segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Natal em Agosto (II)

Loja em Heidelberg, Alemanha - 2007
Seja pelos tempos que se avizinham, seja por qualquer outra razão, o facto é que ultimamamente apenas me têm vindo à memória situações em que, quando menos espero, me cruzo com o Natal.
Curiosamente (ou talvez não) ocorreram sempre no Verão.

Este meu encontro aconteceu durante a nossa passagem por Heidelberg.
Convém talvez referir que, nos poucos dias que por lá andámos, o clima esteve sempre muito incerto. E apesar de termos apanhado algum sol, choveu em boa parte do tempo. Quanto a temperaturas, andaram sempre mais para o fresco do que para o quente.

Ora, num dos finais de tarde, após termos dado um longo passeio pela cidade velha, o tempo (re)começou a ficar mais invernoso. À medida que o sol foi baixando, a temperatura foi também ela descendo e,.por fim, começou a cair uma chuvinha miúda muito desagradável.

Uma vez que ainda faltava algum tempo para pensarmos em jantar, para fugir à chuva decidimos entrar no que me pareceu ser uma pequena loja de artesanato.
Lá dentro verificamos que a loja se prolongava, vislumbrando-se a existência de mais salas. Como tempo era algo que não nos faltava, fomos entrando e vendo o que por ali havia.
Bonecos "quebra nozes", com as mais diversas indumentárias, brinquedos de madeira de vários tipos, candelabros para velas, feitos de madeira recortada, e muitos outros objectos, maioritariamente natalícios, foram fazendo as nossas delícias.

À medida que a nossa atenção ia saltando de uma peça para outra, fomos avançando para o interior da loja, aproximando-nos da sala central. E foi aí que o encontro se deu. Quando entrámos a visão foi magnifica. No centro uma enorme e brilhante árvore de Natal dominava a sala.
Nesse momento esqueci-me do mês em que estávamos e, naquela sala, com aquela árvore, rodeado de brinquedos, senti-me no Natal.

O lugar era tão agradável que, confesso, foi com alguma pena e custo que nos afastámos da árvore e saímos da loja. Já cá fora na rua, o tempo fresco e chuvoso foi prolongando um pouco mais o clima natalício (pelo menos para os nossos padrões) gerado por aqueles momentos, dentro daquela loja.

Apesar de não nos termos apercebido do tempo gasto lá dentro, a fome fez-nos voltar à realidade. De facto, não há nada como um bom jantar, numa pequena cervejaria (alemã, claro) para nos afastar das nostalgias de Inverno e nos "trazer de volta" ao mês de Agosto e às férias de Verão.


Informação adicional em:

domingo, 23 de novembro de 2014

Natal em Agosto

Armazéns Harrods, Londres - 2006
Diz a tradição que o "Natal é quando um homem quiser".

Estávamos nós no inicio de Agosto de 2006 quando, para grande espanto e noticia nos media, os armazéns Harrods, em Londres, anunciaram a abertura da secção de Natal.
Numa época do ano em que boa parte das pessoas só pensa em calor e sol, falar no Natal parece ser um contracenso. Mas pelos vistos não é.

Calhou estarmos em Londres, quando este anuncio se deu. Obviamente não poderíamos deixar passar a oportunidade de entrar em tão controverso lugar.
Foi assim que, numa bela tarde de Agosto, lá fomos nós visitar a propagada secção.

O espaço, composto por várias salas, era todo ele interior, permitindo-nos esquecer, por instantes, o sol e os vinte e muitos graus que estavam na rua.

Passado o primeiro impacto e à medida que fomos entrando nas salas, fomos sendo envolvidos pelas decorações que nos lembravam a neve e os agasalhos do inverno, pelas luzes coloridas e pelos materiais cintilantes, fazendo-nos entrar  no espírito natalício e transportando-nos para outra época do ano.
Tudo isto sem estranhar que, naquele ambiente, as pessoas estivessem com roupas frescas, tais como calções ou  camisolas de manga curta.
Esta nova realidade anacrónica, acabou por gerar e envolver-nos numa certa atmosfera "mágica".

Terminada a visita (tendo eu resistido, por vezes com alguma dificuldade, a comprar enfeites natalícios), regressamos de novo à rua e à realidade de Agosto.
No entanto, esta meia hora deixou-me o estranho sentimento de ter vivido numa realidade paralela, onde o calor e o Natal se misturaram.

Não esquecendo que tudo isto foi uma bem montada manobra de marketing, não é pois de admirar que, muitos dos visitantes desta nova secção, tenham saído cheios de embrulhos.

Infelizmente esta experiência faz-me pensar que, ao contrário do dito popular, nos tempos que correm "Natal é quando o marketing quer".


Nota: actualmente a abertura da secção de natal do Harrods realiza-se em Julho.


Informação adicional em:
A parada de Natal, no Daily Mail
A noticia da 'chegada' do Natal, no Guardian

domingo, 9 de novembro de 2014

O caos da Ribeira

Mercado da Ribeira, Lisboa . 2014
Como vamos tendo cada vez menos horas disponíveis, os lugares com prateleiras cheias de produtos apelativamente embalados, disponíveis quase 24 horas por dia e onde não temos necessidade de falar com ninguém (excepto, talvez, para perguntar onde está um determinado produto), vão-nos seduzindo e ocupando o nosso quotidiano..
É assim que os mini, super e sobretudo hiperrmercados vão entrando no nosso dia-a-dia, matando e tomando o lugar dos simplesmente (e antigos) mercados de bairro.
Aos poucos, estes vão perdendo dimensão, ficando entregues apenas aos seus mais antigos e fiéis clientes. E há medida que os seus "velhos" clientes vão desaparecendo, os mercados vão sucumbindo com eles.

Do que me recordo da  minha última passagem pelo Mercado da Ribeira, é que o espaço estava um pouco degradado, mas que ia cumprindo o seu papel.
Tal como tantos outros mercados tradicionais, convenci-me que a Ribeira não iria ser uma excepção, tendo também ela como destino uma lenta e agonizante extinção. No entanto, uma noticia de jornal fez-me criar alguma expectativa contrária.
Após obras de conservação, parte do mercado foi transformado num espaço de restauração (para além, claro, do já famosos cacau).

E foi assim que, num dos sábados seguintes, decidimos ir lá almoçar.

Quem teve a ideia e operou a transformação do espaço (sinceramente desconheço o processo), fez, no geral e em minha opinião, um bom trabalho.
Manteve numa das naves do edifício a sua função original de mercado, enquanto que a outra foi transformada num espaço dedicado à restauração e ao lazer.

Do lado da restauração, as antigas lojas do mercado, que rodeiam toda a nave, foram concessionadas a restaurantes. A diversidade destes pequenos espaços permite uma variedade e amplitude de escolha de pratos, que vão desde o puramente vegetariano ao ostensivamente carnívoro.

No meio do pavilhão (barulhento, como compete a um mercado) foram colocadas umas mesas corridas, de madeira clara, onde nos podemos sentar, partilhando, de mdo informal, a refeição, com todos os outros clientes deste espaço.

Fosse por ser fim de semana, fosse por estar na "berra", o espaço estava cheio, o que nos obrigou a deambular algum tempo pelas mesas à procura de dois lugares frente a frente para nos sentarmos.

Quando finalmente me vi sentado, frente a um belíssimo hamburguer de salmão, olhei à volta para apreciar o lugar e pensar sobre ele.

O espaço, "vintage" QB, é agradável. A oferta de opções de refeição muito variada. Os clientes muito heterogéneos, havendo-os de todas as idades e nacionalidades. Enfim, tem tudo para ser uma aposta ganhadora.
No entanto, apesar de todos estes pontos positivos, porque é que fiquei sem grande vontade de voltar? A resposta é simples e lamento ter de a dar: os clientes eram maioritariamente portugueses.

Não que eu tenha algo contra essa nacionalidade, até porque eu sou um deles. O que me desagrada é o velho e enraizado (mau) hábito de reservar um lugar, horas a fio se necessário, para só depois, calmamente, ir procurar escolher o que comer.
De facto, ao olhar para o espaço das mesas, estas estavam cheias. Mas sobretudo de pessoas à espera e a reservar vários lugares nelas. Em volta, quase outros tantos, andavam a passear os tabuleiros na esperança de encontrar um lugar desocupado, tal como já me acontecera a mim.

E é esta procura, stressante, com a noção de que o almoço está a arrefecer, este pedir quase por favor para me poder sentar, que não me agrada no lugar.
Infelizmente enquanto me lembrar desta sensação, não vou ter grande vontade de lá voltar.

Espero, sinceramente, que o sucesso desta ideia não seja a sua perdição. 

domingo, 2 de novembro de 2014

Portugal não tem Mar

Praia de Santa Cruz, Portugal - 2008
Esta é uma daquelas situações que me lembro de ter ocorrido mas que, talvez pelo impacto que teve, não consigo situar muito bem nem no espaço nem no tempo.

Sei que estávamos nós algures no sul de França, junto ao Mediterrâneo, e que estávamos a falar com um habitante local.
A conversa foi derivando e falávamos sobre o mar, o calmo que ele era nas praias do Mediterrâneo e que a temperatura da água ser agradável.
A dada altura dissemos que em Portugal, tirando o sul, o mar era, de uma forma geral, mais violento e mais frio.
E foi aí que tudo aconteceu. O nosso interlucutor virou-se para nós com um ar entre o incrédulo e o espantado e disse: "Mas Portugal não tem mar"

Fiquei sem pinga de francês para ripostar.
Apanhado completamente de surpresa, apenas me saiu a pergunta "Não tem mar?" Tinham-me acabado de cair 800 Km de costa aos pés.
Ainda titubeante repeti "como não tem mar?"

Então tudo se esclareceu. "Claro que não tem mar. Portugal tem oceano. Mar temos nós, aqui, no Mediterrâneo".

De facto, cada um vê o mundo à luz da sua realidade.
De repente apercebi-me que, apesar de toda a minha vida ter frequentado anualmente a praia, apenas há algum tempo atrás tinha verdadeiramente visto O mar.

Ou então não.


Informação adicional em:
Mar, na Wikipédia
O Mediterrâneo na Wikipédia

terça-feira, 28 de outubro de 2014

A Torre Redonda

Rundetaarn, Copenhaga - 2009
Copenhaga é uma cidade baixa. Como tal, qualquer torre ou campanário mais alto destaca-se facilmente no horizonte. E há vários.
Um destes pontos altos é a Rundetaarn ou Torre Redonda.

A Torre Redonda, edificada entre 1637 e 1642 por ordem de Cristiano IV, faz parte de um complexo de edifícios, composto por uma igreja, uma biblioteca e um observatório astronómico.
O observatório fica situado no cimo da torre e é rodeado por uma varanda larga.

É por ser construída para servir de base ao observatório que esta torre se tornou particularmente original. No seu interior foi construída uma larga rampa em espiral, com 209 m de extensão, e que dá 7,5 voltas sobre si mesma, até atingir o cimo.
A razão desta rampa prende-se com a necessidade que houve, na altura da sua construção, de transportar os equipamentos de observação até ao seu topo.
Actualmente, e para além do acesso ao observatório e à sua varanda, a rampa serve também para uma original prova desportiva: uma corrida de monociclos .

A subida, apesar de inclinada, faz-se sem grandes problemas. Mas se nos distraímos, facilmente chegamos lá acima um pouco mais ofegantes.
Talvez para evitar esse cansaço, ao longo da subida existem algumas portas que dão acesso a salas do edifício adjacente e onde é possível visitar algumas exposições temporárias. A visita é sempre um bom pretexto para se ir fazendo umas pausas pelo caminho,

Subi uma única vez ao cimo da Torre Redonda (e não, não foi de monociclo...). O percurso é fresco e, no cimo, na varanda que rodeia o observatório, temos uma fabulosa vista de 360º sobre a cidade.

E, ao fim de uma tarde de verão, com uma leve brisa morna, acreditem, é muito agradável.


Informação adicional em:
A Rundetaarn
A Rundetaarn na Wikipédia

A corrida de monociclos (site oficial)
A corrida de monociclos na Wikipédia


domingo, 12 de outubro de 2014

Fragas de Panóias

Santuário de Panoias, Vila Real, Portugal - 1982
1982.
Nesse ano as férias só poderiam correr bem. Tínhamos uma boa tenda, tínhamos um carro (o Fiat 600 que se vê na fotografia, ao fundo, junto às casas) e eu tinha as minhas primeiras férias pagas (começara a trabalhar). Como tal, só nos restava seguir à aventura pelo país fora.

O Norte sempre fora, para mim, uma zona desconhecida. Trás-os-Montes então era um longínquo lugar, quase mítico. E como não tinham ainda começado a chegar os subsídios da CEE, viajar pelas estradas portuguesas era já por si uma aventura.

Foi com o espírito da descoberta que chegamos a Vila Real de Trás-os Montes.
Uma vez acampados no Parque Municipal (que a memória me diz ser um parque simpático), só nos restava mesmo explorar o que a região tinha para nos surpreender. E a verdade é que tinha.

Confesso que até essa data nunca tinha ouvido falar de Panóias, No entanto, ao fim de algumas voltas chegamos lá, ao "Santuário de Panóias". Um penedio junto a uma aldeia que, para nós, estava longe de tudo.

Para quem lá chega é uma visão estranha. No meio das fragas, abrem-se na rocha uns degraus que nos conduzem a uns buracos rectangulares, com o aspecto de sepulturas.
Depois apercebemo-nos da existência de regos, também eles escavados na pedra.
É um lugar sagrado, de sacrifício.

Ainda na rocha existem inscrições romanas, inscrições essas que, de alguma forma, nos situam o santuário no tempo. Algo que para mim me pareceu anacrónico.
Dos romanos temos a ideia das construções clássicas, de blocos de pedra e colunas. Ali não, tudo tem um aspecto mais "troglodítico".
Para além das pedras esculpidas e da calma que as rodeava, nada mais havia para ver. Mas chegava. Valeu bem a viagem,

Nunca mais lá voltei (nem a Vila Real) mas este lugar fez-me tomar consciência de que no nosso país existem lugares muito estranhos e curiosos. Razão pela qual nunca mais o esquecerei.


Informação adicional em:
Santuário de Panóias (Wikipédia)
Guia da Cidade (Panóias)
SIPA - Sistema de Informação para o Património Arquitectónico
DGCP
Museu de Vila Real

domingo, 5 de outubro de 2014

Memória

Torre de Londres, Londres - 2014
Sempre fui muito critico com as chamadas “instalações".
Das muitas que já tive oportunidade de ver ao longo dos anos, poucas foram aquelas de que eu tenha gostado, reconhecido o sentido, ou impressionado.
Na minha perspectiva não é só o facto de se descontextualizar um objecto, reestruturar um conjunto de objectos, ou recriar um espaço, que me faz considerar só por si, que isso seja arte ou, no minimo, uma provocação. No entanto há honrosas excepções que me fazem considerar e dar credibilidade ao género,

Neste ano de 2014 assinalam-se os 100 anos do início daquela a que se viria a chamar "A Grande Guerra".
Infelizmente todos nós conhecemos o horror que a mesma foi, bem como as consequências que ela teve.

Para lembrar a efeméride, um pouco por toda a parte, nomeadamente na Europa, organizaram-se diversos eventos e cerimónias solenes.
De todos estes acontecimentos nenhum me marcou especialmente. Apenas ficou no fundo da minha memõria que a guerra tinha começado, fazia agora cem anos.

Mas a arte tem destas coisas. No momento em que menos esperava, a lembrança desta guerra e das vitmas que ela causou, cairam-me em cima, da forma mais estranha que eu poderia imaginar.
Neste verão, ao chegar junto da Torre de Londres fui surpreendido com um espectacular memorial aos soldados mortos na Grande Guerra.
Uma instalação, da autoria de  Paul Cummins, cercou a Torre de Londres com 888.246 papoilas vermelhas, em cerâmica. Uma por cada soldado britânico morto durante a guerra.

O contraste entre o imenso campo florido e a estrutura militar (também ela de má memória) onde as flores foram “plantadas”, tornava o conjunto um misto de dramático, estranho e ao mesmo tempo fascinante.

Mesmo que se desconheça a intenção ou o significado da obra, a visão desta mancha vermelha que “escorre” das muralhas é arrebatadora, sendo impossível ficar-lhe indiferente.
Para o provar bastava o facto da multidão de visitantes que, como eu, olhava o fosso florido, se ter mantido num silêncio ou num sussurro quase religioso, enquanto contemplava a obra.

É face a obras como esta que me reconcilio com as ditas "instalações".

Ah! Apenas como curiosidade: a esta instalação o autor deu o nome de "Blood Swept Lands and Seas of Red" (o sangue cobriu as terras e os mares de vermelho). Mas ter este ou outro nome não altera em nada o impacto da sua visão.


Informação adicional em:
WW1 UK Events
poppies.hrp.org.uk
A Primeira Guerra Mundial - Wikipedia