamente não poderíamos deixar passar a oportunidade de entrar em tão controverso lugar.
Foi assim que, numa bela tarde de Agosto, lá fomos nós visitar a propagada secção.

O espaço, composto por várias salas, era todo ele interior, permitindo-nos esquecer, por instantes, o sol e os vinte e muitos graus que estavam na rua.

Passado o primeiro impacto e à medida que fomos entrando nas salas, fomos sendo envolvidos pelas decorações que nos lembravam a neve e os agasalhos do inverno, pelas luzes coloridas e pelos materiais cintilantes, fazendo-nos entrar  no espírito natalício e transportando-nos para outra época do ano.
Tudo isto sem estranhar que, naquele ambiente, as pessoas estivessem com roupas frescas, tais como calções ou  camisolas de manga curta.
Esta nova realidade anacrónica, acabou por gerar e envolver-nos numa certa atmosfera "mágica".

Terminada a visita (tendo eu resistido, por vezes com alguma dificuldade, a comprar enfeites natalícios), regressamos de novo à rua e à realidade de Agosto.
No entanto, esta meia hora deixou-me o estranho sentimento de ter vivido numa realidade paralela, onde o calor e o Natal se misturaram.

Não esquecendo que tudo isto foi uma bem montada manobra de marketing, não é pois de admirar que, muitos dos visitantes desta nova secção, tenham saído cheios de embrulhos.

Infelizmente esta experiência faz-me pensar que, ao contrário do dito popular, nos tempos que correm "Natal é quando o marketing quer".


Nota: actualmente a abertura da secção de natal do Harrods realiza-se em Julho.


Informação adicional em:
A parada de Natal, no Daily Mail
A noticia da 'chegada' do Natal, no Guardian

domingo, 5 de outubro de 2014

Memória

Torre de Londres, Londres - 2014
Sempre fui muito critico com as chamadas “instalações".
Das muitas que já tive oportunidade de ver ao longo dos anos, poucas foram aquelas de que eu tenha gostado, reconhecido o sentido, ou impressionado.
Na minha perspectiva não é só o facto de se descontextualizar um objecto, reestruturar um conjunto de objectos, ou recriar um espaço, que me faz considerar só por si, que isso seja arte ou, no minimo, uma provocação. No entanto há honrosas excepções que me fazem considerar e dar credibilidade ao género,

Neste ano de 2014 assinalam-se os 100 anos do início daquela a que se viria a chamar "A Grande Guerra".
Infelizmente todos nós conhecemos o horror que a mesma foi, bem como as consequências que ela teve.

Para lembrar a efeméride, um pouco por toda a parte, nomeadamente na Europa, organizaram-se diversos eventos e cerimónias solenes.
De todos estes acontecimentos nenhum me marcou especialmente. Apenas ficou no fundo da minha memõria que a guerra tinha começado, fazia agora cem anos.

Mas a arte tem destas coisas. No momento em que menos esperava, a lembrança desta guerra e das vitmas que ela causou, cairam-me em cima, da forma mais estranha que eu poderia imaginar.
Neste verão, ao chegar junto da Torre de Londres fui surpreendido com um espectacular memorial aos soldados mortos na Grande Guerra.
Uma instalação, da autoria de  Paul Cummins, cercou a Torre de Londres com 888.246 papoilas vermelhas, em cerâmica. Uma por cada soldado britânico morto durante a guerra.

O contraste entre o imenso campo florido e a estrutura militar (também ela de má memória) onde as flores foram “plantadas”, tornava o conjunto um misto de dramático, estranho e ao mesmo tempo fascinante.

Mesmo que se desconheça a intenção ou o significado da obra, a visão desta mancha vermelha que “escorre” das muralhas é arrebatadora, sendo impossível ficar-lhe indiferente.
Para o provar bastava o facto da multidão de visitantes que, como eu, olhava o fosso florido, se ter mantido num silêncio ou num sussurro quase religioso, enquanto contemplava a obra.

É face a obras como esta que me reconcilio com as ditas "instalações".

Ah! Apenas como curiosidade: a esta instalação o autor deu o nome de "Blood Swept Lands and Seas of Red" (o sangue cobriu as terras e os mares de vermelho). Mas ter este ou outro nome não altera em nada o impacto da sua visão.


Informação adicional em:
WW1 UK Events
poppies.hrp.org.uk
A Primeira Guerra Mundial - Wikipedia

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

It’s raining again...

Heidelberg, agosto 2007
É espantoso como neste blog ainda nenhum de nós falou daquilo que é a praga temida das viagens e dos viajantes: a chuva.
Durante anos as nossas “idas a férias” significavam literalmente “idas a banhos”, não de mar, mas de chuva. Os amigos chegaram a ser prevenidos de que viajar conosco podia significar chuva ou mau tempo, ou os dois, se pudesse ser.
Chegámos a ser avisados numa estação de observação meteorológica, neste caso em Mont Aigoual, de que descer pela encosta norte significava apanhar uma boa chuvada. Isso não nos impediu de descer por lá e de apanhar uma torrente que nos obrigou (e a mais uns quantos afoitos turistas...) a parar até a chuva abrandar um pouco.
A primeira vez que fomos para Londres apanhamos bastante chuva – como seria de esperar - mas nada que nos impedisse de andar pelas ruas e gozar as férias. Acabámos por tomar como hino desse ano um dos êxitos dos Supertramp, que um grupo de jovens cantava na rua alegremente numa noite de chuva.
Depois seguiram-se muitos outros momentos gloriosamente chuvosos: a entrada em Rennes; a chegada ao campismo de Tarbes; a primeira vez que chegamos a Rocamadour depois de uma “orage”; a última vez que entrámos em Inverness (em contramão e em plena feira pecuária); as muitas idas a Santiago, onde “a chuva é uma arte”; a estadia em Salzburgo, em Heidelberg, em Odense, a ida a Carnac... sei lá. Isto só para nomear alguns. Férias sem chuva não eram férias.
Mas bem vistas as coisas, o facto é que a chuva dá a todas as paisagens uma tonalidade menos turística, como se os lugares se mostrassem com a roupa de todos os dias, sem enfeites nem artifícios.
E tem permitido momentos fotográficos inusitados: afinal para nós é que a chuva é uma “chatice”, que aparece para arruinar aqueles poucos dias em que queremos viver num mundo perfeito. Mas para quem vive o dia a dia, a chuva é apenas o inconveniente que apressa o passo mas não impede a ida às compras.
Por isso o melhor é continuarmos a cantarolar os Supertramp, mesmo que a letra não nos pareça a mais adequada:

                 It's raining again
                 Oh no, my love's at an end.
                 Oh no, it's raining again
                 Too bad I'm losing a friend.

                 C'mon you little fighter
                 No need to get up tighter
                 C'mon you little fighter
                 And get back up again
                 Oh get back up again
                 Fill your heart again...





domingo, 13 de julho de 2014

Realidade aumentada

A Tower Bridge e o City Hall vistos do Monumento, Londres - 2010
The Monument.
Também eu subi os muitos degraus que nos levam até uma vista panorâmica verdadeiramente extraordinária sobre Londres. Mas não me lembro de ter ficado sem respiração e de considerar que nunca mais lá subiria. Enfim, na minha infância, de acordo com as modernas considerações e a opinião da minha mãe, eu devia ser hiperativa, o que me facilita muito a vida no que respeita a escadas de caracol. Claro que as 3 libras que nos pedem para trepar uma escadinha de caracol, onde não há espaço para nos cruzarmos com um alfinete, podem ser um impedimento, mas tenho de considerar que uma hora de exercício aeróbico num ginásio qualquer sai mais cara e não tem a recompensa da vista.
A vista é simplesmente única - 360 graus de telhados londrinos numa mistura de vidro da City, onde o "Gherkin" impera, de guindastes, gruas, e prédios anónimos, com o Tamisa a servir de pano de fundo ao City Hall e à imagem de postal da Tower Bridge. De St.Paul's a Westminster e à London Eye, Londres torna-se uma paisagem de filme.

O incêndio de Londres foi, aparentemente, a maior desgraça da cidade. Mas, de acordo com alguns autores, pode também ter contribuído para a salvação da mesma.
Quando o fogo deflagrou, a cidade tinha sido consumida pela peste durante um ano levando a que uma parte importante da população a tivesse abandonado e outra parte importante tivesse morrido. Por um lado, um número substancial de pessoas foi poupado ao fogo;  por outro, talvez o fogo tenha destruído as causas da peste e dado origem a uma cidade mais limpa e ordenada. No entanto, nunca se chegou a uma conclusão quanto ao número de mortos que o fogo terá feito. Oficialmente poucos; na realidade, possívelmente, muitos.

Mas se o Terramoto de Lisboa, uma catástrofe igualmente avassaladora, eliminou as velhas estruturas medievais e obrigou ao nascimento de uma cidade nova, parece que o Grande Fogo não teve para Londres o mesmo efeito. A cidade nova esperaria ainda 300 anos semeados de epidemias de cólera, de blitz e de smog,  para então surgir em corpos de vidro e aço apontando para o céu.

O Monumento continua lá com os seus 311 degraus mas cá por mim irei subir a um 68º andar para ver uma vista ainda mais ampla: a realidade aumentada espera por mim no The Shard.

Mas, desta vez, de elevador.


The Monument to the Great Fire of London
The Shard
The View from the Shard - the sights and sounds of London


sábado, 5 de julho de 2014

O Monumento

"The Monument", Londres - 2010


A 2 de Setembro de 1666 a padaria de Tomas Farriner, em Pudding Line, incendeia-se.
O fogo é extinto apenas a 5 de Setembro, tendo consumido 44 edificios públicos, 87 igrejas, a catedral de St. Paul e aproximadamente 13.200 casas. Mais ou menos 1/3 da cidade de Londres de então.
Foi "O Grande Incêndio".

Para relembrar o facto, entre 1671 e 1677, foi construída uma coluna de pedra, no estilo dórico romano, com 62 m de altura (202 pés) e que se situa a 62 m (202 pés) do local onde se iniciou o incêndio. A esta coluna foi chamado o "Monumento do Grande Incêndio de Londres" ou "O Monumento", para os íntimos.

O Monumento, que domina toda a zona envolvente, tem no seu interior uma estreita escada em caracol, com 311 degraus (dizem, porque não os contei), que permite o acesso à parte superior da coluna.
Uma vez subida a escada, caso não se tenha desfalecido e após recuperar a normal respiração, temos acesso a uma estreita varanda com uma vista espectacular sobre a cidade.

Estive lá num domingo de Agosto de 2010 e paguei 3 libras para subir os degraus até lá acima. De facto a vista é belíssima, arriscando-se mesmo a ser única, uma vez que não sei se e quando lá voltarei. Com a idade o fôlego tende a diminuir.

Mas vale a pena a subida. Mais não seja porque no fim, quando regressamos ao "chão", dão-nos um diploma em como subimos lá acima, e sobrevivemos.



Informação adicional em:
The Monument
Monumento to the Great Fire of London (wikipedia)

terça-feira, 22 de abril de 2014

The Temple of Law and Order


The Temple, Londres - 2010
Há momentos e momentos. Há sítios e lugares onde estamos e que são diferentes e reais e que, no entanto, parecem cenas de um filme. 
Este é um deles. O bairro de Temple não é apenas o lugar onde se situa a Temple Church, que já era notável antes do Código da Vinci a ter tornado célebre em palavra e imagem. É uma igreja pequena mas que se impõe, situada no centro de um bairro com caracteristicas muito próprias: The Temple, um dos principais centros legais de Londres e da Justiça Inglesa.
Ali se erguem dois dos principais tribunais (Inns of Court), autoridades locais na área onde se situam. 
Entra-se no bairro a partir de Fleet Street ou da Strand, a norte, ou do Victoria Embankment, a sul. É um lugar sossegado, habitado por salas de audiências e de trabalho de advogados e juízes. Fora das horas de expediente é um lugar reclusivo, de ruas labirinticas, que por vezes terminam em portões de carvalho fechados.

Tudo ali respira Lei e Ordem. Não há opressão ou dureza, mas sim uma atmosfera de silêncio, que nos leva a falar baixo, como se tivessemos entrado num tribunal. Ou numa igreja.

Ora ali também há lojas - elas refletem o que ali se vive.
Obviamente, vendem os adereços que adornam a Justiça Inglesa: togas e becas, para usar os termos portugueses, mas também colarinhos e gravatas e, claro, cabeleiras.
Tinhamos acabado de entrar a partir de Fleet Street e, de repente, ali estava ela. Pequena, discreta, sossegada. Mas de montras tão convidativas.
Empurrei a porta e fui recebida com o sorriso intrigado de quem pensa "Olha uma turista que se perdeu!". Mas a conversa foi fácil: comprar um adereço de juiz para um amigo, como recordação de férias, abriu também a porta para a curiosidade mútua.
O sorriso intrigado deu lugar a sorrisos abertos e a uma conversa bastante longa e amigável. Afinal o dono da loja conhecia Portugal, viajava até cá com frequência, uma vez que era sócio de uma empresa sediada bem perto de nós.
A conversa prolongou-se, deu direito a explicações sobre indumentária e a um aperto de mão alegre e afetivo antes da partida.

E, claro, o Zico ganhou uma gravata de juiz.