domingo, 24 de maio de 2015

Macacos

A Floresta dos Macacos, França - 1994
A França foi, até ao presente, o país por onde passei e encontrei mais lugares para visitar.
Numa qualquer vila, no meio do nada, é facil existirem vários pontos de interesse, sejam eles históricos, naturais ou criados para o efeito.

Na nossa passagem pela região do Lot ficamos acampados em Hospitalet, povoação sobranceira a Rocamadour.

Próximo do parque de campismo e de fácil deslocação a pé, para além do centro da povoação (onde há restaurantes, um multibanco e lojas de souvenirs) e de Rocamadour que fica quase por baixo, no vale, há ainda uma gruta pré-histórica, uma exposição/museu particular de miniaturas de comboios e "A Floresta dos Macacos".

Como ficámos lá alguns dias e a Joana era pequena, decidimos num desses dias visitar a Floresta dos Macacos.

A Floresta dos Macacos é um parque natural para onde foram levadas algumas famílias de macacos do Norte de África, de uma espécie em risco (Magot ou Macaco de Gibraltar), para estudo e preservação.
Neste parque os visitantes atravessam a reserva, por um percurso circular pré estabelecido, permitindo-lhes observar as famílias de macacos ali existentes e interagir com eles.

Na manhã da nossa visita decidi eu (erradamente) vestir uma camisa lavada, na esperança de que esta durasse pelo menos dois dias.
Assim, com um ar mais fresco e lavado, lá fomos nós até ao parque para ver os macacos (e eles verem-nos a nós, claro).
Na entrada, para facilitar o contacto com os animais, é-nos fornecida uma mão cheia de pipocas, pitéu que não é para comermos pelo caminho mas sim para ir distribuindo aos macacos, ao longo do percurso, permitindo-nos aproximar deles.

Como para a Joana andar com as pipocas na mão causava algumas dificuldades, pediu-me que levasse as minhas e as dela. Para isso, juntei as duas mãos em concha, permitindo-lhe ir tirando as pipocas para as dar aos bichos.

Estávamos nós no meio dos macacos, com a Joana a distribuir pipocas pelos presentes, quando um deles se apercebeu da fonte das pipocas e começou a tentar tirar-mas da mão.

Achando-me mais esperto do que o macaquinho, levantei os braços para que estas ficassem fora do seu alcance.
Nessa altura ouvi um dos seguranças do parque, surgido sabe-se lá de onde (juro que não tinha dado por ele), a ordenar-me que largasse as pipocas e as deitasse para o chão.

Antes de eu poder fazer alguma coisa e mais rápido do que a materialização do guarda, o macaco trepou por mim acima, direito às minhas mãos, decidido a comer as pipocas que eu tentava esconder.

Sendo eu bem mandado e já com o macaquinho ao colo, obedeci à ordem que ouvira, largando todas as pipocas que se escondiam nas minhas mãos, tirando-me de cima o peso extra do macaco.

De acordo com o guarda os animais não são perigosos. No entanto não convém criar conflitos com eles porque, estando em estado selvagem, não se sabe qual a reacção que têm, podendo esta ser mais violenta.

Praticamente sem pipocas (sobravam apenas as da Manela), lá fomos percorrendo o resto do caminho, animados com a nova aventura e imaginando o porquê de, de vez em quando, encontrarmos grupos de macacos a deliciarem-se com um monte de pipocas espalhadas pelo chão.

Finda a visita, já perto da hora do almoço, regressámos ao parque de campismo com mais uma história para contar. Infelizmente a nova história ficou também gravada na minha camisa lavada, na forma de pegadas enlameadas, obrigando-me a nova muda de roupa.


Informação adicional em:

La Foret des Singes

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Acampar

Crystal Palace, Londres - 1985

1985
Quando chegámos a Londres, em agosto de 85, íamos em busca da cidade-mito para onde confluíam milhares de jovens de todo o mundo, em busca da essência da liberdade.
Para trás ficavam dois dias de camioneta (os autocarros da Eurolines corriam a Europa) até Paris, uns dias de descanso e visita à cidade, mais umas horas de camioneta e a travessia da Mancha em ferry boat.

Não conheço ninguém que tenha chegado a Inglaterra de barco e avistado as falésias brancas de Dover, e feito uma entrada triunfal em Londres às 5 da manhã, com o dia a nascer, pela ponte de Westminster.
A primeira visão que eu e o Mário tivemos da cidade, foi o Palácio de Westminster e o Big Ben. Só isso chegou para me apaixonar imediatamente pela cidade.
Quando saímos na estação de Victoria ainda não estavamos tão endinheirados que tivessemos reserva num hotel. Não. As mochilas que transportavamos levavam tudo o que era necessário para acampar confortavelmente.
Só era preciso encontrar um parque. Os postos de Turismo, de aspeto eficiente, estavam ali para isso.
Uma senhora deu-nos um mapa da cidade e as indicações de metro necessárias para chegar ao parque de campismo de Acton. Era um bocadinho longe mas o trajeto era rápido.

Trazíamos “na bagagem” as máquinas fotográficas, Travellers Cheques, e bilhetes de comboio que nos iriam permitir correr a Grã-Bretanha durante oito dias. Só faltava montar a tenda.
Quando saímos na estação de Acton deparámo-nos com um outro lado de Londres. Um bairro de subúrbio, de aspeto pobre e mal cuidado, semeado de gente de aspeto dúbio. Mas o cenário não estava completo – o parque de campismo que se nos deparou só podia ser produto de uma alucinação. Num recinto enorme, de limpeza mais que duvidosa, erguiam-se tendas verdes de exército, onde dormiam aqueles que não tinham tenda, uma tenda coletiva que mais parecia uma tenda de circo, não se viam instalações sanitárias e tudo parecia saído de um campo de refugiados.
Dirigimo-nos à recepção na esperança de que nos dissessem que aquilo não era o parque que procurávamos. Mas não. Gente desagradável e notoriamente cansada e sem paciência, atendia quem chegava. Disseram-nos desabridamente que montar a tenda era um risco, pois podia ser roubada, e que convinha que deixassemos as mochilas e os nossos pertences na recepção. Deram-nos, a cada um, um saco enorme de lona para meter as mochilas e tudo o mais lá dentro, e um  cadeado para o fechar.
Só me apetecia chorar e voltar para casa. Ainda tentámos fazer o que nos disseram mas a voz da razão falou mais alto. Que diabo... devia haver gente que acampava. E com roulotes. Gente que não podia permitir que lhe roubassem o meio de transporte. Não, ali não ficávamos. Nem que andássemos oito dias de comboio e só guardássemos de Londres a “entrada triunfal”. Que se “lixassem”... Devolvemos sacos e cadeados numa profunda irritação e num surdo desespero de quem está perdido em terra estranha.

Metemo-nos no metro e voltámos ao turismo a Victoria Station.
Reclamámos contra o que tinhamos visto e ameaçámos fazer queixa a alguém. Um funcionário mais atento deu-nos outra indicação, desta vez a sul de Londres. Apanhámos um autocarro direto que levou quase uma hora a chegar lá e nos permitiu ver outros bairros, de pequenas casinhas iguais e bem cuidadas.

Quando descemos na última paragem e virámos a esquina, as bandeiras hasteadas à porta de um recinto cercado, cheio de árvores e flores, devolveram-nos o sorriso rapidamente. A simpatia do casal escocês que nos recebeu acompanhou-nos todo o tempo que lá ficámos.

Quando acabámos de montar a tenda sentámo-nos a olhar o vale que abrigara o edifício da mais célebre exposição do século XIX: estavamos em Crystal Palace.
E sentimo-nos em casa.

domingo, 10 de maio de 2015

O Rali de Portugal

Peninha, Serra de Sintra, Portugal - 1985
O meu primeiro contacto com o rali deu-se na minha juventude.
Lembro-me dos carros passarem por Torres a seguir ao jantar, num troço de ligação a Lisboa.
Podiam não estar em competição mas, para nós, era a mesma emoção. O ruído dos motores, os potentes projectores na frente dos carros e a multidão que se juntava na avenida e ao longo do trajecto para Lisboa, a vibrar com cada carro que passava.
Com um pouco de sorte um dos carros parava para se abastecer, numa das bombas de gasolina, permitindo uma visão mais demorada e próxima, nomeadamente do interior.
Havia ainda alguém com o jornal 'O Motor' na mão que, pelo número do carro, ia identificando quem passava, fazendo o computo dos que já tínhamos visto passar e dos que ainda faltava ver.

