domingo, 12 de abril de 2015

Matrix

Sacré Coeur, Paris - 2005
Conhecer uma cidade é sempre algo difícil.
Visitam-se os lugares conhecidos e os museus de referência, passeamos pelas ruas principais e, normalmente, não se sai dos roteiros mais ou menos turísticos que nos são propostos. Enfim, não se passa para além do screen saver do lugar visitado.

O problema é que esse screen saver tem tantas mais "camadas" quanto maior e/ou mais turístico é um lugar. Quando pensamos que ultrapassámos já a barreira do turístico e, finalmente, estamos a conhecer a cidade, de facto apenas atravessámos uma camada, passando para a seguinte..
Diz-me a experiência que só nos cruzamos com a realidade (ou uma das realidades), quando esta nos é mostrada por alguém que a conhece ou então por mero acaso.

Posto isto, passemos aos factos.

Quando comecei a trabalhar não tinha grandes compromissos com que me preocupar. Como tal pude ir poupando algum dinheiro para gastar nas férias, utilizando-o até aos limites. Foi assim que, em 1985, embarcamos numa camioneta repleta de emigrantes de poucas posses (porque os outros iam, no mínimo, de comboio), e seguimos rumo a Paris.

Na altura, a ideia que eu fazia de Paris vinha apenas dos livros que li e dos filmes que a mostravam. Uma cidade melancólica, boémia, despreocupada e domingueira. Uma cidade desafogada, grandiosa, orgulhosa e no entanto romântica, que transbordava das margens do Sena.

Ao acamparmos no parque de campismo do Bosque de Boulogne a realidade que se nos apresentou não foi exactamente a que imaginei.
Uma segurança quase policial à porta do parque e a "proibição" de andar a pé pelas ruas circundantes mal o sol se começasse a esconder, tirou à cidade alguma dessa aura romântica.
Valeu-nos a hospitalidade de pessoas conhecidas, emigrantes em Paris, não por razões económicas mas por questões da vida pessoal, que nos proporcionaram (para além de um fabuloso jantar caseiro) uma visão mais "burguesa" e mais "clássica" da cidade.

Curiosamente foram também esses nossos amigos que nos deram um vislumbre de uma outra Paris que não sonhávamos existir.
Vivendo numa pacata rua de um bairro típico parisienses, levaram-nos a passear de carro, entre outros lugares, pelas ruas traseiras desse mesmo bairro.
Nesse "outro" bairro viviam praticamente só emigrantes africanos e, ao virarmos uma esquina, fomos transportados para um qualquer "bairro" em África (ou pelo menos como o nosso imaginário julga poder ser).
Mulheres a cozinhar numa fogueira na rua, ou um homem a encabeçar um pequeno cortejo de mulheres a transportar trouxas, são algumas das imagens mais marcantes que me ficaram desse bairro de ruas estreitas e populadas.

Também graças a esses nossos amigos a visita ao Sacré Coeur foi diferente da que é normal entre turistas. Não sendo a sua casa muito distante, fomos a pé até lá. No entanto a subida a Montmartre não foi feita pelo lado turístico. Foi feita através de ruas menos cuidadas e de mercados de bairro, situadas em quarteirões habitados por emigrantes, onde nós destoavamos por completo.
O meu francês pode não ser muito famoso mas, por aquelas ruas, não me parecia que fosse a língua mais utilizada. Ou se o era, era-o numa variante muito própria, que me fazia não perceber o que os comerciantes apregoavam.

Uma vez chegados lá a cima, reentramos no bilhete postal, contemplando uma fabulosa vista sobre Paris.
Meia hora depois, terminada a visita, regressámos pelo mesmo trajecto.

Mais tarde, quando em conversas com amigos, também eles felizes visitantes da cidade luz, referíamos Montmartre, apenas estávamos de acordo com a vista magnifica do local. Quanto ao resto, à envolvência, tínhamos conhecido duas cidades diferentes.

