domingo, 26 de julho de 2015

221 B

Baker Street, Londres - 2014
Baker Street. Em 1985, no primeiro ano que fomos a Londres, esta teria de ser uma das paragens obrigatórias.

A avidez de vermos o mais possível, no pouco tempo que tínhamos, obrigou-nos a fazer escolhas. Alguns museus ficaram de fora e noutros apenas visitamos uma ou outra sala. O mesmo aconteceu com ruas ou bairros. Se uns ficaram de fora do nosso roteiro, outros houve que apenas vimos de dentro de um autocarro.

Mas Baker Street era um destino obrigatório.
Sir Arthur Conan Doyle tornou-a uma das ruas mais populares de Londres ao situar ali a morada daquele que é, talvez, o mais famoso detective: Sherlock Holmes.

O passe de Londres levou-nos de metro até à estação de Baker Street, fazendo-nos sair directamente na rua do mesmo nome.
A rua, com passeios folgados e prédios de três andares, tinha bastante transito. De cabeça no ar, fomos seguindo a sequência dos números das portas até finalmente chegarmos ao tão desejado 221B.

A desilusão não poderia ser maior. Um prédio de habitação semelhante aos demais e nenhuma referência à celebridade da porta.
A imagem que me vem hoje à ideia, é de eu estar no passeio de uma rua com muito trânsito automóvel, a olhar para uma porta e eventualmente a pensar: "Pronto. É isto."

Felizmente nesse mesmo ano, numa das nossas voltas ao acaso, deparamo-nos, junto a Charing Cross, com o Sherlock Holmes... o Pub. Ali sim, havia uma sala, um pequeno museu, evocativo da personagem.

A recente realização de alguns (bons) filmes (nomeadamente o realizado por Guy Ritchie em 2009) e séries de televisão (entre boas - Sherlock da BBC - e menos boas - Elementary da CBS), reavivou a popularidade e a memória do detective.

Assim, quando no ano passado saímos do metro na estação de Baker Street, para mostrar a célebre morada à nossa filha, nada me preparava para o que nos esperava.
Ao contrário da primeira visita, não foi preciso procurara o número 221B.
Do outro lado da rua, ao longo do passeio formava-se uma longa fila de pessoas, sobretudo jovens, que aguardavam a entrada e visita, paga, da conhecida morada.
Na porta ao lado, no 221, entra-se agora para a loja de souvenirs, onde é possível comprar toda a memorabilia do detective.

Embora esta fosse uma visão próxima do que esperava encontrar na minha primeira visita, reconheço hoje que não sei qual das duas foi a mais desiludente.

Felizmente o Sherlock Holmes, o Pub, continuava igual a si mesmo, permitindo acabar o dia curando as 'mágoas' frente a um pint de boa cerveja.


Informação adicional em:
Sherlock Holmes
Sherlock Holmes na Wikipedia
Sherlock Holmes, o pub

domingo, 12 de julho de 2015

Estradas de água

Eclusa em Carcassone, França - 1996
Na escola, aprendi que os grandes rios eram importantes meios de transporte.
Como exemplo falavam-nos do Danúbio, do Reno ou do Ródano, entre outros. Estes rios eram percorridos por grandes barcos de mercadorias e de cruzeiro, sendo responsáveis por parte da economia e da riqueza dos países que atravessavam.
Em Portugal tínhamos o Tejo, o Douro e o Guadiana, já para não falar do Mondego, relegado para uma segunda categoria. Mas, tirando o transporte do vinho do Porto em barcos típicos, apenas à foz destes rios era dada alguma importância. Isto porque nós tínhamos o mar.

Olhando para Espanha o panorama que eu conhecia era semelhante ao nosso. Também têm o Tejo, o Douro e o Guadiana (chamados de uma forma um pouco diferente, claro), e mais um ou outro rio "grande", mas, importantes para a economia, eram mesmo os portos de mar.

