quinta-feira, 8 de maio de 2014

A Máquina do Tempo

Orloj, Praga - 2007 
Na Cidade Velha de Praga fica um dos objectos mais fabulosos que eu já vi: o Orloj.

Danificado durante a II Guerra Mundial foi prontamente restaurado, permitindo-nos hoje admirar toda a sua beleza.

O Orloj é uma máquina medieval do séc. XV, composto por um relógio astronómico, onde se vê a posição do sol e da lua. Por baixo, um calendário indica-nos a data, sendo cada mês representado por um medalhão. Enfim, uma peça de arte deslumbrante.

Mas numa cidade ligada à alquimia e a grandes pensadores, uma obra destas não podia ficar-se apenas pela beleza estética. À hora certa a morte puxa uma corda e toca um sino. O galo canta e abrem-se as duas janelas superiores por onde desfilam os apóstolos.
De hora a hora o Orloj convida quem o contempla a meditar sobre a vida e o tempo, cujo passar vai sendo marcado pela morte .


Informação adicional em:
Orloj
Descrição na Wikipédia (versão inglesa, mais completa)

sábado, 3 de maio de 2014

Não há viagem sem sabores

Ploughman's Lunch, Londres - 2010

Já aqui se escreveu sobre café e sobre cerveja, mas sobre aquilo que se come, nada!
E o facto é que comer, experimentar cheiros e sabores, é um dos grandes prazeres da viagem.

Já comemos um pouco em todo o lado – restaurantes, cervejarias, cafés, bares, comboios e barcos, jardins e praças, sentados em cadeiras confortáveis e em degraus de escadas, na relva ou no chão. Até num cemitério. Mas a verdadeira atmosfera está nos mercados.
Os mercados são sítios maravilhosos, cheios de gente, de cor e de cheiros, que nos despertam os sentidos e nos deixam na memória uma mistura de recordações e sensações. Houve o mercado de Cardiff onde comprámos uns Cornish pasties de lamber os dedos, e que comemos sentados em bancos de pedra no cemitério da igreja; o mercado de Salzburgo, onde comemos em pé, com pequenos garfos de madeira, as melhores salsichas de sempre; o de Nuremberga, onde comi as melhores azeitonas que se possa imaginar; o de Helsínquia, onde almoçámos salmão e rena seguidos de morangos doces da Lapónia; o de Notting Hill, onde comemos algo que ainda hoje estamos para adivinhar...

Para além destes, houve inúmeros outros momentos cheios de sabor: os fish and chips de rua, a escaldar-nos as mãos num fim de tarde frio e nevoento em Salisbury; os jantares extraordinários no mercado gastronómico do Festival de Música e Ópera em Viena, verdadeiro festival de sons e aromas; os cabecou (queijinhos de cabra) levemente grelhados, numa esplanada em Rocamadour; a pequena loja num cais no sul da Dinamarca, onde comemos peixes fumados deliciosos; os belíssimos pratos e pinchos no Camilo, em Santiago de Compostela, e as saladas belíssimas no Fazer, em Helsínquia; o monumental ploughman’s lunch num pub em Edinburgo; as galettes e a cidra em Saint-Malo.
Há ainda os restaurantes e cafetarias de museus e bibliotecas. Guardamos deliciosas recordações do Museu Nacional em Copenhaga, do Arctic Centre, em Rovaniemi, do Observatório Astronómico de Helsínquia, do Storytelling Centre em Edinburgo.

E há ainda todas as paragens da viagem e os pequenos restaurantes suspensos no tempo, com bancos largos dos anos 50 e música em surdina; as padarias e pastelarias, com montras que parecem dizer-nos “come-me!”; a estação de serviço em Leeds, onde comprámos fora de horas um jantar improvisado de sandes, num suceder de incidentes hilariantes; e os pubs e inns, em pequenos lugares algures em Inglaterra, onde os pratos nos surpreenderam pelo sabor inesperado e requintado.

Ah! Também há a comida servida no avião... mas é melhor não falarmos nisso.

De há uns anos para cá habituámo-nos a fotografar os pratos que nos servem: em muitos casos a apresentação cuidada e a variedade dos ingredientes são uma constante, mesmo nos pequenos restaurantes, e, se os olhos também comem, guardemos para sempre a recordação do momento.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Mais perto do céu


El Pas de la Casa, Andorra - 1996
Tão depressa nos tolhem o olhar como nos proporcionam horizontes a perder de vista. Pode parecer mas não é o texto de uma adivinha. Refiro-me ás montanhas

Apesar de, durante muito tempo, Montejunto ter sido a maior elevação que vislumbrei, as montanhas são lugares que me fascinam.