Regressei ao Sacré Coeur vinte anos depois. Desta vez subi pelo lado dos turistas e dos pintores, confirmando que o passeio é agradável (apesar de íngreme), faltando apenas ouvir o som de um acordeão para que a imagem romântica do lugar fique completa.
Uma vez lá em cima, contemplando a cidade, lembrei-me da nossa visita anterior e tentei vislumbrar o bairro por onde subíramos. Fosse pela quantidade de turistas, fosse porque a realidade se modificara entretanto, o facto é que não vi nada que me lembrasse o nosso primeiro trajecto.

Ou então a versão do screen saver foi melhorada.

domingo, 29 de março de 2015

Liechtenstein

Castelo de Vaduz, Liechtenstein - 2008
Numa Europa cuja história está cheia de invasões e impérios, parece estranha a existência de pequenos (diria mesmo micro) países, muitos deles a fazer lembrar as cidades estado medievais. E se em alguns casos até se consegue perceber o porquê da sua subsistência (a geografia no caso de Andorra, os impostos no caso do Mónaco ou a religião no caso do Vaticano), outros há que não consigo perceber o porquê da sua existência.
No entanto eles lá estão, orgulhosamente "independentes".

Vem toda esta prédica a propósito do Liechtenstein.

O Liechtenstein é um país de que nada conheço, de que quase nunca nos lembramos que existe e que, muitas das vezes, nem sequer sabemos onde fica. Como tal, conhecer a sua história ou geografia é, claramente. pedir de mais. 
A sua pequenez é tal que fácilmente não damos por ele. E quando damos é numa daquelas situações em que ele se cruza no nosso caminho, quando estamos a olhar para um mapa de estradas.

Pelo menos foi assim que eu me cruzei com o Liechtenstein.
Na viagem de Innsbruck para Annecy, ao olhar para o mapa, verificámos que íamos passar ao lado de Vaduz e que até dava para lá ir almoçar. Algo do género "vou de Lisboa ao Porto e onde é que vou almoçar? Olha a Mealhada calha mesmo em caminho".
Talvez com a grande diferença que, na Mealhada, sabemos que muito provavelmente vamos comer leitão, enquanto que no Liechtenstein...

E assim foi. No meio da viagem, quando apareceu a placa com a indicação de Vaduz, abandonamos a estrada principal e desviamos rumo ao Liechtenstein.

À chegada, a cidade pareceu-me pequena, pacata e agradável. Mas não deu para a conhecer melhor. Como referi, fomos mesmo lá só para almoçar.
Era verão e o dia estava ensolarado, factores que nos permitiram desfrutar a refeição numa agradável esplanada.
Do que me ficou na memória almoçamos bem. Mas se na ementa existia algum prato típico não dei por ele. Até porque não o saberia reconhecer.

Findo o almoço, passeamos até ao carro e regressámos à estrada.
Sem grandes pressas atravessámos uma zona mais moderna e, mal saímos da cidade, descobrimos que estávamos a entrar na Suíça.

É um facto que, como já subejamente referi, só lá íamos mesmo almoçar. No entanto fiquei com a sensação de que alguma coisa me tinha escapado .
Talvez um dia regresse com mais tempo e, de facto, possa conhecer algo mais da cidade e do país para além de uma agradável esplanada.


domingo, 15 de março de 2015

Realidades paralelas

Arco do Triunfo, Paris, França - 2004
Li algures que, num conflito entre duas partes, há sempre, pelo menos, três realidades: aquela que é contada por cada uma das partes e a que de facto aconteceu.

Este pensamento ocorreu-me a propósito das invasões francesas, acontecimento cujo bi-centenário do seu fim se celebrou no ano passado.

Para quem não está familiarizado com o tema eu passo a resumi-lo rapidamente (na minha versão livre, claro):

Napoleão Bonaparte, na sua ânsia de expandir o império e após várias conquistas, decidiu invadir a Grã-Bretanha. Como uma ilha tem o defeito de estar rodeada de água, o que dificulta a sua invasão, ordenou que todos os portos do continente se fechassem ao barcos britânicos.
Ora tendo em 1386 Portugal assinado o tratado de Windsor com a coroa britânica, o rei português decidiu não acatar as ordens do imperador francês. Este acto levou Napoleão a enviar um exército para que se cumprissem as suas ordens e se fechassem os portos portugueses.
Para "nos" defender, os britânicos enviaram também tropas para Portugal. Como se antevia que a vida por cá ia ficar um pouco complicada, as cortes portuguesas aproveitaram a ocasião para ir a banhos para o Brasil, tendo o nosso rei entregue as chaves do país a Sir Artur Wellesley.
Junot, Soult e Masséna comandaram os três corpos expedicionários enviados por Napoleão, sendo que, o último, esbarrou com as chamadas Linhas de Torres, construídas nos entretantos, dando por findas as invasões.

Já agora, e por mera curiosidade, refira-se que as Linhas de Torres consistiam num sistema defensivo em três frentes, sendo que as duas primeiras protegiam a península de  Lisboa enquanto que a última, junto a Cascais, garantia a retirada em segurança das tropas britânicas, o que não foi necessário.

Como se pode depreender, os perto de sete anos que duraram as guerras peninsulares contaram com muitas e sangrentas batalhas originando gloriosas e retumbantes vitórias.

E é neste ponto que regressamos ao meu comentário inicial.

Tendo vivido muitos anos à sombra das vitórias "portuguesas" (Buçaco, Roliça, Vimeiro, etc.) foi com particular espanto que, quando visitei o Arco do Triunfo, em Paris, não encontrei lá qualquer referência ás batalhas que conhecia.
Em contrapartida estavam lá identificadas localidades portuguesas onde deverão ter ocorrido batalhas de que nunca tinha sequer ouvido falar (e de que, presumo, os franceses deverão ter saído vencedores).

E é assim que descubro que, aquele monumento icónico da cidade de Paris, é, na realidadea um portal para uma realidade paralela àquela em que eu toda a vida vivi.


Informação adicional em:
A Guerra Peninsular - Uma perspectiva portuguesa
A Guerra Peninsular - Wikipedia

1807-1808 : Campagne du Portugal, En route vers l'Espagne
1810-1811 : La Campagne du Portugal
Invasions françaises du Portugal - Wikipedia

domingo, 8 de março de 2015

A Tuna

Santiago de Compostela - 2011
Cheguei a primeira vez a Santiago de Compostela no inicio dos anos 80. Foi o inicio de uma quase 'peregrinação' anual obrigatória.

Nessa altura o nacionalismo galego estava em grande. Encontravam-se mais facilmente pessoas com afinidades a Portugal do que com simpatia por Madrid (julgo que já por aqui referi que, na época, chegaram-nos a fazer desconto só por sermos portugueses).
Nas ruas, os grupos de músicos tocavam maioritariamente modas galegas e, nas lojas, ouviam-se com frequência sonoridades celtas. E portuguesas.
Foi nesse período, aliás, que “descobri” grupos como os ‘Fuxam os Ventos’ ou os ‘Milhadoiro’, entre outros.
No entanto, dos grupos de rua, destacava-se a Tuna.

Abrindo um pequeno parêntesis e para quem não a conhece, pode-se dizer que a Tuna é um grupo de músicos, com vestes "renascentistas", supostamente composto por estudantes universitários (apesar de alguns parecem ser já mais do que veteranos). Fim do parêntesis.

Mas a Tuna não se destacava apenas pelas indumentárias. Destacava-se sobretudo pelas musicas que tocavam. Em época de nacionalismos o reportório "normal" era composto, basicamente, por canções populares ou popularizadas... castelhanas.

Esta diferença tornava-os populares entre os turistas (maioritariamente vindos de outras regiões de Espanha) mas menos bem vistos aos olhos dos galegos, sobretudo dos mais nacionalistas.
Eram considerados “reacionários” e (com alguma razão) “comerciais”.