Paralelamente, a minha experiência dizia-me que, no Verão, grande parte dos pequenos rios ou ribeiros secava, ou ficava perto do seco. E em Espanha imperava quase o deserto.

Como dei por adquiridos todos estes factos, não pensei muito mais no assunto.

Por tudo isto, quando pela primeira vez cheguei de carro a França, achei curioso e agradável encontrar frequentemente pequenos rios.
No entanto, ao contrario dos nossos, estes transportavam grandes quantidades de água. Por isso, não me foi estranho ver muitas vezes, ou atracados na margem ou andando de forma dolente, barcos de recreio e pequenas barcaças de transporte de mercadorias.

Com margens bem cuidadas, boa parte deles tinham agradáveis caminhos que acompanhavam o leito do rio. Foi ao ver esses caminhos que se me fez luz.
Eu deveria saber que aquilo não eram própriamente rios. Simenon já mos tinha descrito, de forma bem melancólica, em muitas das aventuras de Maigret. Eram canais.

Esta "descoberta" foi curiosa. Apesar de saber da sua existência, nunca pensei neles como algo com que me pudesse cruzar.
E o "pior" não foi isso. Foi o facto de que a sua presença se tornar normal na paisagem por onde quer que me deslocasse.
À medida que fui conhecendo a França, apercebi-me que existe praticamente uma segunda rede viária, mas de água. Grande parte de França está coberta por uma rede de canais. E essa rede de canais não se fica apenas por França. Entre canais e rios pode-se chegar à Bélgica, à Holanda ou à Alemanha.

Fascinante também foi ver toda a arquitectura e engenharia associada aos canais. Para permitir a ligação entre os diversos cursos de água existem dezenas, senão centenas de eclusas, assim como incontáveis pontes e viadutos.
Para espanto meu existe, pelo menos, um aqueduto de vários arcos que permite a passagem de um dos canais por cima de um vale, sobre uma estrada nacional.

Como referi, é fácil ver com frequência nos canais e pequenos rios, barcaças e barcos de recreio. Já junto ás eclusas a sua quantidade é bem maior.
Apercebi-me então da dimensão e importância que estas "estradas" têm no interior da Europa.

No entanto, à minha dimensão, o que mais me seduz nos canais é poder percorrer boa parte de França, calmamente, atravessando aldeias, bosques e campos de cultivo. Enfim, fazer umas férias bucólicas e rurais, com uma perspectiva completamente diferente de uma região ou país.

E, se apenas por ver os canais esta sedução já existia, ela aumentou substancialmente no dia em que, na 'Autoroute des Deux Mers', após algumas horas de viagem nuns quase constantes 130 Km/h, decidimos parar numa área de serviço, junto a Toulouse, para almoçar.
Descobrimos então que esta área de serviço era utilizada não só pelos utentes da auto estrada como também pelos do canal do Midi. E, acreditem, no final da refeição, achei que seria muito mais agradável embarcar num dos pequenos barcos que ali estavam e seguir viagem calmamente, à sombra das enormes árvores que ladeiam o canal, do que voltar para o carro, mesmo com ar condicionado, para retomar a autoestrada.

No horizonte ficou a esperança de um dia alugar um barco e percorrer languidamente algumas dessas "estradas de água".


Informação adicional em:
Vias navegáveis de França
Projecto Babel - Dicionario dos rios e canais
Carta das eclusas
Lista dos canais - Wikipedia

Aluguer de embarcações

domingo, 28 de junho de 2015

Com mil milhões de macacos

Château de Cheverny, França - 2004 
Estas são, talvez, as palavras mais conhecidos do capitão Haddock, companheiro inseparável do jornalista Tintin.
Curiosamente é também essa a expressão que nos vem à cabeça quando, frente à fachada do castelo de Cheverny, reconhecemos o célebre castelo de Moulinsart.

Enfim, não é exactamente igual.
Apesar de lhe ter servido de inspiração, Hergé foi um pouco mais modesto ao desenhar o castelo de Moulinsart e retirou os dois 'torreões' laterais que existem em Cheverny.
Mas não é por causa dessa diferença que deixaríamos de achar natural se, pela porta principal, víssemos sair o criado Nestor ou uma outra qualquer personagem das conhecidas aventuras.

É aliás esta ligação que está na origem da exposição montada numa das casas anexas ao castelo. 
Nessa exposição, dedicada às aventuras de Tintin, é possível ver ou entrar em muitas das salas por onde se desenrolaram algumas das suas aventuras.
Com o mesmo espectro de cores dos álbuns de banda desenhada, podemos ver, entre outras, a sala do piano da Castafiore, o laboratório de Tournesol com o célebre submarino em forma de tubarão, ou as caves onde Tintin foi aprisionado pelos irmãos Pardal.

Mas Cheverny não se resume à exposição das aventuras de Tintin. Ao entrarmos na mansão, o interior que admiramos é digno de um 'château', a condizer com o seu aspecto exterior. As salas visitáveis são amplas, agradáveis e bem decoradas.

Seja porque a decoração das salas tenha sido bem concebida, seja porque os actuais proprietários também lá vivem, ou porque o interior serviu, também ele, de inspiração a Hergé (ou talvez por todas estas razões), estar e atravessar as diversas divisões transmite-nos uma sensação bastante acolhedora.
Ao contrario de outros palácios ou castelos que visitei, onde tudo é muito "rígido" dando-nos a sensação de atravessar uma exposição, aqui o ambiente parece mais informal, transmitindo uma atmosfera mais familiar ou "caseira".
Ao passear por aquelas salas ficou-me a sensação de estar a visitar a casa de um amigo ou conhecido, apesar de mais abonado do que o habitual.

Quando em alguma ocasião, falo da visita ao vale do Loire e aos seus castelos, é essa memória acolhedora que associo a Cheverny.
De tal forma que poderia dizer que foi o dia em que, verdadeiramente, visitei a casa de Tintin.


Informação adicional em:
Chateau de Cheverny
Cheverny na Wikipedia

domingo, 14 de junho de 2015

A cabine telefónica

Londres, Inglaterra - 2006
Para quem parte de viajem, uma questão que se lhe coloca é a de como comunicar com quem não nos acompanhou na viagem mas que, de alguma forma, espera receber noticias nossas.

Quando comecei nestas andanças a forma mais rápida de comunicar com alguém era o telegrama.
Embora não falássemos directamente com o destinatário, tínhamos a certeza de que a mensagem era entregue, e no mais curto espaço de tempo.
Mas os telegramas tinham como problema o de serem caros. Como tal, eram normalmente utilizados em último recurso e para notícias urgentes. Normalmente e infelizmente, más.
Por essa razão nunca foi considerado por nós como meio para dizer que estava tudo bem e que nos estávamos a divertir muito.

No extremo oposto ficava a carta ou melhor ainda, o postal.
Barato, poucas palavras e, como bónus, uma imagem para complementar as palavras. Adicionalmente serviam como um bom pretexto para ficar numa explanada a gozar o descanso enquanto os escrevíamos.
No entanto peca por ser lento. Por vezes mesmo muito lento. Quantas vezes não cheguei eu a casa, vindo de férias, antes do bendito postal chegar ao seu destino.

No meio termo estava o telefone. Não era muito caro e tinha a vantagem de ser imediato e interactivo.
Foi por isso eleito por nós como o meio priveligiado para comunicar com quem nos estava mais próximo. Mas nem sempre o seu uso era fácil..

Nos primórdios das nossas viagens todos os telefones eram fixos. E os telefones públicos dividiam-se em três categorias (por ordem de preferência):
1) As cabines telefónicas (no início quase uma curiosidade, nomeadamente fora dos grandes centros);
2) As estações dos Correios (quando as havia e, de uma forma geral, apenas disponíveis durante as horas de expediente) e
3) Os estabelecimentos (normalmente cafés) cujo telefone tinha acoplado um contador de impulsos, geralmente cobrados a um preço elevado, para justificar o "favor" que nos estavam a fazer.

Ainda nessa altura as ligações telefónicas tinham outras particularidades. Ouviam-se muitos ruídos na linha e, quanto maior a distâncias, mais "longe" ouvíamos o destinatário (sendo, por vezes, quase obrigados a gritar).

Bom, mas pelo facto de termos acesso a um telefone não tínhamos ainda a garantia de conseguirmos falar com a pessoa que pertendiamos. Acontecia por vezes que, quando ligávamos, o destinatário não estava perto do aparelho do outro lado e, por isso, não atendia a chamada.

No entanto eram todas estas condicionantes que davam alguma emoção ao acto de telefonar.
Assim, durante as férias, havia sempre pelo menos um dia em que íamos telefonar. De preferência numa hora em que sabíamos que o destinatário estava do outro lado, quer por lhe conhecermos os hábitos, quer por termos previamente combinado uma hora para o fazer.

Como o horário mais cómodo (e barato) era o nocturno, as cabines telefónicas foram sempre os nossos locais preferidos para telefonar. No entanto traziam outro problema adicional: as moedas.
Para remediar essa questão, durante o dia, íamos coleccionando moedas compatíveis com as cabines a que tínhamos acesso. Mas os possíveis problemas ainda não terminavam aqui. Mesmo com as tão desejadas moedas não tínhamos ainda a garantia de conseguir fazer a ligação. Os telefones também tinham as suas manias.
Por vezes o telefone "comia" a moeda e não fazia a ligação, outras vezes (infelizmente raras) fazia a ligação e recusava-se a ficar com as moedas e, por último, havia a situação em que, recusando-se a "engolir" o dinheiro, o telefone cortava a chamada ao fim de poucos segundos de ligação.

Foi por causa de uma situação como esta última que, entre nós, ficou célebre um telefonema feito, a partir de Viana do Castelo, para casa das nossas mães (uma chamada para cada casa).
Como a cabina se recusava a "engolir" as moedas a conversa foi efectuada no intervalo de tempo que mediava a ligação e o seu corte automático. Obviamente a conversa só foi possível com muitas (muitas mesmo) remarcações do número do destino, num jogo hilariante com a cabina.

Quem não achou muita piada à situação foram os futuros utilizadores dessa mesma cabina.
Só nos apercebemos de que havia alguém à espera para telefonar quando abrimos a porta da cabine, para sair. E foi com cara de poucos amigos que nos olharam quando finalmente saímos, ainda a rir, possivelmente julgando que a nossa atitude se devia a uma falta de dinheiro e não à falta de colaboração do aparelho.

Com o avanço tecnológico começaram a surgir cabines que devolviam troco e, pasme-se, cartões pré-pagos (vulgo crédifones) que evitavam a necessidade de "catar" moedas durante o dia, para poder telefonar à noite. Claro que, depois de gastos, os cartões também permitiram uma interessante colecção.

Com o advento do telemóvel (e mais tarde do roaming) o problema de encontrar uma cabine para telefonar foi desaparecendo, sendo gradualmente substituído pelo problema de "encontrar" um local com rede.
No entanto, no início, com o custo da comunicação elevado, continuamos a preferir utilizar as cabines que íamos encontrando pelo caminho (aumentando a já referida colecção de cartões).

A partir do momento em que os custos das comunicações baixaram drasticamente e a Internet e as ligações wi-fi se generalizaram, o contacto com quem quer que seja tornou-se quase uma 'não preocupação'.
Hoje é basicamente indiferente se nos encontramos na praia, em Lisboa, Londres ou algures na Finlândia.

Em compensação as nossas outrora tão desejadas cabines telefónicas vão desaparecendo da paisagem urbana sem que notemos a sua falta.
Num destes dias passei por alguém que falava num telefone público, situação que estranhei por inusitada. O pior foi ser num local por onde passo quase todos os dias e não me ter apercebido sequer que aquela, agora velha e decadente, cabine telefónica ali se encontrava.

Agora, quando reparo num telefone público serve-me apenas para lembrar, sem nostalgia, das muitas peripécias por que passei, por causa de um daqueles aparelhos.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

A grande travessia

Nascer do dia, Espanha - 2008
Quando se pensa em chegar por estrada de Portugal á 'Europa', temos de contar com um grande obstáculo. Não, não estou a falar dos Pirenéus. Estou a falar da Espanha.

Da primeira vez que planeamos chegar a França, de carro, avisaram-nos do problema. 
"O pior é passar Espanha", disseram-nos os nossos amigos que já se tinham lançado nessa grande aventura de ir de carro à descoberta da Europa.

Numa altura em que quase não havia autoestradas, só atravessar Espanha fazia-nos distanciar de França mais de 15 horas de viagem, fora as paragens e o chegar à fronteira (Elvas dista de Perpignan mais de 1.200 Kms, sendo um pouco menos para Bayone, +/- 900 Kms, boa parte na chamada "estrada dos emigrantes").

Assim, colocaram-se-nos duas alternativas: atravessar de dia, fazendo uma paragem para dormir, ou atravessar de noite, dormindo depois já do 'lado de lá'. Isto porque 'não ir' não era alternativa.

O pouco que conhecíamos de Espanha era suficiente para sabermos que, no Verão, as temperaturas no centro do país são bastante elevadas. Por outro lado, perder dois preciosos dias de férias só para chegar aos Pirenéus era um custo elevado.

Foi assim que decidimos seguir os conselhos dos nossos amigos e atravessar Espanha durante a noite.

Em 1991, conduzindo apenas a Manela, saímos de casa por volta das 10 da manhã, chegámos ao Caia no final da tarde, seguimos em direcção a Madrid, Zaragoça (onde entramos pela primeira vez em autoestrada), Barcelona e, já perto do meio-dia, chegámos finalmente a Figueras, onde nos aguardava o hotel.
Chegámos cansados (a Manela bem mais do que eu), esfomeados e com o para-brisas cheio de insectos mortos.

Nesse dia tomamos duas decisões importantes. Uma foi dormir assim que possível, a outra foi nunca mais atravessar Espanha com apenas um condutor.

A travessia seguinte foi em 1994.
Com dois condutores (eu entretanto tirei a carta) a coisa já foi mais fácil.
Mudanças de turno mais ou menos de duas em duas horas, permitiram ir esticando as pernas e descansar mais os olhos e o corpo. Para além disso, graças aos dinheiros da CEE, as autovias e as autopistas começaram a proliferar em Espanha, assim como as autoestradas em Portugal.
Saímos mais tarde de casa e chegámos bem mais cedo e mais "frescos" a Andorra. 

Com a continua melhoria das estradas (trajecto quase todo em via dupla) e do carro (maior, ar condicionado, direcção assistida,...), em 2008 saímos de casa perto das 8 da noite, paramos para "jantar" qualquer coisa e, mantendo as mudanças de turno ao fim de em duas horas, por volta das 7-8 da manhã, já tínhamos estacionado o carro e estávamos a tomar o pequeno almoço em Bayone.

O cansaço à chegada ainda é grande. Mas já não se compara. Quanto ao para-brisas, esse continua cheio de insectos mortos, apesar de os irmos limpando, de vez em quando, nas áreas de serviço.

Já em terras de França ainda é necessário fazer uma pausa para dormir e recuperar forças. Mas ao olharmos o mapa, temos à nossa frente toda a Europa para descobrir. 
Agora o mais difícil é escolher a paragem seguinte.

domingo, 24 de maio de 2015

Macacos

A Floresta dos Macacos, França - 1994
A França foi, até ao presente, o país por onde passei e encontrei mais lugares para visitar.
Numa qualquer vila, no meio do nada, é facil existirem vários pontos de interesse, sejam eles históricos, naturais ou criados para o efeito.

Na nossa passagem pela região do Lot ficamos acampados em Hospitalet, povoação sobranceira a Rocamadour.

Próximo do parque de campismo e de fácil deslocação a pé, para além do centro da povoação (onde há restaurantes, um multibanco e lojas de souvenirs) e de Rocamadour que fica quase por baixo, no vale, há ainda uma gruta pré-histórica, uma exposição/museu particular de miniaturas de comboios e "A Floresta dos Macacos".

Como ficámos lá alguns dias e a Joana era pequena, decidimos num desses dias visitar a Floresta dos Macacos.

A Floresta dos Macacos é um parque natural para onde foram levadas algumas famílias de macacos do Norte de África, de uma espécie em risco (Magot ou Macaco de Gibraltar), para estudo e preservação.
Neste parque os visitantes atravessam a reserva, por um percurso circular pré estabelecido, permitindo-lhes observar as famílias de macacos ali existentes e interagir com eles.

Na manhã da nossa visita decidi eu (erradamente) vestir uma camisa lavada, na esperança de que esta durasse pelo menos dois dias.
Assim, com um ar mais fresco e lavado, lá fomos nós até ao parque para ver os macacos (e eles verem-nos a nós, claro).
Na entrada, para facilitar o contacto com os animais, é-nos fornecida uma mão cheia de pipocas, pitéu que não é para comermos pelo caminho mas sim para ir distribuindo aos macacos, ao longo do percurso, permitindo-nos aproximar deles.

Como para a Joana andar com as pipocas na mão causava algumas dificuldades, pediu-me que levasse as minhas e as dela. Para isso, juntei as duas mãos em concha, permitindo-lhe ir tirando as pipocas para as dar aos bichos.

Estávamos nós no meio dos macacos, com a Joana a distribuir pipocas pelos presentes, quando um deles se apercebeu da fonte das pipocas e começou a tentar tirar-mas da mão.

Achando-me mais esperto do que o macaquinho, levantei os braços para que estas ficassem fora do seu alcance.
Nessa altura ouvi um dos seguranças do parque, surgido sabe-se lá de onde (juro que não tinha dado por ele), a ordenar-me que largasse as pipocas e as deitasse para o chão.

Antes de eu poder fazer alguma coisa e mais rápido do que a materialização do guarda, o macaco trepou por mim acima, direito às minhas mãos, decidido a comer as pipocas que eu tentava esconder.

Sendo eu bem mandado e já com o macaquinho ao colo, obedeci à ordem que ouvira, largando todas as pipocas que se escondiam nas minhas mãos, tirando-me de cima o peso extra do macaco.

De acordo com o guarda os animais não são perigosos. No entanto não convém criar conflitos com eles porque, estando em estado selvagem, não se sabe qual a reacção que têm, podendo esta ser mais violenta.

Praticamente sem pipocas (sobravam apenas as da Manela), lá fomos percorrendo o resto do caminho, animados com a nova aventura e imaginando o porquê de, de vez em quando, encontrarmos grupos de macacos a deliciarem-se com um monte de pipocas espalhadas pelo chão.

Finda a visita, já perto da hora do almoço, regressámos ao parque de campismo com mais uma história para contar. Infelizmente a nova história ficou também gravada na minha camisa lavada, na forma de pegadas enlameadas, obrigando-me a nova muda de roupa.


Informação adicional em:

La Foret des Singes

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Acampar

Crystal Palace, Londres - 1985

1985
Quando chegámos a Londres, em agosto de 85, íamos em busca da cidade-mito para onde confluíam milhares de jovens de todo o mundo, em busca da essência da liberdade.
Para trás ficavam dois dias de camioneta (os autocarros da Eurolines corriam a Europa) até Paris, uns dias de descanso e visita à cidade, mais umas horas de camioneta e a travessia da Mancha em ferry boat.

Não conheço ninguém que tenha chegado a Inglaterra de barco e avistado as falésias brancas de Dover, e feito uma entrada triunfal em Londres às 5 da manhã, com o dia a nascer, pela ponte de Westminster.
A primeira visão que eu e o Mário tivemos da cidade, foi o Palácio de Westminster e o Big Ben. Só isso chegou para me apaixonar imediatamente pela cidade.
Quando saímos na estação de Victoria ainda não estavamos tão endinheirados que tivessemos reserva num hotel. Não. As mochilas que transportavamos levavam tudo o que era necessário para acampar confortavelmente.
Só era preciso encontrar um parque. Os postos de Turismo, de aspeto eficiente, estavam ali para isso.
Uma senhora deu-nos um mapa da cidade e as indicações de metro necessárias para chegar ao parque de campismo de Acton. Era um bocadinho longe mas o trajeto era rápido.

Trazíamos “na bagagem” as máquinas fotográficas, Travellers Cheques, e bilhetes de comboio que nos iriam permitir correr a Grã-Bretanha durante oito dias. Só faltava montar a tenda.
Quando saímos na estação de Acton deparámo-nos com um outro lado de Londres. Um bairro de subúrbio, de aspeto pobre e mal cuidado, semeado de gente de aspeto dúbio. Mas o cenário não estava completo – o parque de campismo que se nos deparou só podia ser produto de uma alucinação. Num recinto enorme, de limpeza mais que duvidosa, erguiam-se tendas verdes de exército, onde dormiam aqueles que não tinham tenda, uma tenda coletiva que mais parecia uma tenda de circo, não se viam instalações sanitárias e tudo parecia saído de um campo de refugiados.
Dirigimo-nos à recepção na esperança de que nos dissessem que aquilo não era o parque que procurávamos. Mas não. Gente desagradável e notoriamente cansada e sem paciência, atendia quem chegava. Disseram-nos desabridamente que montar a tenda era um risco, pois podia ser roubada, e que convinha que deixassemos as mochilas e os nossos pertences na recepção. Deram-nos, a cada um, um saco enorme de lona para meter as mochilas e tudo o mais lá dentro, e um  cadeado para o fechar.
Só me apetecia chorar e voltar para casa. Ainda tentámos fazer o que nos disseram mas a voz da razão falou mais alto. Que diabo... devia haver gente que acampava. E com roulotes. Gente que não podia permitir que lhe roubassem o meio de transporte. Não, ali não ficávamos. Nem que andássemos oito dias de comboio e só guardássemos de Londres a “entrada triunfal”. Que se “lixassem”... Devolvemos sacos e cadeados numa profunda irritação e num surdo desespero de quem está perdido em terra estranha.

Metemo-nos no metro e voltámos ao turismo a Victoria Station.
Reclamámos contra o que tinhamos visto e ameaçámos fazer queixa a alguém. Um funcionário mais atento deu-nos outra indicação, desta vez a sul de Londres. Apanhámos um autocarro direto que levou quase uma hora a chegar lá e nos permitiu ver outros bairros, de pequenas casinhas iguais e bem cuidadas.

Quando descemos na última paragem e virámos a esquina, as bandeiras hasteadas à porta de um recinto cercado, cheio de árvores e flores, devolveram-nos o sorriso rapidamente. A simpatia do casal escocês que nos recebeu acompanhou-nos todo o tempo que lá ficámos.

Quando acabámos de montar a tenda sentámo-nos a olhar o vale que abrigara o edifício da mais célebre exposição do século XIX: estavamos em Crystal Palace.
E sentimo-nos em casa.