A este propósito lembro-me sempre de um episódio caricato.
Nesse ano a revista 'Tintin' publicava a aventura de Jean Graton “Rali em Portugal” (“Cinq filles dans la course”) que, por sinal, coincidiu com as datas do rali, na altura denominado de TAP.
Como de costume, após o jantar, fomos ver passar os carros e "controlar" as passagens. Como a saída de casa nem sempre era fácil (tinha que ser autorizada pelos pais) havia sempre um ou outro que se atrasava, pedindo, ao chegar, um ponto de situação das passagens para saber o que já tinha perdido.
Estávamos nós a aguardar a passagem de mais um carro quando chega um dos nossos amigos retardatários, esbaforido e quase sem folgo a perguntar avidamente "o Michel Vaillant já passou?". Perante as gargalhadas gerais, tomou consciência da pior foma de que o seu herói afinal não existia.

Porque o horário de passagem mudou ou porque o trajecto de ligação foi alterado, o que é um facto é que o meu interesse pelo rali passou para segundo plano e desvaneceu-se.

Retomei o contacto com o rali em 1978. A sobra de um lugar num carro de entusiastas fez-me participar na "romaria" a Montejunto onde pude ver um dos carros de rali mais bonitos: o Lancia Stratos HF.
Mas as estrelas nesse ano eram outras.
O Fiat 131 Abart de Markku Alén e o Ford Escort RS de Hannu Mikkola fizeram toda a emoção. Separados na classificação por segundos levaram até à noite de Sintra milhares de pessoas, entre elas eu.

A etapa consistia em três passagens por três troços cronometrados, pelo que, uma vez arranjado um lugar para ver, tínhamos espectáculo para toda a noite.
Nessa noite ficamos na Lagoa Azul (primeiro troço do 'circuito') com os olhos na estrada e o ouvido num transistor. E a emoção manteve-se até ao último troço da terceira passagem, justificando a noitada.

Na última passagem, junto ao ponto de partida assisti à razão do fim das noites de Sintra. Quando os carros estavam a segundos de partir, ligavam os projectores na sua máxima potência e apenas se via à sua frente uma enorme massa de pessoas, no lugar onde deveria estar a estrada. À mediada que o carro arrancava e acelerava as pessoas afastavam-se, abrindo-se, à velocidade do carro, uma clareira que permitia ao piloto vislumbrar alguns metros do alcatrão. Isto, claro, salpicado com dezenas de flashes.

Não voltei a assistir ao rali mas continuei a acompanhar as provas.

Nos anos 80, com a ascensão dos potentes carros do grupo B, a paixão pelos ralis de um colega de trabalho e o prazer da fotografia, fez-me voltar a Sintra.
Agora de dia, máquina fotográfica ao peito, aconselhou-me a prudência que fugisse da multidão e dos lugares mais "espectaculares", prudência essa que era partilhada pela Manela e pelo Paulo, companheiros na aventura.
Motivava-nos estar perto dos carros, sentir o ambiente e experimentar fotografar em condições extremas.

Foi assim durante alguns anos. No dia do rali, madrugávamos para ir ver os carros.
Até que, em 86, na aldeia do Pé da Serra, recebemos a noticia do acidente mortal que ocorrera no troço da Lagoa Azul e do consequente cancelamento da etapa.
Este trágico acidente marcou o fim da etapa de Sintra e, com ela, a nossa ida ao rali

Hoje, quando olho para as fotografias da altura, vêm-me à memória as caminhadas quase nocturnas pelo meio da serra, o ruído dos motores que cortavam aquele ambiente paradisíaco e calmo, e, claro, a espera pela revelação dos rolos fotográficos, "puxados" a sensibilidades limite. Os resultados fotográficos do dia tinham o gosto amargo das fotografias falhadas mas também doce sabor de uma foto bem conseguida.


Informação adicional em:

domingo, 3 de maio de 2015

Passeios de domingo

Londres, Inglaterra - 2010
Foi num domingo de Agosto. 
O metro tinha-nos deixado junto à praça de Trafalgar. O dia estava solarengo, convidando a passear, ou seja, enfiarmo-nos num qualquer museu ou edifício estava fora de questão.

Antes de sairmos do hotel tínhamos tomado, calmamente, um substancial pequeno almoço, pelo que a ideia de caminhar pelas ruas, sem um destino específico, fugindo dos turistas e da confusão, foi uma opção unanimemente aceite.

Depois de andarmos algum tempo ao acaso, demos por nós na City, numa qualquer praça secundária, no meio de uma mistura de edifícios modernos e antigos.

O facto de não ser um dia de trabalho dava àquelas ruas, e particularmente aquele lugar, uma calma pouco habitual, fazendo-me lembrar as manhãs de domingo da minha infância, quando não se via vivalma na rua por estar tudo ainda a preguiçar em casa. 
Não fosse o ruído de fundo de um longínquo trânsito automóvel e eu diria que só faltava mesmo ouvir o cantar de um canário numa gaiola, pendurada numa qualquer janela, para o paralelismo ser perfeito.

Enquanto estava neste meu pensamento nostálgico, o meu olhar foi percorrendo os edifícios que nos circundavam, quiçá na esperança de ver uma janela onde colocar o dito canário.
Foi nesse deambular pelas fachadas que me apercebi de algo inusitado.
Num dos edifícios mais afastados, aí pelo que seria um sétimo ou oitavo andar, estavam três figuras penduradas em cabos que vinham do telhado.

Primeiro quase imóveis, davam a sensação de que estariam ali reunidas para apanhar um pouco de ar e sol e conviver umas com as outras.
Passado um pouco desceram lentamente mais uns "andares", fazendo nova pausa.

A visão era estranha embora curiosa e serviu para umas breves trocas de comentários entre nós.
De facto, porque não aproveitar os enormes edifícios de escritórios, quando estes estão "adormecidos", para actividades de lazer? E se não temos montanhas por perto, porque não praticar "alpinismo" e/ou escalada numa cidade?

Passado o impacto do inesperado fiquei com alguma inveja daquele grupo. Para além do desporto em si, a perspectiva da cidade, durante todo o percurso, deveria ser fantástica, partindo do principio de que não iria ter vertigens e ficar colado ao chão, no telhado.

Depois de comentarmos entre nós a curiosidade do facto seguimos o nosso percurso domingueiro, na descoberta de outras facetas de uma Londres desconhecida.


PS: Espero que a minha interpretação dos factos esteja correcta e não tenha sido testemunha de nenhum assalto arrojado.

domingo, 26 de abril de 2015

Uma praia com dois mares

Grenen, Dinamarca - 2009
A praia de Grenen, junto a Skagen, foi um dos lugares mais surpreendentes que visitei.

Não foi pelas ruínas de um bunker da Segunda Guerra, destruído e abandonado, nem pelas dezenas ou centenas, de alforrecas deixadas no areal pela maré baixa. Também não foram as dunas cobertas de urze, ou a carruagem de rodas altas, puxada por um tractor e que serve de transporte publico que me surpreendeu nessa tarde.
A razão do meu fascínio foi o mar. Mais precisamente, os mares.

Grenen é a ponta mais a norte da Dinamarca "continental" e, como tal, fim de linha para quem sobe a província da Jutlândia. Foi assim que lá chegámos.

Abandonado o carro no estacionamento, fomos a pé pelo areal, engrossando o cordão de visitantes que, naquela agradável tarde de sábado, passeavam ao longo da praia.
O longo caminho levou-nos inevitavelmente até ao ponto em que o areal faz uma espécie de "bico", ou um Y invertido, e onde uma língua de areia entra pelo mar, submergindo lentamente.

De acordo com o nosso guia de viagem, é ali que se reúnem dois mares, o Mar do Norte e o Estreito da Dinamarca (Mar Báltico), gerando um estranho fenómeno. Estando de frente para essa língua de areia, vemos as pequenas ondas chegarem de direcções opostas e chocarem ao longo dessa mesma linha.
Aos poucos os nossos olhos vão seguindo o "chocar" das ondas até atingirem a linha do horizonte, uma linha muito marcada, recortada apenas pelos vários navios porta-contentores que atravessam aqueles mares calmos (pelo menos naquela tarde).

Apesar da grande quantidade de pessoas que por ali passeavam, muitas aproveitando para molhar os pés nas águas dos dois mares, a paisagem e o lugar transmitiam alguma calma e a ideia de um lugar ainda selvagem, embora bucólico.

Chegado o momento do regresso, para quebrar essa sensação de calma e sobretudo para não ter que percorrer a pé todo o caminho de retorno, comprámos bilhetes e embarcamos na dita carruagem, rebocada por um potente e barulhento tractor, que nos trouxe, através das dunas, de volta ao estacionamento e ao nosso carro.


Informação adicional em:
As últimas 24 horas em Grenen
Grenen na Wikipédia
Skagen na Wikipédia

domingo, 12 de abril de 2015

Matrix

Sacré Coeur, Paris - 2005
Conhecer uma cidade é sempre algo difícil.
Visitam-se os lugares conhecidos e os museus de referência, passeamos pelas ruas principais e, normalmente, não se sai dos roteiros mais ou menos turísticos que nos são propostos. Enfim, não se passa para além do screen saver do lugar visitado.

O problema é que esse screen saver tem tantas mais "camadas" quanto maior e/ou mais turístico é um lugar. Quando pensamos que ultrapassámos já a barreira do turístico e, finalmente, estamos a conhecer a cidade, de facto apenas atravessámos uma camada, passando para a seguinte..
Diz-me a experiência que só nos cruzamos com a realidade (ou uma das realidades), quando esta nos é mostrada por alguém que a conhece ou então por mero acaso.

Posto isto, passemos aos factos.

Quando comecei a trabalhar não tinha grandes compromissos com que me preocupar. Como tal pude ir poupando algum dinheiro para gastar nas férias, utilizando-o até aos limites. Foi assim que, em 1985, embarcamos numa camioneta repleta de emigrantes de poucas posses (porque os outros iam, no mínimo, de comboio), e seguimos rumo a Paris.

Na altura, a ideia que eu fazia de Paris vinha apenas dos livros que li e dos filmes que a mostravam. Uma cidade melancólica, boémia, despreocupada e domingueira. Uma cidade desafogada, grandiosa, orgulhosa e no entanto romântica, que transbordava das margens do Sena.

Ao acamparmos no parque de campismo do Bosque de Boulogne a realidade que se nos apresentou não foi exactamente a que imaginei.
Uma segurança quase policial à porta do parque e a "proibição" de andar a pé pelas ruas circundantes mal o sol se começasse a esconder, tirou à cidade alguma dessa aura romântica.
Valeu-nos a hospitalidade de pessoas conhecidas, emigrantes em Paris, não por razões económicas mas por questões da vida pessoal, que nos proporcionaram (para além de um fabuloso jantar caseiro) uma visão mais "burguesa" e mais "clássica" da cidade.

Curiosamente foram também esses nossos amigos que nos deram um vislumbre de uma outra Paris que não sonhávamos existir.
Vivendo numa pacata rua de um bairro típico parisienses, levaram-nos a passear de carro, entre outros lugares, pelas ruas traseiras desse mesmo bairro.
Nesse "outro" bairro viviam praticamente só emigrantes africanos e, ao virarmos uma esquina, fomos transportados para um qualquer "bairro" em África (ou pelo menos como o nosso imaginário julga poder ser).
Mulheres a cozinhar numa fogueira na rua, ou um homem a encabeçar um pequeno cortejo de mulheres a transportar trouxas, são algumas das imagens mais marcantes que me ficaram desse bairro de ruas estreitas e populadas.

Também graças a esses nossos amigos a visita ao Sacré Coeur foi diferente da que é normal entre turistas. Não sendo a sua casa muito distante, fomos a pé até lá. No entanto a subida a Montmartre não foi feita pelo lado turístico. Foi feita através de ruas menos cuidadas e de mercados de bairro, situadas em quarteirões habitados por emigrantes, onde nós destoavamos por completo.
O meu francês pode não ser muito famoso mas, por aquelas ruas, não me parecia que fosse a língua mais utilizada. Ou se o era, era-o numa variante muito própria, que me fazia não perceber o que os comerciantes apregoavam.

Uma vez chegados lá a cima, reentramos no bilhete postal, contemplando uma fabulosa vista sobre Paris.
Meia hora depois, terminada a visita, regressámos pelo mesmo trajecto.

Mais tarde, quando em conversas com amigos, também eles felizes visitantes da cidade luz, referíamos Montmartre, apenas estávamos de acordo com a vista magnifica do local. Quanto ao resto, à envolvência, tínhamos conhecido duas cidades diferentes.

Regressei ao Sacré Coeur vinte anos depois. Desta vez subi pelo lado dos turistas e dos pintores, confirmando que o passeio é agradável (apesar de íngreme), faltando apenas ouvir o som de um acordeão para que a imagem romântica do lugar fique completa.
Uma vez lá em cima, contemplando a cidade, lembrei-me da nossa visita anterior e tentei vislumbrar o bairro por onde subíramos. Fosse pela quantidade de turistas, fosse porque a realidade se modificara entretanto, o facto é que não vi nada que me lembrasse o nosso primeiro trajecto.

Ou então a versão do screen saver foi melhorada.

domingo, 29 de março de 2015

Liechtenstein

Castelo de Vaduz, Liechtenstein - 2008
Numa Europa cuja história está cheia de invasões e impérios, parece estranha a existência de pequenos (diria mesmo micro) países, muitos deles a fazer lembrar as cidades estado medievais. E se em alguns casos até se consegue perceber o porquê da sua subsistência (a geografia no caso de Andorra, os impostos no caso do Mónaco ou a religião no caso do Vaticano), outros há que não consigo perceber o porquê da sua existência.
No entanto eles lá estão, orgulhosamente "independentes".

Vem toda esta prédica a propósito do Liechtenstein.

O Liechtenstein é um país de que nada conheço, de que quase nunca nos lembramos que existe e que, muitas das vezes, nem sequer sabemos onde fica. Como tal, conhecer a sua história ou geografia é, claramente. pedir de mais. 
A sua pequenez é tal que fácilmente não damos por ele. E quando damos é numa daquelas situações em que ele se cruza no nosso caminho, quando estamos a olhar para um mapa de estradas.

Pelo menos foi assim que eu me cruzei com o Liechtenstein.
Na viagem de Innsbruck para Annecy, ao olhar para o mapa, verificámos que íamos passar ao lado de Vaduz e que até dava para lá ir almoçar. Algo do género "vou de Lisboa ao Porto e onde é que vou almoçar? Olha a Mealhada calha mesmo em caminho".
Talvez com a grande diferença que, na Mealhada, sabemos que muito provavelmente vamos comer leitão, enquanto que no Liechtenstein...

E assim foi. No meio da viagem, quando apareceu a placa com a indicação de Vaduz, abandonamos a estrada principal e desviamos rumo ao Liechtenstein.

À chegada, a cidade pareceu-me pequena, pacata e agradável. Mas não deu para a conhecer melhor. Como referi, fomos mesmo lá só para almoçar.
Era verão e o dia estava ensolarado, factores que nos permitiram desfrutar a refeição numa agradável esplanada.
Do que me ficou na memória almoçamos bem. Mas se na ementa existia algum prato típico não dei por ele. Até porque não o saberia reconhecer.

Findo o almoço, passeamos até ao carro e regressámos à estrada.
Sem grandes pressas atravessámos uma zona mais moderna e, mal saímos da cidade, descobrimos que estávamos a entrar na Suíça.

É um facto que, como já subejamente referi, só lá íamos mesmo almoçar. No entanto fiquei com a sensação de que alguma coisa me tinha escapado .
Talvez um dia regresse com mais tempo e, de facto, possa conhecer algo mais da cidade e do país para além de uma agradável esplanada.