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segunda-feira, 8 de junho de 2015

A grande travessia

Nascer do dia, Espanha - 2008
Quando se pensa em chegar por estrada de Portugal á 'Europa', temos de contar com um grande obstáculo. Não, não estou a falar dos Pirenéus. Estou a falar da Espanha.

Da primeira vez que planeamos chegar a França, de carro, avisaram-nos do problema. 
"O pior é passar Espanha", disseram-nos os nossos amigos que já se tinham lançado nessa grande aventura de ir de carro à descoberta da Europa.

Numa altura em que quase não havia autoestradas, só atravessar Espanha fazia-nos distanciar de França mais de 15 horas de viagem, fora as paragens e o chegar à fronteira (Elvas dista de Perpignan mais de 1.200 Kms, sendo um pouco menos para Bayone, +/- 900 Kms, boa parte na chamada "estrada dos emigrantes").

Assim, colocaram-se-nos duas alternativas: atravessar de dia, fazendo uma paragem para dormir, ou atravessar de noite, dormindo depois já do 'lado de lá'. Isto porque 'não ir' não era alternativa.

O pouco que conhecíamos de Espanha era suficiente para sabermos que, no Verão, as temperaturas no centro do país são bastante elevadas. Por outro lado, perder dois preciosos dias de férias só para chegar aos Pirenéus era um custo elevado.

Foi assim que decidimos seguir os conselhos dos nossos amigos e atravessar Espanha durante a noite.

Em 1991, conduzindo apenas a Manela, saímos de casa por volta das 10 da manhã, chegámos ao Caia no final da tarde, seguimos em direcção a Madrid, Zaragoça (onde entramos pela primeira vez em autoestrada), Barcelona e, já perto do meio-dia, chegámos finalmente a Figueras, onde nos aguardava o hotel.
Chegámos cansados (a Manela bem mais do que eu), esfomeados e com o para-brisas cheio de insectos mortos.

Nesse dia tomamos duas decisões importantes. Uma foi dormir assim que possível, a outra foi nunca mais atravessar Espanha com apenas um condutor.

A travessia seguinte foi em 1994.
Com dois condutores (eu entretanto tirei a carta) a coisa já foi mais fácil.
Mudanças de turno mais ou menos de duas em duas horas, permitiram ir esticando as pernas e descansar mais os olhos e o corpo. Para além disso, graças aos dinheiros da CEE, as autovias e as autopistas começaram a proliferar em Espanha, assim como as autoestradas em Portugal.
Saímos mais tarde de casa e chegámos bem mais cedo e mais "frescos" a Andorra. 

Com a continua melhoria das estradas (trajecto quase todo em via dupla) e do carro (maior, ar condicionado, direcção assistida,...), em 2008 saímos de casa perto das 8 da noite, paramos para "jantar" qualquer coisa e, mantendo as mudanças de turno ao fim de em duas horas, por volta das 7-8 da manhã, já tínhamos estacionado o carro e estávamos a tomar o pequeno almoço em Bayone.

O cansaço à chegada ainda é grande. Mas já não se compara. Quanto ao para-brisas, esse continua cheio de insectos mortos, apesar de os irmos limpando, de vez em quando, nas áreas de serviço.

Já em terras de França ainda é necessário fazer uma pausa para dormir e recuperar forças. Mas ao olharmos o mapa, temos à nossa frente toda a Europa para descobrir. 
Agora o mais difícil é escolher a paragem seguinte.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Mais perto do céu


El Pas de la Casa, Andorra - 1996
Tão depressa nos tolhem o olhar como nos proporcionam horizontes a perder de vista. Pode parecer mas não é o texto de uma adivinha. Refiro-me ás montanhas

Apesar de, durante muito tempo, Montejunto ter sido a maior elevação que vislumbrei, as montanhas são lugares que me fascinam.

Na década de 80 do séc. XX comecei a aproximar-me de pontos mais elevados, digamos que a "subir mais alto". Durante o Verão visitei as serranias do norte de  Portugal e atravessei a quente e escalvada Serra da Estrela (embora, confesso, nunca tenha subido à Torre).

Foi numa dessas derivas pelo norte do país que me apercebi do que é estar lá no alto e do quanto a nossa vista pode, ou não, alcançar. Mas só em 1991, quando pela primeira vez cheguei a Andorra, é que senti, de facto, do que é estar no cimo de uma montanha.
Subi pelo lado francês e, a cada curva do caminho, a paisagem deslumbrava. Já em Andorra, quando a estrada atinge o seu auge (+/- 2.400 m), o horizonte é de cortar a respiração.

A montanha é um lugar estranho. É composta por contrastes. Quando estamos em baixo, no vale, tudo é mais opresso e a luz esconde-se depressa. Quando estamos no alto, olhamos as nuvens de cima, numa extensão a perder de vista.
Por outro lado o clima é muito diversificado e instável. Os nevoeiros não são raros, as chuvas frequentes e até já apanhei o resquícios de um nevão, em pleno Agosto.
Quanto a temperaturas, se a luz do sol escalda durante o dia, assim que este se esconde um frio imenso invade a sombra que se forma.

Acampar em montanha, desde que se tenha material adequado, é uma experiência inigualável. Nas noites limpas tem-se uma visão única do céu. E, no frio da manhã, apanhar os primeiros raios de sol faz-nos compreender a espiritualidade dos monges tibetanos.

Para nosso conforto e rapidez nas deslocações, cada vez mais a tecnologia e a técnica permitem-nos atravessar as montanhas por dentro. Foi assim que cruzei boa parte dos Alpes (o maior túnel que atravessei tinha perto de 15 Km.) o que faz com que, de facto, os conheça mal.
Já no que respeita aos Pirenéus, apesar de apenas os ter atravessado por dois pontos, não foi essa a minha opção de travessia. Este facto faz com que sejam a minha referência para a ideia de montanha.

Talvez por isso, no trajecto para França, sempre que posso evito os túneis, paro lá no alto, no cimo da montanha, e contemplo o horizonte.

Informação adicional em: