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domingo, 1 de março de 2015

Gulodices

Dax, França - 2007
Estávamos nós novamente em Limoux, centro sul de França, terra de Crémant, o tal vinho espumante branco, deliciosamente fresco e agradável, já aqui referido anteriormente. Se o Crémant é o verdadeiro champanhe, de que um monge com poucos escrúpulos e alma de espião se limitou a roubar o segredo da produção para ir fazer espumante lá para o norte, nunca apurámos, o facto é que é digno da degustação que fechava a visita guiada à Abadia de Santo Hilário, e que em várias ocasiões nos levou lá em peregrinação.

Mas esse já foi assunto de outra altura.

Ora bem... numas das visitas a Limoux, enquanto davamos umas voltas em busca de um lugar adequado para almoçar, calhou passarmos por uma das lojas mais representativas da cidade: uma espécie de Martins e Costa (ou Corte Inglês gourmet) em ponto grande.
A loja, situada numa esquina, de enormes vidraças, estava já encerrada, mas as promessas que se abriam no seu interior despertaram em mim os piores instintos: desde os queijos aos foie gras, dos chocolates aos doces, tudo me dizia que era imperativo ali voltar.
Havia nomeadamente uns tabuleiros de miniaturas, na mais refinada tradição da patisserie francesa, que me arrancaram a alma: a mistura artística de chocolate, génoise, fruta vermelha, chantilly e sabe Deus que mais, tinha escrita em grandes letras “Mange-moi!" e eu sempre fui obediente. Aquelas coisinhas belas e deliciosas suspiravam por mim e eu por elas.

Almoçámos, vimos as horas e lá fomos nós (eu, principalmente...) obedecer à tentação.
Entrámos. Estavam lá dentro meia dúzia de empregadas atarefadas em volta de tabuleiros magníficos. 
Uma delas veio atender-me solicitamente. Fiz-lhe o meu pedido (uma duzia de miniaturas que escolheria...) e notei-lhe um constrangimento e uma troca de olhares com as colegas. Perguntou-me quais e perante a minha escolha disse “Não pode ser porque esses tabuleiros estão completos...”. Fiquei parva. Essa agora!! Então quais? Apontou-me dois tabuleiros que me pareceram as sobras. Pensei  “ainda falam mal de Portugal... só visto!” Lá escolhi umas dez miniaturas, não seriam a primeira escolha, mas enfim... tinham um aspeto extraordinariamente bom.  Foram embrulhadas em papel e não numa caixinha, como esperava – o serviço era mesmo mau. E perguntei quanto era.

Foi aqui que o meu mundo se desmoronou.
“Mais c’est rien, madame.”
Não era nada? Como não era nada? Fiquei confusa e deixei de perceber francês.
As empregadas pararam e olhavam para mim deliciadas. A senhora que me atendia repetia que não era nada. E explicou devagar que todos aqueles tabuleiros tão bonitos se destinavam a um casamento e que não podia mexer neles porque estavam contados, mas que dos tabuleiros das sobras não havia problema e que desejava que gostasse muito e que os apreciasse e que tinha muito prazer em oferecer-me aqueles e que me desejava boa viagem e blá, blá, blá...

E eu ali encostada ao balcão a gaguejar protestos e agradecimentos envergonhada de mim e da minha gulodice e dos meus pensamentos...

Saí da loja num misto de vergonha e hilariedade, mas com uma certeza muito profunda: as pessoas podem sempre surpreender-nos e, felizmente, a maior parte das vezes das formas mais simpáticas e agradáveis.

sábado, 3 de maio de 2014

Não há viagem sem sabores

Ploughman's Lunch, Londres - 2010

Já aqui se escreveu sobre café e sobre cerveja, mas sobre aquilo que se come, nada!
E o facto é que comer, experimentar cheiros e sabores, é um dos grandes prazeres da viagem.

Já comemos um pouco em todo o lado – restaurantes, cervejarias, cafés, bares, comboios e barcos, jardins e praças, sentados em cadeiras confortáveis e em degraus de escadas, na relva ou no chão. Até num cemitério. Mas a verdadeira atmosfera está nos mercados.
Os mercados são sítios maravilhosos, cheios de gente, de cor e de cheiros, que nos despertam os sentidos e nos deixam na memória uma mistura de recordações e sensações. Houve o mercado de Cardiff onde comprámos uns Cornish pasties de lamber os dedos, e que comemos sentados em bancos de pedra no cemitério da igreja; o mercado de Salzburgo, onde comemos em pé, com pequenos garfos de madeira, as melhores salsichas de sempre; o de Nuremberga, onde comi as melhores azeitonas que se possa imaginar; o de Helsínquia, onde almoçámos salmão e rena seguidos de morangos doces da Lapónia; o de Notting Hill, onde comemos algo que ainda hoje estamos para adivinhar...

Para além destes, houve inúmeros outros momentos cheios de sabor: os fish and chips de rua, a escaldar-nos as mãos num fim de tarde frio e nevoento em Salisbury; os jantares extraordinários no mercado gastronómico do Festival de Música e Ópera em Viena, verdadeiro festival de sons e aromas; os cabecou (queijinhos de cabra) levemente grelhados, numa esplanada em Rocamadour; a pequena loja num cais no sul da Dinamarca, onde comemos peixes fumados deliciosos; os belíssimos pratos e pinchos no Camilo, em Santiago de Compostela, e as saladas belíssimas no Fazer, em Helsínquia; o monumental ploughman’s lunch num pub em Edinburgo; as galettes e a cidra em Saint-Malo.
Há ainda os restaurantes e cafetarias de museus e bibliotecas. Guardamos deliciosas recordações do Museu Nacional em Copenhaga, do Arctic Centre, em Rovaniemi, do Observatório Astronómico de Helsínquia, do Storytelling Centre em Edinburgo.

E há ainda todas as paragens da viagem e os pequenos restaurantes suspensos no tempo, com bancos largos dos anos 50 e música em surdina; as padarias e pastelarias, com montras que parecem dizer-nos “come-me!”; a estação de serviço em Leeds, onde comprámos fora de horas um jantar improvisado de sandes, num suceder de incidentes hilariantes; e os pubs e inns, em pequenos lugares algures em Inglaterra, onde os pratos nos surpreenderam pelo sabor inesperado e requintado.

Ah! Também há a comida servida no avião... mas é melhor não falarmos nisso.

De há uns anos para cá habituámo-nos a fotografar os pratos que nos servem: em muitos casos a apresentação cuidada e a variedade dos ingredientes são uma constante, mesmo nos pequenos restaurantes, e, se os olhos também comem, guardemos para sempre a recordação do momento.