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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

A Gaita de Foles

Pipefest, Edimburgo - 2015
Não sei porquê, mas sempre que se fala da gaita de foles, a primeira associação que me ocorre é a Escócia. E num dia "bom" posso até, por momentos, vislumbrar a imagem de um escocês no cimo de uma colina, a tocar, solitário, o "Amazing Grace".

Digo que não sei porquê porque, ao longo da minha vida, cruzei-me já com várias versões, de outras tantas nacionalidades, do dito instrumento.

Durante o carnaval, ainda gaiato, assisti vezes sem conta ao desfile de grupos de Zés Pereiras, liderados por um ou dois tocadores de gaitas de foles (e 'perseguidos' por cabeçudos e gigantones).
No entretanto, talvez por me preocupar mais com os cabeçudos e me fascinarem mais os ritmos dos bombos, ignorei quase por completo os pobres dos tocadores de gaita.
Para mim Zés Pereiras sempre foram e serão sinónimo de bombos.

Mas estas não são as minhas únicas referências.
No primeiro dia em que cheguei à Galiza, mais concretamente a Santiago de Compostela, fui brindado nas ruas com modas e muinheiras, musicas onde também predomina o som da gaita de foles. Só que aqui esta é, sonoramente, mais doce e dançante.
Sempre que lá vou ou quando falo de Santiago, não consigo imaginar aquelas ruas sem lhe associar o som quase renascentista das musicas tradicionais galegas e, obviamente, o som da gaita de foles. Mas não chega para criar essa associação.

A gaita de foles escocesa tem outras força, outro sentimento.
No último verão, cruzei-me com um tipo de evento que desconhecia: um "pipefest".
Já tinha assistido a Tatoos militares mas nunca a nada como isto. Grupos de tocadores de gaita de foles escocesa, vindos dos mais diversos pontos do globo, reúnem-se anualmente para trocar experiências e tocar em conjunto. Aparentemente o ponto alto (ou um dos pontos altos) é uma concentração de todos os grupos, seguida de um desfile pelas ruas da cidade que acolhe o evento. E foi a esse desfile que eu assisti.

Durante o tempo de espera, para ir "aquecendo", cada grupo vai tocando à vez, exibindo destreza e algumas das suas habilidades, enquanto se vão deixando orgulhosamente fotografar por "outsiders" como eu.
Chegada a hora da parada, é dada ordem de formatura  e iniciado o desfile.
Em ritmo de marcha os grupos avançam de forma ordenada, decidida e quase intimidatória, tocando todos em simultâneo a mesma sequência de melodias, previamente acordadas.

Passado o último grupo, engrossei a multidão de espectadores que, pelo meio da rua seguiu atrás dos músicos, acompanhando o desfile até ao seu ponto de chegada.
Enquanto ia com a multidão, ao som de centenas de gaitas de foles e caixas de rufo, senti-me invadir por uma estranha sensação de felicidade e alegria, gerando quase um sentimento de orgulho por integrar o desfile.
Não sei se são as melodias, se o timbre ou se outra coisa qualquer, mas de facto em nenhuma das outras ocasiões aquele som foi tão hipnotizante.

É por essa razão que, se num jogo de associação de palavras me disserem "gaita de foles", vislumbro uma colina verdejante e digo "Escócia".


Informação adicional em:
A Gaita de Foles
Pipefest-2015

domingo, 8 de março de 2015

A Tuna

Santiago de Compostela - 2011
Cheguei a primeira vez a Santiago de Compostela no inicio dos anos 80. Foi o inicio de uma quase 'peregrinação' anual obrigatória.

Nessa altura o nacionalismo galego estava em grande. Encontravam-se mais facilmente pessoas com afinidades a Portugal do que com simpatia por Madrid (julgo que já por aqui referi que, na época, chegaram-nos a fazer desconto só por sermos portugueses).
Nas ruas, os grupos de músicos tocavam maioritariamente modas galegas e, nas lojas, ouviam-se com frequência sonoridades celtas. E portuguesas.
Foi nesse período, aliás, que “descobri” grupos como os ‘Fuxam os Ventos’ ou os ‘Milhadoiro’, entre outros.
No entanto, dos grupos de rua, destacava-se a Tuna.

Abrindo um pequeno parêntesis e para quem não a conhece, pode-se dizer que a Tuna é um grupo de músicos, com vestes "renascentistas", supostamente composto por estudantes universitários (apesar de alguns parecem ser já mais do que veteranos). Fim do parêntesis.

Mas a Tuna não se destacava apenas pelas indumentárias. Destacava-se sobretudo pelas musicas que tocavam. Em época de nacionalismos o reportório "normal" era composto, basicamente, por canções populares ou popularizadas... castelhanas.

Esta diferença tornava-os populares entre os turistas (maioritariamente vindos de outras regiões de Espanha) mas menos bem vistos aos olhos dos galegos, sobretudo dos mais nacionalistas.
Eram considerados “reacionários” e (com alguma razão) “comerciais”.

No entanto, todas as noites lá estavam (os senhores da música como a Joana lhes chamava), na praça da Obradoiro e/ou junto aos correios, rodeados de turistas, cantando, dançando e bebendo animadamente, e animando as noites da cidade.

Com o passar dos anos a realidade galega foi-se alterando. Quem visitou a Santiago de então e a visita agora, terá de reconhecer que muita coisa se alterou.
Reconciliaram-se posições, fruto da autonomia politica e cultural, e a própria Tuna tornou-se mais galega.

As indumentárias são as mesmas (e não sei se alguns dos elementos também não serão ainda os mesmos) mas fizeram-se algumas “afinações”. Para além da pandeireta e da guitarra, a gaita de foles passou também a fazer parte do conjunto, e várias modas galegas foram acrescentadas ao reportório normal.

No entanto, no seu todo, continua igual a si própria, quer na exuberância, quer na cerveja.

E é assim que, quando regresso a Santiago e vou à noite à Praza do Obradoiro, espero encontrar a Tuna, debaixo das arcadas, frente à catedral, garantindo assim um animado serão.

Clavelitos, clavelitos,
Clavelitos de mi corazón...


Informação adicional em:

Tuna de Derecho Santiago
La Tuna de Santiago

fuxan os ventos
facebook - fuxan os ventos

Millhadoiro