Na década de 80 do séc. XX comecei a aproximar-me de pontos mais elevados, digamos que a "subir mais alto". Durante o Verão visitei as serranias do norte de  Portugal e atravessei a quente e escalvada Serra da Estrela (embora, confesso, nunca tenha subido à Torre).

Foi numa dessas derivas pelo norte do país que me apercebi do que é estar lá no alto e do quanto a nossa vista pode, ou não, alcançar. Mas só em 1991, quando pela primeira vez cheguei a Andorra, é que senti, de facto, do que é estar no cimo de uma montanha.
Subi pelo lado francês e, a cada curva do caminho, a paisagem deslumbrava. Já em Andorra, quando a estrada atinge o seu auge (+/- 2.400 m), o horizonte é de cortar a respiração.

A montanha é um lugar estranho. É composta por contrastes. Quando estamos em baixo, no vale, tudo é mais opresso e a luz esconde-se depressa. Quando estamos no alto, olhamos as nuvens de cima, numa extensão a perder de vista.
Por outro lado o clima é muito diversificado e instável. Os nevoeiros não são raros, as chuvas frequentes e até já apanhei o resquícios de um nevão, em pleno Agosto.
Quanto a temperaturas, se a luz do sol escalda durante o dia, assim que este se esconde um frio imenso invade a sombra que se forma.

Acampar em montanha, desde que se tenha material adequado, é uma experiência inigualável. Nas noites limpas tem-se uma visão única do céu. E, no frio da manhã, apanhar os primeiros raios de sol faz-nos compreender a espiritualidade dos monges tibetanos.

Para nosso conforto e rapidez nas deslocações, cada vez mais a tecnologia e a técnica permitem-nos atravessar as montanhas por dentro. Foi assim que cruzei boa parte dos Alpes (o maior túnel que atravessei tinha perto de 15 Km.) o que faz com que, de facto, os conheça mal.
Já no que respeita aos Pirenéus, apesar de apenas os ter atravessado por dois pontos, não foi essa a minha opção de travessia. Este facto faz com que sejam a minha referência para a ideia de montanha.

Talvez por isso, no trajecto para França, sempre que posso evito os túneis, paro lá no alto, no cimo da montanha, e contemplo o horizonte.

Informação adicional em:

terça-feira, 22 de abril de 2014

The Temple of Law and Order


The Temple, Londres - 2010
Há momentos e momentos. Há sítios e lugares onde estamos e que são diferentes e reais e que, no entanto, parecem cenas de um filme. 
Este é um deles. O bairro de Temple não é apenas o lugar onde se situa a Temple Church, que já era notável antes do Código da Vinci a ter tornado célebre em palavra e imagem. É uma igreja pequena mas que se impõe, situada no centro de um bairro com caracteristicas muito próprias: The Temple, um dos principais centros legais de Londres e da Justiça Inglesa.
Ali se erguem dois dos principais tribunais (Inns of Court), autoridades locais na área onde se situam. 
Entra-se no bairro a partir de Fleet Street ou da Strand, a norte, ou do Victoria Embankment, a sul. É um lugar sossegado, habitado por salas de audiências e de trabalho de advogados e juízes. Fora das horas de expediente é um lugar reclusivo, de ruas labirinticas, que por vezes terminam em portões de carvalho fechados.

Tudo ali respira Lei e Ordem. Não há opressão ou dureza, mas sim uma atmosfera de silêncio, que nos leva a falar baixo, como se tivessemos entrado num tribunal. Ou numa igreja.

Ora ali também há lojas - elas refletem o que ali se vive.
Obviamente, vendem os adereços que adornam a Justiça Inglesa: togas e becas, para usar os termos portugueses, mas também colarinhos e gravatas e, claro, cabeleiras.
Tinhamos acabado de entrar a partir de Fleet Street e, de repente, ali estava ela. Pequena, discreta, sossegada. Mas de montras tão convidativas.
Empurrei a porta e fui recebida com o sorriso intrigado de quem pensa "Olha uma turista que se perdeu!". Mas a conversa foi fácil: comprar um adereço de juiz para um amigo, como recordação de férias, abriu também a porta para a curiosidade mútua.
O sorriso intrigado deu lugar a sorrisos abertos e a uma conversa bastante longa e amigável. Afinal o dono da loja conhecia Portugal, viajava até cá com frequência, uma vez que era sócio de uma empresa sediada bem perto de nós.
A conversa prolongou-se, deu direito a explicações sobre indumentária e a um aperto de mão alegre e afetivo antes da partida.

E, claro, o Zico ganhou uma gravata de juiz.




segunda-feira, 21 de abril de 2014

Viking Dreams


Viking Ship Museum, Roskilde, Dinamarca - 2009

Quando era pequena  - e mesmo já não tão pequena - tinha uma paixão pelos Vikings.
Imaginava-os altos e louros, de olhos imensamente azuis, temíveis, cheios de força e energia, em busca de outras terras, em barcos de uma beleza e elegância extraordinárias. As histórias de saques e assaltos violentos punham-me algumas dúvidas na alma, mas enfim, nos séculos em que tinham vivido, esses episódios eram o "pão nosso de cada dia".

Nunca desapareceu por completo, essa paixão.
A História mostrou-me outros aspetos da cultura viking: a beleza dos ornamentos e das jóias, o papel das mulheres na sociedade, a aventura e as descobertas para além dos mares conhecidos. Uma cultura que produz beleza e permite que as mulheres ocupem um lugar importante na família e na sociedade, não pode ser tão 'primitiva' e tão violenta como os cronistas afirmaram. Claro que pode. A conquista de território e a afirmação de um povo têm passado invariavelmente por episódios de uma crueza extrema que não se limitam à Idade Média nem a povos visivelmente guerreiros.

A paixão nunca morreu. Reacendeu-se mesmo, na proximidade, quando fui à Dinamarca.
A Dinamarca estava, aparentemente, cheia de vikings - altos e louros, de olhos azuis, mas de uma pacatez extraordinária, de uma calma e de uma discrição que poucas vezes tinha visto. O que me encantou na Dinamarca foi a modéstia e a calma de gente que descalçava os sapatos na rua para andar mais à vontade, e bebia um copo de vinho no jardim, sentada na relva, depois de sair do emprego. Os herdeiros dos vikings pareciam ter uma serenidade e uma modéstia imbatíveis.

O Museu Nacional em Copenhaga mostrou-me objetos extraordinários - jóias, pedaços de tecido com mais de mil anos que tinham conservado o padrão, instrumentos musicais estranhos, carroças e utensílios belamente decorados.
E em Roskilde pude ver barcos - os barcos que continuo a considerar os mais belos e elegantes de sempre, que atravessaram o atlântico antes de sonharmos que havia terra do lado de lá.

Parece que os Vikings estão, agora, na moda. Para além da sua histórica 'ferocidade', os Vikings estão a ser descobertos como um povo com uma cultura rica e requintada, que deixou marcas um pouco por todo o lado: da Dinamarca à Grã-Bretanha e à Irlanda, com quem partilham uma história comum, da Rússia a Sevilha, de Istambul a Lisboa, da Normandia à Póvoa de Varzim.
A marcar a nova invasão dos Vikings está a exposição espantosa do Museu Britânico, que revive uma parte substancial da própria história britânica.

Na memória coletiva os vikings serão sempre 'o terror' de que fala um velho poema irlandês:

                                Bitter is the wind tonight.
                                It tosses the ocean's white hair.
                                Tonight I fear not the fierce Northmen warriors 
                                coursing on the Irish Sea.

Para mim, em contrapartida, serão sempre os construtores extraordinários do momento em que pisei as tábuas de um barco que dançava na calma de uma tarde quente no porto de Roskilde.


Viking Ship Museum
The British Museum - The Vikings
Os Viking hoje - A Viagem do Sea Stallion
Ancient Irish Poetry, Transl. Kuno Meyer
Viking Expansion - Iberia
Siglas Poveiras

domingo, 20 de abril de 2014

Vêm aí os Ciclistas

Ry - Dinamarca - 2009

Nos momentos em que me armo em "velho saudosista" e descrevo a minha infância à minha filha, relembro-lhe com frequência o dia da Volta a Portugal.

Quando era miúdo havia um dia no ano em que a Volta a Portugal passava cá na terra. Como na altura não havia hipótese de ir a grandes acontecimentos desportivos (ou outros), ou porque não os havia, ou porque aconteciam noutro país ou em Lisboa, a Volta tinha o condão de nos colocar no meio do acontecimento.
E apesar de ainda hoje ser um evento desportivo relevante, na altura era "O Evento".

Se nos distanciarmos um pouco, apercebemo-nos que todo o entusiasmo se passava à volta de uns escassos minutos (a menos que houvesse uma fuga e então tínhamos o dobro do espectáculo). Mas pareciam valer por uma vida.

Primeiro tínhamos que conseguir um bom lugar. Depois começava a espera.
Falava-se com os amigos, discutiam-se os últimos acontecimentos da Volta, alguém com um "transístor" ia dando noticia dos desenvolvimentos da corrida e eis que o circo começava. Um ou dois batedores da policia passavam de mota a apitar e a afastar as pessoas da estrada. Depois vinham umas carrinhas dos patrocinadores da Volta que atiravam coisas (normalmente chapéus de papel para montar, embora por vezes atirassem amostras de produtos), o que nos fazia andar a correr de um lado para o outro a tentar apanhar qualquer coisa, antes dos outros. Um pouco depois começavam a passar mais batedores e carros de apoio. Por fim, os ciclistas, com aquele ruído característico dos carretos das bicicletas a rodar.