No entanto, todas as noites lá estavam (os senhores da música como a Joana lhes chamava), na praça da Obradoiro e/ou junto aos correios, rodeados de turistas, cantando, dançando e bebendo animadamente, e animando as noites da cidade.

Com o passar dos anos a realidade galega foi-se alterando. Quem visitou a Santiago de então e a visita agora, terá de reconhecer que muita coisa se alterou.
Reconciliaram-se posições, fruto da autonomia politica e cultural, e a própria Tuna tornou-se mais galega.

As indumentárias são as mesmas (e não sei se alguns dos elementos também não serão ainda os mesmos) mas fizeram-se algumas “afinações”. Para além da pandeireta e da guitarra, a gaita de foles passou também a fazer parte do conjunto, e várias modas galegas foram acrescentadas ao reportório normal.

No entanto, no seu todo, continua igual a si própria, quer na exuberância, quer na cerveja.

E é assim que, quando regresso a Santiago e vou à noite à Praza do Obradoiro, espero encontrar a Tuna, debaixo das arcadas, frente à catedral, garantindo assim um animado serão.

Clavelitos, clavelitos,
Clavelitos de mi corazón...


Informação adicional em:

Tuna de Derecho Santiago
La Tuna de Santiago

fuxan os ventos
facebook - fuxan os ventos

Millhadoiro

domingo, 1 de março de 2015

Gulodices

Dax, França - 2007
Estávamos nós novamente em Limoux, centro sul de França, terra de Crémant, o tal vinho espumante branco, deliciosamente fresco e agradável, já aqui referido anteriormente. Se o Crémant é o verdadeiro champanhe, de que um monge com poucos escrúpulos e alma de espião se limitou a roubar o segredo da produção para ir fazer espumante lá para o norte, nunca apurámos, o facto é que é digno da degustação que fechava a visita guiada à Abadia de Santo Hilário, e que em várias ocasiões nos levou lá em peregrinação.

Mas esse já foi assunto de outra altura.

Ora bem... numas das visitas a Limoux, enquanto davamos umas voltas em busca de um lugar adequado para almoçar, calhou passarmos por uma das lojas mais representativas da cidade: uma espécie de Martins e Costa (ou Corte Inglês gourmet) em ponto grande.
A loja, situada numa esquina, de enormes vidraças, estava já encerrada, mas as promessas que se abriam no seu interior despertaram em mim os piores instintos: desde os queijos aos foie gras, dos chocolates aos doces, tudo me dizia que era imperativo ali voltar.
Havia nomeadamente uns tabuleiros de miniaturas, na mais refinada tradição da patisserie francesa, que me arrancaram a alma: a mistura artística de chocolate, génoise, fruta vermelha, chantilly e sabe Deus que mais, tinha escrita em grandes letras “Mange-moi!" e eu sempre fui obediente. Aquelas coisinhas belas e deliciosas suspiravam por mim e eu por elas.

Almoçámos, vimos as horas e lá fomos nós (eu, principalmente...) obedecer à tentação.
Entrámos. Estavam lá dentro meia dúzia de empregadas atarefadas em volta de tabuleiros magníficos. 
Uma delas veio atender-me solicitamente. Fiz-lhe o meu pedido (uma duzia de miniaturas que escolheria...) e notei-lhe um constrangimento e uma troca de olhares com as colegas. Perguntou-me quais e perante a minha escolha disse “Não pode ser porque esses tabuleiros estão completos...”. Fiquei parva. Essa agora!! Então quais? Apontou-me dois tabuleiros que me pareceram as sobras. Pensei  “ainda falam mal de Portugal... só visto!” Lá escolhi umas dez miniaturas, não seriam a primeira escolha, mas enfim... tinham um aspeto extraordinariamente bom.  Foram embrulhadas em papel e não numa caixinha, como esperava – o serviço era mesmo mau. E perguntei quanto era.

Foi aqui que o meu mundo se desmoronou.
“Mais c’est rien, madame.”
Não era nada? Como não era nada? Fiquei confusa e deixei de perceber francês.
As empregadas pararam e olhavam para mim deliciadas. A senhora que me atendia repetia que não era nada. E explicou devagar que todos aqueles tabuleiros tão bonitos se destinavam a um casamento e que não podia mexer neles porque estavam contados, mas que dos tabuleiros das sobras não havia problema e que desejava que gostasse muito e que os apreciasse e que tinha muito prazer em oferecer-me aqueles e que me desejava boa viagem e blá, blá, blá...

E eu ali encostada ao balcão a gaguejar protestos e agradecimentos envergonhada de mim e da minha gulodice e dos meus pensamentos...

Saí da loja num misto de vergonha e hilariedade, mas com uma certeza muito profunda: as pessoas podem sempre surpreender-nos e, felizmente, a maior parte das vezes das formas mais simpáticas e agradáveis.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Sto Hilario e o vinho

Aldeia de Saint-Hilaire, França - 2000
Nesse ano decidimos percorrer a região Cátara, à volta de Carcassone.
Depois de determinados os possíveis percursos no mapa, fomos indo ao encontro das edificações medievais que por ali abundam.
Calhou nesse dia ir à abadia de Santo Hilário, junto a Limoux.

A abadia situa-se numa pequena aldeia, onde chegámos perto da hora do almoço. À entrada da abadia um grupo de escuteiros aguardava os visitantes, servindo de cicerone na visita ao local.

Dada a volta pelo edifício, levaram-nos a um anexo, onde se situava a antiga adega. Escavada na terra, tinha a particularidade de conseguir conservar uma temperatura quase constante, situada perto dos 18º, fosse verão ou fosse inverno.

A partir desse momento começaram as revelações.
De acordo com os nossos guias terá sido nessa abadia que se “descobriu” a forma de produzir o vinho espumante: o cremant (neste caso de Limoux). E quem seria um dos monges dessa abadia? Nem mais nem menos que um tal de Perignon que, mais tarde, se teria mudado para outra abadia, situada na região de... Champagne, levando consigo o segredo.
Pois é. De acordo com os nossos guias, o champagne teria tido a sua origem aqui.
E para comprovar este facto, a visita terminou com uma prova (e possível venda) do bendito cremant.

Seja a história verdadeira ou falsa (em abono da verdade nunca me dei ao trabalho de a verificar), o que é facto é que o vinho é bom. E, como prova, trouxemos algumas garrafas de recordação.

Passado alguns anos voltámos à região. Prescindindo da visita, fomos logo à sala das vendas para repor o stock.

Na nossa terceira passagem pela região, a nossa peregrinação a Sto. Hilário desiludiu-nos.
Mais dedicada às questões artísticas e religiosas, a abadia deixou de patrocinar a divulgação do património vinícola da região.
Como compensação da nossa desilusão, indicaram-nos alguns dos produtores locais, permitindo-nos outro tipo de visita: a dos campos de vinha e das quintas de produção vinícola.

O cremant continua a ser muito agradável de beber. 
Mas para mim, perdeu um pouco do seu misticismo.



Informação adicional em:
Site oficial da abadia
Les AOC de Limoux

sábado, 10 de janeiro de 2015

In English, please...

Terras Altas, Inverness, Agosto - 2006
Vamos começar com um ou dois esclarecimentos iniciais, necessários a quem  ler estas linhas e também a consolo próprio:
  • Sou professora de inglês.
  • Sei falar inglês.
  • Tenho viajado com bastante regularidade a países onde a língua inglesa é falada, em diferentes graus de fluência, como, por exemplo, a Grã-Bretanha.
  • Consigo falar ou entender, em graus variáveis de proficiência, mais três ou quatro línguas.

Vamos ao que interessa.

Naquele ano tinhamos arrancado para Londres, onde tinhamos um carro alugado à espera, e daí partido à redescoberta de lugares onde tínhamos estado anos antes.
A viagem foi agradável, cheia de lugares novos e inesperados como Bamburgh ou o castelo de Alnwick, onde tinham sido feitas filmagens de algumas cenas do Harry Potter. Descobrimos Leeds, uma cidade surpreendentemente bonita a que prometemos regressar, dirigimo-nos para Edinburgo e, uns dias depois,  avançavamos para as terras altas da Escócia em direção a Inverness.
Resta dizer que a Escócia é um sítio maravilhoso e mágico, cheio de velhas  histórias e tradições, de paisagens magníficas, de gente alegre e acolhedora. Mas cheio de surpresas.

Depois de sairmos de Edinburgo, e à medida que nos embrenhávamos nas Terras Altas rumo a Inverness, o tempo mudou e foi piorando até ao ponto de nos convencer que, se calhar, viajar no inverno era mais calmo. Estava escuro, chovia torrencialmente, via-se mal, e a Paula, nossa companheira de aventuras, devia estar a interrogar-se em que aventura é que se tinha metido.
Chegados ao destino, deparámo-nos com um trânsito caótico (para nós...), e o que nos valeu foi o conhecimento anterior da cidade e o sentido de orientação do Mário para nos levar ao posto de Turismo, porque estava a anoitecer e precisavamos de encontrar sítio para dormir.

Foi aqui que tudo se precipitou. O Turismo estava a fechar mas disseram-nos que sítio para dormir seria muito difícil porque estava tudo cheio. Viemos mais tarde a saber que estava a decorrer uma importante feira Agro-Pecuária, motivo por que Inverness tinha a capacidade esgotada.

Entretanto continuava a chover. E estava muito desagradável.
Hotéis e coisas parecidas, nem pensar. Decidimos dar umas voltas por zonas menos centrais em busca da velha instituição do Bed and Breakfast. Aliás, sempre tinhamos ficado em B&B e tínhamos boas recordações desses dias. Fomos andando devagar, de rua em rua, bairro em bairro, mas nada. Todas as casas ostentavam tabuletas indicando que estavam cheias. À medida que saíamos da cidade íamos conjeturando onde e de forma íamos, quatro adultos,  dormir dentro do carro.
Foi nessa altura que avistámos a nossa possível salvação: havia um hotel da cadeia Travelodge ao fundo da rua. Dirigimo-nos para lá rapidamente, eu saltei do carro mal ele parou, entrei confiante pela receção dentro onde se encontrava uma senhora baixinha e de ar pouco acolhedor, e perguntei  no meu melhor inglês:
- Good evening! Is there accommodation available for four persons?
- Grwekk nnek fur mannkinnp goop da!!! Treek shwalagh reshuwartgh!!!!
- ...Excuse me???...
- Truskart mannft goop da!!! Schneek priotik shlavet joshtwah nnhetwash!!!

A senhora pareceu-me muito zangada e pensei que em S. Miguel, Rabo de Peixe era um falar facilmente compreensível à vista disto...
Não consegui articular palavra. Nem tive tempo. Entrara outra senhora parecida com a primeira e tinham entabulado um diálogo que me pareceu ter qualquer coisa a ver comigo pelo que repeti:
- Accommodation? Four persons?
Olharam-me as duas com o ar espantado de quem se pergunta porque é que eu ainda ali estava. E continuaram com ar zangado a discutir enquanto me olhavam.

Decidi sair porta fora.
Abri a porta do carro e disse com ar malencarado “ ...’bora!”.
O Mário e a Paula perguntaram com ar delicado,
- Então... não havia nada?...
Respondi desabridamente,
- Sei lá!!! Não faço a mínima das ideias!!...

Ninguém se atreveu a fazer comentários. O Mário arrancou e só uns quilómetros mais à frente, já no quente e alegre acolhimento de uma pequena mas famosa estalagem, The North Inn,  diante de tigelas da melhor sopa do mundo, a ouvir a chuva lá fora, é que nos rimos da “aventura do Travelodge”. 
Mas embora possa alegar que se calhar me tinham respondido em gaélico, o meu prestígio como falante de inglês nunca mais foi o mesmo.

E continuo sem saber se havia ou não quartos disponíveis...

Inverness