domingo, 20 de abril de 2014

Vêm aí os Ciclistas

Ry - Dinamarca - 2009

Nos momentos em que me armo em "velho saudosista" e descrevo a minha infância à minha filha, relembro-lhe com frequência o dia da Volta a Portugal.

Quando era miúdo havia um dia no ano em que a Volta a Portugal passava cá na terra. Como na altura não havia hipótese de ir a grandes acontecimentos desportivos (ou outros), ou porque não os havia, ou porque aconteciam noutro país ou em Lisboa, a Volta tinha o condão de nos colocar no meio do acontecimento.
E apesar de ainda hoje ser um evento desportivo relevante, na altura era "O Evento".

Se nos distanciarmos um pouco, apercebemo-nos que todo o entusiasmo se passava à volta de uns escassos minutos (a menos que houvesse uma fuga e então tínhamos o dobro do espectáculo). Mas pareciam valer por uma vida.

Primeiro tínhamos que conseguir um bom lugar. Depois começava a espera.
Falava-se com os amigos, discutiam-se os últimos acontecimentos da Volta, alguém com um "transístor" ia dando noticia dos desenvolvimentos da corrida e eis que o circo começava. Um ou dois batedores da policia passavam de mota a apitar e a afastar as pessoas da estrada. Depois vinham umas carrinhas dos patrocinadores da Volta que atiravam coisas (normalmente chapéus de papel para montar, embora por vezes atirassem amostras de produtos), o que nos fazia andar a correr de um lado para o outro a tentar apanhar qualquer coisa, antes dos outros. Um pouco depois começavam a passar mais batedores e carros de apoio. Por fim, os ciclistas, com aquele ruído característico dos carretos das bicicletas a rodar.

A multidão, entusiasmada gritava e batia palmas, a dar ânimo a quem competia. Por último passavam mais uns quantos carros de apoio e o imprescindível 'carro vassoura', a indicar que o espectáculo tinha terminado.
E pronto. Depois sobravam-nos os dias seguintes para relatar aos nossos amigos o que é que tínhamos visto, e exibir os 'prémios' que tínhamos apanhado.
No ano seguinte haveria mais.

Julgo que toda esta descrição empolgante nunca entusiasmou muito a minha filha. Deverá ter achado engraçado (espero) mas pouco mais.
Até que um dia esta realidade lhe caiu em cima.

Estávamos de férias na Dinamarca quando paramos em Ry para almoçar. Estacionado o carro no primeiro parque de estacionamento que encontramos, no caso, junto à estação de caminho de ferro, e encaminhamo-nos para as ruas mais centrais (julgo eu).
Numa rua mais larga havia alguns transeuntes parados na borda do passeio. Já não sei como, soubemos que a espera era para ver a passagem dos corredores da Volta à Dinamarca em bicicleta.
Decisão rápida, aguardámos a passagem dos ciclistas.
E foi então que me senti a reviver o passado: os batedores da polícia, os carros dos patrocinadores a atirar amostras para quem aguardava os ciclistas e a minha filha a "correr" e a apanhar algumas delas (e a competir com um senhor que já tinha idade para estar quieto, em vez de lhe ficar com um porta-chaves de pôr ao pescoço).

Depois de alguma espera lá passaram os corredores, em dois grupos, para nosso deleite.
Durante uns momentos ouviu-se o mesmo entusiasmo dos espectadores e o caracteristico ruído dos carretos das bicicletas.
Após a passagem do "carro vassoura" a acalmia voltou e nós fomos almoçar, conforme previsto.
Não fosse a "Volta" e julgo que não me recordaria mais desta pequena vila dinamarquesa.

Deste episódio ficou a experiência da passagem da Volta, que agora partilho com a minha filha.
Para além dos vários pacotes de pastilhas elásticas que de vez em quando encontro, no meio de uns quaisquer papeis de férias.


Informação adicional em:
A Volta a Portugal (Wikipédia)
Ry City (em Dinamarquês, mas é "quase" Inglês)

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Turistas

Salzburg - Austria - 2007

O grande problema dos chamados "lugares turisticos" são os turistas.
Milhares de pessoas invadem esses lugares, fazendo desaparecer tudo o que de original e autêntico poderiam ter, a começar na própria população autóctone.

Nada mais desagradável do que caminhar por ruas estreitas, apinhadas de turistas, ou visitar um lugar sem termos de nos desviar de umas quantas pessoas e, em extremo, levar (e dar) uns quantos encontrões.
Claro está que, para os outros, eu também estou a mais naquele local. Mas, obviamente, esse não é o meu ponto de vista.

No topo da 'chatice' dos turistas estão as excursões, nomedamente de orientais (não, não é nenhuma questão xenófoba, é que são muitos de cada vez). Magotes de pessoas que perseguem uma bandeira ou um chapéu de chuva fechado ou um outro qualquer objecto diferenciador, a olhar de forma sincronizada para os mesmos locais. Ou então a tirar fotografias de forma a ficar em frente de um qualquer monumento ou local de interesse, fazendo um 'V' com os dedos.

Para agravar os factos, ao receber todos estes forasteiros, os lugares turisticos 'adaptam-se', nomeadamente se são pequenas cidades ou aldeias. A chegada de tantos novos habitantes temporários, são uma fonte imperdível de riqueza, o que obriga a alterações, quer no tipo de negócios (mais virados para os souvenirs ou para a alimentação), quer nas infraestruturas (parques de estacionamento, transportes ou alojamentos).
Então se o interesse turistico for grande, prosperam os estabelecimentos de conhecidas cadeias mundiais, equalizando a oferta de serviços independentemente do lugar onde estamos.

Na minha perspectiva, o habitat natural dos turistas são os parques de diversões ou até mesmo certo tipo de feira ou eventos. Fora disso são intrusos.

Toda esta minha abominação pelos turistas agrava-se quando olho para esta fotografia. O que se vê na imagem é a casa onde Mozart nasceu, em Salzburg, cidade pacata. Na janela aberta podemos ver um turista. Quando decidi fotografar o edifício, aguardei pelo momento em que ele se fosse embora, permitindo-me fotografar a fachada 'limpa'. 
E esperei. Esperei perto de dez minutos. No final dei-me por vencido. Tive de o trazer juntamente com o resto do prédio.


Informação adicional em:

sábado, 5 de abril de 2014

As grandes cidades

Paris vista dos armazens Lafayette - França - 2005

Dizer que conheço uma grande cidade é algo que dificilmente poderei fazer. Nem mesmo Lisboa, onde já vivi alguns anos, julgo que poderei dizer que conheço.

Pode-se dizer que já estive em algumas ´grandes cidades' e que já vi grande parte dos seus pontos turisticos mais conhecidos. Mas se as quero conhecer, de facto, parto logo com várias desvantagens.
Senão vejamos:
  1. São grandes (a sua dimensão torna à partida dificil o nosso propósito);
  2. Vamos lá normalmente no Verão (ou seja, quando grande parte dos habitantes locais foram de férias, tendo sido substituídos por turistas);
  3. O tempo de permanência é limitado;
  4. Temos como primeiro objectivo ver os "ex libris", o que nos rouba boa parte do tempo (tem que se começar por qualquer lado e depois não estamos predispostos a ouvir aqueles comentários jucosos do tipo "então foste ao Egipto e não viste as pirâmides?");
  5. Normalmente têm pelo menos um museu enorme e que é considerado imperdível (e lá se vai mais um dia);
  6. Há ainda as compras para nós, a familia e os amigos (caso tenha ainda sobrado algum dinheiro);
  7. E, que diabo, gozar um pouco o lugar.

A vantagem de se voltar a uma cidade, mesmo que depois de alguns anos, é que podemos sempre conhecer mais um pouco dela, embora também tenham sempre construído mais qualquer coisa que deveremos ter de visitar.

Independentemente de toda a preparação que tenhamos feito, a menos que estejamos com alguém de lá, o que é um facto é que a verdadeira Cidade continua-nos vedada e escondida. Por isso, sempre que nos cruzamos com um pouco dessa Cidade, temos uma sensação estranha de descoberta.

Exemplo dessa sensação passou-se comigo em Paris.
Apesar de já por lá ter estado ou passado algumas vezes e nas mais diversas circunstâncias, é uma cidade que continuo a conhecer muito mal.

Em 2005, por razões várias, tivemos apenas alguns dias disponíveis para férias. Após diversas hipóteses o destino recaiu sobre Paris. Reservada estadia e viagem, na data definida lá fomos nós até à 'Cidade Luz'.
Paralelamente a este facto, acontece que a minha filha tinha assinado a revista de banda desenhada "Spirou", assinatura essa que estava a expirar e que não havia forma de conseguirmos renovar.

Em conversa caseira levantou-se a hipótese de, uma vez em Paris e sem grande programa para cumprir, podermos procurar as instalações da revista e tentar saber como, ou mesmo renovar, a referida assinatura.

E assim aconteceu. Numa das tardes em que não tinhamos nada previsto, decidimos ir ao encontro da referida representação. Primeiro vimos qual a morada, depois, no mapa, onde é que a rua se situava e, por fim, como lá chegar. Identificado o destino fomos à aventura.

À saída do metro deparámo-nos com um cenário inesperado. Um bairro típico francês, com ruas não muito largas, onde as pessoas que circulavam na rua não eram de todo turistas (os únicos com algum aspecto de turista eramos nós). Ruas menos arranjadas e prédios mais gastos do que aqueles por onde normalmente passeavamos, enfim uma imagem digna de um livro de Simenon. Uma Paris popular, esquecida do grande centro, mas com vida própria.

No retorno, o metro trouxe-nos de volta à cidade larga e majestosa, carregada de turistas.

Na realidade não conseguimos renovar a assinatura do "Spirou" ("tem de contactar com o departamento em Bruxelas"), mas esta meia hora mostrou-nos uma Paris diferente, de bairro, e que nos ficou viva na memória.


Informação adicional em:

domingo, 23 de março de 2014

Santa Cruz

Santa Cruz - Portugal - 1967
No meio de tantas memórias de lugares que foram ocupando as minhas férias, seria injusto não referir o local onde tantos e tantos anos passei as férias da minha juventude: a Praia de Santa Cruz.

Desde que me conheço, os meus pais mudavam-se todos os anos para Santa Cruz no periodo de férias, normalmente em Setembro. Em Santa Cruz também estavam muitos dos meus amigos (alguns, para inveja minha, passavam lá boa parte das infindáveis férias de verão) e tinha amigos que apenas encontrava nesse periodo.

A rotina diária era forçosamente diferente. O cheiro da maresia ao levantar, o ir comprar o pão ao centro da aldeia, e depois passar o dia quase todo na praia, na areia, no meio de jogos e brincadeiras, quase só interrompidos pela tão esperada ida ao banho.
Normalmente almoçava-se em casa, não sem antes tomar um último banho, "in extremis", de forma a que não se regressasse a casa muito molhado, enrolado na toalha.
De longe em longe, a minha mãe levava o almoço até à praia e então aí, basicamente, não saíamos da praia todo o dia.
Algumas vezes a tarde contemplava um programa diferente. O aluguer de uma bicicleta no sr. Joaquim "das bicicletas" (primeiro com rodinhas laterais, mais tarde sem elas), ou então e em especial nos dias mais cinzentos, umas horas no "salão de jogos" a jogar "matrecos".

Mais tarde lembro-me dos serões na praia, quando alguém já tinha um gira-discos ou um gravador portáteis, encostados aos montes de almofadas que por lá havia, a ouvir musica ou a conversar.

Em Julho e Agosto imperam os dias maiores e mais solarengos. Já Setembro é um mês mais incerto. Se há anos em que parece estarmos no inverno e a chuva não pára, há outros em que se tem os melhores dias de todo o verão, com marés muito vazias e calmas.
Também em Setembro o areal da praia está mais vazio. Há menos veraneantes. E há fins de tarde fabulosos.
Setembro é também o mês das marés vivas. Como os meus pais gostavam de alugar a barraca mais à frente da fila, na altura das marés vivas o mar chegava até lá muitas das vezes. Era uma festa (pelo menos para nós). Faziamos barreiras de areia à volta da barraca e jogávamos à "apanhada" com o mar. Normalmente conseguiamos sempre saltar para dentro da barreira antes de ficarmos molhados, mas, por vezes, as ondas eram mais fortes e destruiam-nos as barreiras, molhando tudo à passagem.

E depois, havia ainda os gelados ao fim da tarde e a Ti' Angelina das pevides, tremoços e amendoins. E os livros de 'histórias aos quadradinhos' em segunda mão que se tocavam na papelaria União, por apenas cinco tostões.

Enfim, recordações de tempos felizes e despreocupados em que voltávamos para a escola já fartos de férias.

Tal como eu fui mudando, Santa Cruz, hoje, também está diferente. Apesar de muitas das casas térreas e baldios terem dado lugar a prédios altos e à construção de uma cintura de urbanizações, houve recentemente o bom senso de requalificar e "pedonalizar" o centro da aldeia, estancando alguma da descaracterização que Santa Cruz foi sofrendo ao longo do tempo.
A frente de mar também foi arranjada e, por força das ondas, a praia está a ficar mais estreita.
Muitos dos locais da minha infância e juventude mudaram ou acabaram, mas isso faz parte da vida (embora não entenda porque é que a nossa querida "praia do norte" foi rebatizada para "praia do centro").

Hoje vou passar férias para locais mais longínquos mas gosto ainda de passear nas ruas calmas de Santa Cruz, quando já não há a confusão do Agosto. Gosto de olhar o largo horizonte e vislumbrar as Berlengas ou de, à noite, ir tomar um copo ao "Manel".

E quando os Setembros são bons espero sempre encontrar um final de dia soalheiro, onde uma maré vazia nos faz ficar na praia até quase ao sol se pôr.


Informação adicional em:
Santa Cruz (JF Silveira)
e já agora Bar do Manel


sábado, 22 de março de 2014

A Grécia antiga fica a norte

Museu Britânico - Londres - Grã-Bretanha - 2006
Os lugares e as coisas que pretendemos visitar nem sempre parecem estar onde julgamos que estejam. Chamo a isto de "Geografia Histórica". Em oposição, claro, à, chamemos-lhe, "Geografia Cartográfica".

Quando se planeiam umas férias, normalmente avaliam-se  vários factores. Por um lado os limitativos, como o tempo disponível, a distância, a acessibilidade ou o custo, por outro os "ganhos" ou seja, os pontos de interesse a visitar, a gastronomia ou o descanso.

Mas organizemos as ideias.

No que respeita à História sempre fui um amante da antiguidade. Sempre sonhei visitar lugares históricos e conhecidas estações arqueológicas.
A minha lista é enorme e, infelizmente, para além de ainda continuar grande, há uns quantos lugares que, julgo, já não terei hipótese de visitar.

Mas, quando há perto de 30 anos se me abriram as hipóteses de viajar, olhei para o mapa e sonhei com todos os destinos possíveis.
No entanto, à medida que fui enumerando as limitações a que estava sujeito se, de facto, queria ir à "descoberta do mundo" (a estadia, o meio de transporte, o orçamento disponível, etc.), o horizonte começou a encolher.
Mesmo assim, embora o Egipto ficasse rapidamente fora de questão, a Grécia, nomeadamente Atenas, aparecia como um destino possível.

Apesar do número de dias disponível para férias até ser razoável e estarmos predispostos a acampar, o único meio de transporte ao nosso alcance era o autocarro. E para Atenas eram quase três dias de viagem (com transbordo em França).
Eu, que nunca tinha andado mais de 100 Kms seguidos de autocarro sem enjoar, conseguiria ficar fechado e sentado três dias para cada lado? Nãã!

Adiou-se a antiguidade, reformularam-se as férias e virou-se a agulha para norte, para Paris e Londres. Ainda, e sempre, acampando e viajando de autocarro, claro.

E foi aqui comecei a compreender o que é a "Geografia Histórica". Primeiro no Louvre e alguns dias depois no Britânico. A Grécia estava lá. Estava lá quase tudo.
As estátuas icónicas (a Vénus de Milo, a Vitória de Samotrácia, etc), as Cariátides, os frisos do Parténon (em Atenas estão cópias), enfim tudo aquilo que vemos nos livros e não só.
Mas não se ficava só pela Grécia, Também lá estão as civilizações romana, egípcia, suméria, fenicia  e tantas, tantas outras.

De facto troquei os calores Gregos pela chuva e o sol dependurado dos nortes (embora Atenas tenha fama de ser muito poluída). Mas vi mais de cultura antiga mediterrânica do que julgaria ser possível. E rumando a norte.

(nota: infelizmente, e para grande pena minha, nunca fui à Grécia e muito menos a Atenas)


Informação adicional em:

domingo, 9 de março de 2014

Os patos do Quercy

Quercy - França - 1996

Por várias vezes as nossas férias foram passadas em França e muitas delas pela região do Quercy.

Região eminentemente rural, é rica em feiras ou mercados onde os produtos regionais são vendidos a preços muito convidativos.
Desses produtos destaca-se o fois gras, de pato ou ganso, caracteristico da região.

A importância desta produção é tal que faz com que os patos sejam um ex-libris da região. Não só grande parte da gastonomia local é rica em pratos à base de pato (há que aproveitar o que sobra do bicho, depois de retirado o figado), como também muita da publicidade se centra no fabrico e nos fabricantes do fois gras, algo semelhante ao vinho do Porto, na região do Douro.
Assim, qual visita a uma vinha, pode-se visitar os patos e, em espacial a gavage.

Para quem como eu apenas conhecia as duas realidades separadas (por um lado os patos como animal, por outro o paté como recheio de uma latinha), todo este mundo da criação de patos para paté passou a ser um novo ponto de curiosidade.

Ao contrário dos patos de aviário que todos nós conhecemos dos supermercados, os patos para paté vivem em belos prados onde são pastorados por belas pastoras (a acreditar nos anúncios e nas histórias infantis), até serem transformados em paté e mais alguns derivados (do tipo pato assado, etc).

Como quebra de rotina na vida idiílica destas aves, uma vez por mês, têm um estagio semanal onde se processa a gavage.
Para quem não sabe (como era o meu caso) a gavage é um processo de sobrealimentação forçada do bicho, de forma a provocar-lhe o engordar do figado.
Ao pato é enfiado na boca um funil com uma espécie de "Black & Decker" que empurra o milho goela abaixo. Esse momento, em muitas quintas, é assistível, havendo para isso hora marcada, propagandeada nas estradas.

Felizmente nunca assisti ao processo.
Não porque não tenha tentado mas porque, sorte a minha, cheguei tarde demais. Este atraso fez com que visitasse o 'pós gavage': capoeiras com paredes de ar condicionado (o processo provoca febres altas e convém que os patos não morram) e um bando de patos estáticos, quase inertes, de boca aberta.
Este cenário e a descrição do processo demoveram-me de ver o espectáculo em si.

Claro está que não deixei de comer o bom do paté. No entanto prefiro ficar apenas com a imagem idílica dos prados verdejantes cheios de patos.
Já a imagem dos patos depois da gavage, não a consegui nunca esquecer. Assola-me sempre o espirito, naquelas ocasiões em que como demais e fico enfartado.


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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Rocamadour

Roucamadour - França - 1994

Imagine-se um pequeno planalto.
Imagine-se agora um rio que, com o passar dos anos, rasgou um desfiladeiro através desse planalto.
É essa a paisagem que nos rodeia.

Estamos no sudoeste de França, na região de Quercy.
A estrada, não muito larga, serpenteia pelo meio de uma das encontas do desfiladeiro. O tempo está bom e a paisagem convida à contemplação.
Sabiamos que estávamos perto do nosso destino mas não exactamente quanto. De repente, no desfazer de uma das curvas surge a povoação, deslumbrante, do outro lado do desfiladeiro.
A imagem, inesperada, é fascinante.

O nosso destino é um importante lugar de peregrinação da Idade Média. A imagem da Virgem, negra, milagrosa, uma das mais antigas que se conhece.
Como em muitos outros locais de peregrinação medievais, esperava uma povoação antiga, centrada na sua catedral, eventualmente acastelada, semelhante a tantas outras cidades francesas ou espanholas que conheço. Uma vez que anteriormente não tinha visto qualquer fotografia do lugar, nada me tinha preparado para o que me esperava.

Na encosta oposta, como que penduradas ou cravadas nas escarpas, viam-se as casas antigas e em pedra, de Rocamadour.
No cimo o castelo vigilante e dominador, abaixo a igreja integrada na povoação, que basicamente se resume a duas ruas compridas, “paralelas”, uma sobre a outra. Finalmente, em baixo, o vale verdejante de cultivo.

Apesar da estrada ser estreita, conseguimos parar o carro e tirar uma fotografia. Infelizmente não se pode parar em qualquer lado e as árvores taparam parte da imagem.

Mesmo já lá tendo voltado outras vezes é esta primeira recordação que me vem à memória, sempre que se fala de Rocamadour.


Informação adicional em: