domingo, 10 de agosto de 2014

Bancos de Memória


Bancos de Memória em nome de Betty e Malcolm Rowe, que dali viam diariamente o pôr do sol
Bamburgh, agosto 2006
Antes de pisar solo inglês nunca tinha visto nenhum. Nem nunca ninguém me tinha falado neles. Tive uma disciplina anual inteiramente dedicada à cultura inglesa mas não ouvi qualquer referência aos bancos de memória. E, no entanto, são talvez a mais comovente manifestação de amor que alguma vez vi.
Não são obras de arte, não são feitos de materiais únicos e nobilíssimos, não gritam tristeza, desespero, choro, lamentação. São simples bancos. Bancos de madeira, de uma singular simplicidade. Podem estar num jardim, numa rua, numa alameda, num lugar especial de onde se vê o pôr do sol, ou um rio, ou simplesmente quem passa. Chamam-se Bancos de Memória.
Convidam-nos a sentar e dizem-nos ao ouvido o nome de alguém para quem aquele lugar foi especial.
E por momentos esse alguém senta-se ao nosso lado e vê o pôr do sol mais uma vez, ou olha com os nossos olhos a gente que passa.
Não sabemos quem era, mas sabemos que alguém o amou o suficiente para fazer perdurar o seu nome numa placa de um banco oferecido ao descanso do viajante que passa, para que dali veja o que esse alguém outrora viu.

Não há ali lágrimas nem desespero. Há apenas amor.




quarta-feira, 6 de agosto de 2014

It’s raining again...

Heidelberg, agosto 2007
É espantoso como neste blog ainda nenhum de nós falou daquilo que é a praga temida das viagens e dos viajantes: a chuva.
Durante anos as nossas “idas a férias” significavam literalmente “idas a banhos”, não de mar, mas de chuva. Os amigos chegaram a ser prevenidos de que viajar conosco podia significar chuva ou mau tempo, ou os dois, se pudesse ser.
Chegámos a ser avisados numa estação de observação meteorológica, neste caso em Mont Aigoual, de que descer pela encosta norte significava apanhar uma boa chuvada. Isso não nos impediu de descer por lá e de apanhar uma torrente que nos obrigou (e a mais uns quantos afoitos turistas...) a parar até a chuva abrandar um pouco.
A primeira vez que fomos para Londres apanhamos bastante chuva – como seria de esperar - mas nada que nos impedisse de andar pelas ruas e gozar as férias. Acabámos por tomar como hino desse ano um dos êxitos dos Supertramp, que um grupo de jovens cantava na rua alegremente numa noite de chuva.
Depois seguiram-se muitos outros momentos gloriosamente chuvosos: a entrada em Rennes; a chegada ao campismo de Tarbes; a primeira vez que chegamos a Rocamadour depois de uma “orage”; a última vez que entrámos em Inverness (em contramão e em plena feira pecuária); as muitas idas a Santiago, onde “a chuva é uma arte”; a estadia em Salzburgo, em Heidelberg, em Odense, a ida a Carnac... sei lá. Isto só para nomear alguns. Férias sem chuva não eram férias.
Mas bem vistas as coisas, o facto é que a chuva dá a todas as paisagens uma tonalidade menos turística, como se os lugares se mostrassem com a roupa de todos os dias, sem enfeites nem artifícios.
E tem permitido momentos fotográficos inusitados: afinal para nós é que a chuva é uma “chatice”, que aparece para arruinar aqueles poucos dias em que queremos viver num mundo perfeito. Mas para quem vive o dia a dia, a chuva é apenas o inconveniente que apressa o passo mas não impede a ida às compras.
Por isso o melhor é continuarmos a cantarolar os Supertramp, mesmo que a letra não nos pareça a mais adequada:

                 It's raining again
                 Oh no, my love's at an end.
                 Oh no, it's raining again
                 Too bad I'm losing a friend.

                 C'mon you little fighter
                 No need to get up tighter
                 C'mon you little fighter
                 And get back up again
                 Oh get back up again
                 Fill your heart again...





sábado, 2 de agosto de 2014

Bichos

Área de Serviço, algures em Portugal - 2007
Quem já fez alguma viagem, seja ela pequena ou grande, de certeza que já notou a presença de "bicharada" por tudo o que é sitio. Nomeadamente quando esta presença sai fora daquela a que estamos habituados.

Mesmo que numa primeira fase a sua presença não seja detectável (como normalmente acontece quando a viagem é feita de transporte publico), o que é facto é que eles estão algures por lá.
A sua presença tem tendência para ficar bem mais visível quando a mesma viagem é feita de carro. Nomeadamente na matricula e no pára-brisas, e especialmente quando essa viajem é feita de noite
É certo que, normalmente nestes casos, esta presença expressa-se sobre a forma de 'esborrachado'. No entanto dá para ver a fabulosa quantidade e variedade de insectos que vagueiam pelo ar, sobretudo no Verão.

Quando o nosso destino é um país do centro da Europa e a viagem é feita de carro, atravessamos Espanha de noite. Esta opção nocturna tem algumas vantagens. Como as nossas férias são essencialmente no verão (profissões oblige), a temperatura do ar, à noite, é mais amena. Para além disso há menos trânsito e até mesmo a travessia de grandes cidades, como Madrid, é feita de forma mais despreocupada.
Já nas desvantagens aparece a necessidade de ter de fazer mais paragens, quer para troca de condutor, quer para descansar um pouco, "esticar" as pernas e "espantar" o sono. Para além de, claro, retirar a bicharada do carro.
É nessas alturas que damos graças pelo facto de existirem, nas áreas de serviço espanholas, baldes de água com detergente e uma escova. São estas as 'ferramentas' que nos permitem a lavagem (raspagem?) dos vidros, capot e faróis, retirando as camadas de diferentes insectos que se suicidaram contra o carro, atraídos pela luz dos faróis.

Outro local onde os insectos adoram a nossa companhia é nos parques de campismo. Para além daqueles com que nos vamos cruzando no dia a dia, encontramos muitos novos e diferentes amiguinhos que andaram a coabitar connosco, no momento de levantar ferros e desmontar a tenda.

No entanto, de todos aqueles com que nos cruzamos, os que verdadeiramente nos incomodam, são aqueles que nos impedem ou condicionam o usufruto do lazer a que aspiramos, no decorrer das nossas férias.
Estão neste patamar, entre outros, as vespas que nos rodearam a mesa do pequeno almoço, em Hospitalet / Rocamadour (apesar de também me permitirem ser o herói da criançada por as afastar dos sumos de laranja) ou as enormes lesmas que pernoitaram nas sandálias da Joana, em Ribadeo.

Curiosamente a sua inexistência também nos pode causar algum constrangimento (obviamente menor do que a sua presença).
Alertaram-me para o "horror" dos mosquitos na Finlândia, razão que nos levou a estudar, durante alguns dias, todos os tipos de repelentes (electrónicos, comprimidos, sprays, etc), e nos fez comprar e transportar cremes repelentes para melgas. Curiosamente (e felizmente) não vislumbramos qualquer exemplar. Segundo me disseram mais tarde já teria passado a sua época. No entanto, e apesar de nos ter aumentado o conhecimento sobre a matéria, fizeram-nos ficar preocupados.

Mas, de todas as vezes com que nos cruzamos com insectos, no top está a experiência vivida na Dinamarca.
O tempo que apanhámos foi ameno, embora por vezes cinzento e até chuvoso. Só que, sempre que o sol brilhava após uma chuvada, a temperatura subia e, como consequência, nas zonas mais rurais surgiam nuvens de insectos voadores. Principalmente "joaninhas". De tal forma que o carro chegou quase a mudar de cor (autêntico) e andar na rua tornava-se penoso.

Felizmente, todos estes factos não passaram de pequenos episódios ou contratempos, qual nota de rodapé, na história das nossa férias, não ofuscando os óptimos momentos que as férias nos têm proporcionado.

(Nota: este texto está livre de bugs, pelo menos a acreditar no corrector ortográfico)

domingo, 20 de julho de 2014

O saber do vinho

Recepção das caves da Murganheira, Varosa, Lamego - 2012
Se há coisas agradáveis numas férias (para além de descansar, claro) é ter a oportunidade de aprender algo de novo sobre a realidade que nos rodeia.
Por essa razão, sempre que posso, desloco-me para onde possa visitar monumentos, igrejas, museus ou qualquer outro lugar de interesse.

É nesta última categoria que classifico as adegas ou caves de vinho. São lugares interessantes, onde normalmente se junta o útil ao agradável, ou seja, aprende-se algo sobre o vinho enquanto se degusta o objecto da nossa aprendisagem. E por vezes somos ainda brindados com mais alguma sabedoria extra.

Nas minhas passagens pela região de Lamego, sempre que se proporciona, não deixo de visitar as caves de espumante que por ali existem, mais particularmente as caves da Murganheira.

Das primeiras vezes que as visitei assisti ao processo artesanal da produção e aprendi algumas curiosidades sobre a feitura do espumante.
Anos mais tarde voltei lá. Agora, associada a uma multinacional, a produção aumentou pelo que é visível uma maior automatização dos processos.
No entanto, a visita continua a ser um momento agradável (onde, claro, se incluem as já referidas provas).

Momento interessante na visita é a explicação do método de abertura da garrafa, rolhada com uma cápsula, e o retirar do último depósito gerado no processo de fermentação.
Originalmente feito de forma manual, com recurso a um "abre cápsulas" e à mestria de quem o maneja ("espectáculo" a que ainda tive o prazer de assistir nas minhas primeiras visitas), é agora feito de forma mais automática, recorrendo à congelação do gargalo.

Estando a linha de produção parada, a guia explicou o processo, a razão do mesmo e a consequência do reatestar da garrafa, "transformando" o seu conteúdo em espumante bruto, meio seco ou doce.

Não sei se foi por ignorância pura, se para impressionar a sua companhia ou se por já ter feito várias provas, um dos meus "colegas" de visita destacou-se e perguntou, em tom de afirmação: "Mas também há quem faça essa operação utilizando uma espada, não é?".

Num flash veio-me à cabeça a imagem de um operário de espada na mão, a cortar os gargalos das garrafas.
Este meu pensamento foi interrompido pela voz incrédula e titubeante da guia, temendo ter percebido mal a questão: "Com uma espada? Mas isso danificava a garrafa, impedindo-a de ser novamente rolhada".
De facto, bastaria ter pensado um pouco sobre o processo para concluir que a pergunta era despropositada, raiando mesmo o risível.

Curiosamente o autor da pergunta ouviu a resposta sem qualquer vislumbre de arrependimento na sua falta de raciocínio. Enfim, nada que mais um pouco de espumante não fizesse esquecer.
E se é verdade que confessar ignorância ou desconhecimento não envergonha ninguém, também é verdade que exibir essa mesma ignorância não abona nada a quem o faz.

E com este meu ultimo "pensamento" arrumo quem possa pensar que eu apenas visito uma adega para a degustação dos vinhos. Este pequeno episódio prova-nos que, juntamente com uma flute de espumante, podemos sempre aprender mais alguma coisa sobre a natureza humana.



Informação adicional em:
Caves da Murganheira (passe a publicidade)

domingo, 13 de julho de 2014

Realidade aumentada

A Tower Bridge e o City Hall vistos do Monumento, Londres - 2010
The Monument.
Também eu subi os muitos degraus que nos levam até uma vista panorâmica verdadeiramente extraordinária sobre Londres. Mas não me lembro de ter ficado sem respiração e de considerar que nunca mais lá subiria. Enfim, na minha infância, de acordo com as modernas considerações e a opinião da minha mãe, eu devia ser hiperativa, o que me facilita muito a vida no que respeita a escadas de caracol. Claro que as 3 libras que nos pedem para trepar uma escadinha de caracol, onde não há espaço para nos cruzarmos com um alfinete, podem ser um impedimento, mas tenho de considerar que uma hora de exercício aeróbico num ginásio qualquer sai mais cara e não tem a recompensa da vista.
A vista é simplesmente única - 360 graus de telhados londrinos numa mistura de vidro da City, onde o "Gherkin" impera, de guindastes, gruas, e prédios anónimos, com o Tamisa a servir de pano de fundo ao City Hall e à imagem de postal da Tower Bridge. De St.Paul's a Westminster e à London Eye, Londres torna-se uma paisagem de filme.

O incêndio de Londres foi, aparentemente, a maior desgraça da cidade. Mas, de acordo com alguns autores, pode também ter contribuído para a salvação da mesma.
Quando o fogo deflagrou, a cidade tinha sido consumida pela peste durante um ano levando a que uma parte importante da população a tivesse abandonado e outra parte importante tivesse morrido. Por um lado, um número substancial de pessoas foi poupado ao fogo;  por outro, talvez o fogo tenha destruído as causas da peste e dado origem a uma cidade mais limpa e ordenada. No entanto, nunca se chegou a uma conclusão quanto ao número de mortos que o fogo terá feito. Oficialmente poucos; na realidade, possívelmente, muitos.

Mas se o Terramoto de Lisboa, uma catástrofe igualmente avassaladora, eliminou as velhas estruturas medievais e obrigou ao nascimento de uma cidade nova, parece que o Grande Fogo não teve para Londres o mesmo efeito. A cidade nova esperaria ainda 300 anos semeados de epidemias de cólera, de blitz e de smog,  para então surgir em corpos de vidro e aço apontando para o céu.

O Monumento continua lá com os seus 311 degraus mas cá por mim irei subir a um 68º andar para ver uma vista ainda mais ampla: a realidade aumentada espera por mim no The Shard.

Mas, desta vez, de elevador.


The Monument to the Great Fire of London
The Shard
The View from the Shard - the sights and sounds of London


sábado, 5 de julho de 2014

O Monumento

"The Monument", Londres - 2010


A 2 de Setembro de 1666 a padaria de Tomas Farriner, em Pudding Line, incendeia-se.
O fogo é extinto apenas a 5 de Setembro, tendo consumido 44 edificios públicos, 87 igrejas, a catedral de St. Paul e aproximadamente 13.200 casas. Mais ou menos 1/3 da cidade de Londres de então.
Foi "O Grande Incêndio".

Para relembrar o facto, entre 1671 e 1677, foi construída uma coluna de pedra, no estilo dórico romano, com 62 m de altura (202 pés) e que se situa a 62 m (202 pés) do local onde se iniciou o incêndio. A esta coluna foi chamado o "Monumento do Grande Incêndio de Londres" ou "O Monumento", para os íntimos.

O Monumento, que domina toda a zona envolvente, tem no seu interior uma estreita escada em caracol, com 311 degraus (dizem, porque não os contei), que permite o acesso à parte superior da coluna.
Uma vez subida a escada, caso não se tenha desfalecido e após recuperar a normal respiração, temos acesso a uma estreita varanda com uma vista espectacular sobre a cidade.

Estive lá num domingo de Agosto de 2010 e paguei 3 libras para subir os degraus até lá acima. De facto a vista é belíssima, arriscando-se mesmo a ser única, uma vez que não sei se e quando lá voltarei. Com a idade o fôlego tende a diminuir.

Mas vale a pena a subida. Mais não seja porque no fim, quando regressamos ao "chão", dão-nos um diploma em como subimos lá acima, e sobrevivemos.



Informação adicional em:
The Monument
Monumento to the Great Fire of London (wikipedia)

domingo, 29 de junho de 2014

Frederico ou Cristiano

Túmulo de Cristiano IX, Catedral de Roskilde, Dinamarca - 2009

A visita à Catedral de Roskilde, panteão dos Reis dinamarqueses, é uma experiência estranha. 

No seu interior estão os túmulos de grande parte dos Reis dinamarqueses e seus familiares, e este facto faz com que toda a catedral seja um imenso mausoléu. 
Existem túmulos por todo o lado, das mais diversas épocas e gostos. Debaixo do altar há uma espécie de catacumbas, a cabeceira da catedral está cheia de túmulos, as capelas laterais estão ocupadas com filas de túmulos, a zona de entrada tem mais túmulos, enfim, seja uma enorme caixa de pedra negra, seja uma lápide rasa, qualquer lugar ou recanto que se possa imaginar está ocupado com o túmulo de alguém importante (ou de um seu familiar).

Na curiosidade de saber a quem pertence cada uma das sepulturas verifiquei que existiam dois nomes muito comuns nos monarcas dinamarqueses, ao ponto de ficar na dúvida se não teria já visto outro túmulo daquele mesmo Rei.

Esse facto criou-me a curiosidade de saber que Reis governaram este país. Foi assim que descobri que, tirando algumas excepções no início (recheado de Canutos, Éricos e Valdemares), praticamente todos se chamaram Cristiano (a lista vai no X) ou Frederico (conhece-se o IX), com excepção das Rainhas que se chamam sempre Margarida (sendo a actual monarca a Rainha Margarida II).

Perante tais coincidências questionei-me sobre como seria estudar a História da Dinamarca. Se é certo que por um lado é mais fácil decorar os nomes dos monarcas, por outro também é fácil baralhar o que cada um terá feito ou em que época terá vivido.

Comparando com o que tive que sofrer para decorar as nossas dinastias (com excepção da terceira, claro) e mesmo assim mal (há sempre um Afonso fora do lugar), fiquei com um sentimento misto de inveja e pena dos estudantes dinamarqueses.

Pensando bem, julgo que me fico apenas pela pena. 
A lista dos Reis dinamarqueses é, de facto, antiga e  muito extensa. Muito maior do que a nossa (e como já disse, repetitiva).


Informação adicional em:
Lista dos Reis da Dinamarca (Wikipédia)
A Monarquia no site oficial da Dinamarca
Site oficial da monarquia dinamarquesa