A multidão, entusiasmada gritava e batia palmas, a dar ânimo a quem competia. Por último passavam mais uns quantos carros de apoio e o imprescindível 'carro vassoura', a indicar que o espectáculo tinha terminado.
E pronto. Depois sobravam-nos os dias seguintes para relatar aos nossos amigos o que é que tínhamos visto, e exibir os 'prémios' que tínhamos apanhado.
No ano seguinte haveria mais.

Julgo que toda esta descrição empolgante nunca entusiasmou muito a minha filha. Deverá ter achado engraçado (espero) mas pouco mais.
Até que um dia esta realidade lhe caiu em cima.

Estávamos de férias na Dinamarca quando paramos em Ry para almoçar. Estacionado o carro no primeiro parque de estacionamento que encontramos, no caso, junto à estação de caminho de ferro, e encaminhamo-nos para as ruas mais centrais (julgo eu).
Numa rua mais larga havia alguns transeuntes parados na borda do passeio. Já não sei como, soubemos que a espera era para ver a passagem dos corredores da Volta à Dinamarca em bicicleta.
Decisão rápida, aguardámos a passagem dos ciclistas.
E foi então que me senti a reviver o passado: os batedores da polícia, os carros dos patrocinadores a atirar amostras para quem aguardava os ciclistas e a minha filha a "correr" e a apanhar algumas delas (e a competir com um senhor que já tinha idade para estar quieto, em vez de lhe ficar com um porta-chaves de pôr ao pescoço).

Depois de alguma espera lá passaram os corredores, em dois grupos, para nosso deleite.
Durante uns momentos ouviu-se o mesmo entusiasmo dos espectadores e o caracteristico ruído dos carretos das bicicletas.
Após a passagem do "carro vassoura" a acalmia voltou e nós fomos almoçar, conforme previsto.
Não fosse a "Volta" e julgo que não me recordaria mais desta pequena vila dinamarquesa.

Deste episódio ficou a experiência da passagem da Volta, que agora partilho com a minha filha.
Para além dos vários pacotes de pastilhas elásticas que de vez em quando encontro, no meio de uns quaisquer papeis de férias.


Informação adicional em:
A Volta a Portugal (Wikipédia)
Ry City (em Dinamarquês, mas é "quase" Inglês)

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Turistas

Salzburg - Austria - 2007

O grande problema dos chamados "lugares turisticos" são os turistas.
Milhares de pessoas invadem esses lugares, fazendo desaparecer tudo o que de original e autêntico poderiam ter, a começar na própria população autóctone.

Nada mais desagradável do que caminhar por ruas estreitas, apinhadas de turistas, ou visitar um lugar sem termos de nos desviar de umas quantas pessoas e, em extremo, levar (e dar) uns quantos encontrões.
Claro está que, para os outros, eu também estou a mais naquele local. Mas, obviamente, esse não é o meu ponto de vista.

No topo da 'chatice' dos turistas estão as excursões, nomedamente de orientais (não, não é nenhuma questão xenófoba, é que são muitos de cada vez). Magotes de pessoas que perseguem uma bandeira ou um chapéu de chuva fechado ou um outro qualquer objecto diferenciador, a olhar de forma sincronizada para os mesmos locais. Ou então a tirar fotografias de forma a ficar em frente de um qualquer monumento ou local de interesse, fazendo um 'V' com os dedos.

Para agravar os factos, ao receber todos estes forasteiros, os lugares turisticos 'adaptam-se', nomeadamente se são pequenas cidades ou aldeias. A chegada de tantos novos habitantes temporários, são uma fonte imperdível de riqueza, o que obriga a alterações, quer no tipo de negócios (mais virados para os souvenirs ou para a alimentação), quer nas infraestruturas (parques de estacionamento, transportes ou alojamentos).
Então se o interesse turistico for grande, prosperam os estabelecimentos de conhecidas cadeias mundiais, equalizando a oferta de serviços independentemente do lugar onde estamos.

Na minha perspectiva, o habitat natural dos turistas são os parques de diversões ou até mesmo certo tipo de feira ou eventos. Fora disso são intrusos.

Toda esta minha abominação pelos turistas agrava-se quando olho para esta fotografia. O que se vê na imagem é a casa onde Mozart nasceu, em Salzburg, cidade pacata. Na janela aberta podemos ver um turista. Quando decidi fotografar o edifício, aguardei pelo momento em que ele se fosse embora, permitindo-me fotografar a fachada 'limpa'. 
E esperei. Esperei perto de dez minutos. No final dei-me por vencido. Tive de o trazer juntamente com o resto do prédio.


Informação adicional em: