domingo, 20 de setembro de 2015

The Fringe

                                                             Edinburgh Fringe, The Royal Mile, agosto 2015

Não há como acompanhar nem como ignorar.
As ruas enchem-se progressivamente de uma multidão de atores e espectadores. As mãos dos atores estendem-se na avidez de entregar os pequenos cartões do tamanho de um postal que podem significar sala cheia. Se nós, os possíveis espectadores, abrandamos o passo, somos rapidamente industriados sobre o que se vai passar na sala em questão. Teatralmente. Parece um jogo em que todos procuramos adiantar-nos ao adversário. E em que todos nos divertimos, qualquer que seja o resultado.
É o Fringe, o "antagonista-complemento" do Festival Internacional de Edimburgo. 
Nas ruas da cidade jogam-se por vezes os destinos de muitos atores, num país onde o teatro é por tradição "ensinado" desde a primária, e treinado duramente, por entre competição feroz e em larga escala, por quem quer fazer carreira. As ruas de Edimburgo são o palco daqueles que não conseguem aceder a uma das pequenas salas onde se desenrolam mais de dois mil espetáculos durante o mês de agosto. Por essas salas passaram muitos dos atores, músicos e cantores que hoje aplaudimos.

Se a vida é uma festa, Edimburgo é o salão onde decorre. 
A atmosfera inebria e, quando o Fringe abre oficialmente portas, a música que enche as ruas, a que escorre do Tattoo no castelo, o fogo de artifício que estoura num céu nublado, são o motivo perfeito para todos os risos e todos os pints que se bebem dentro e fora dos pubs.
Que interessa se chove? Ninguém nota!...

Ao mesmo tempo decorre o Festival de Arte e na segunda metade de Agosto sobrepõe-se-lhe o Festival do Livro. Depois vem o Storytelling Festival. Depois vem a feira de Natal. Depois o Hogmanay. E a Burns' Night. Depois o Beltane. A seguir o Film Festival. E o Festival de Ciência. Depois o Festival de Jazz e Blues. Depois um qualquer pretexto para outro festival. 
E, claro, logo de seguida, em agosto, o Fringe e o Festival outra vez.
Deve ser muito cansativo viver numa cidade que está sempre festa. 

Ora venha mais um pint!


domingo, 6 de setembro de 2015

Sarcasm?

Pubs - placards de exterior,  Edinburgh, 2015

Quanto mais vou até terras britânicas mais fascinada fico pelas qualidades que aquele povo tem. E não, não falo do teatro ou da literatura. 
Eu sei que o João Magueijo, com um saber de experiência feito, escreveu demoradamente e por motivos profundos, sobre os horrores da Grã Bretanha e as agruras que por ali passou, mas eu só encontro motivos de delícia e satisfação. 

Vamos lá a ver, a história daquele povo tem lados negros que não foram ainda totalmente trazidos à luz; aquilo que vemos nem sempre é aquilo que lá está; a corrupção e o deboche também lá existem, e as sombras de grey são bem mais que cinquenta. Também sei que o clima da ilha é bastante "cinzento", que a cozinha britânica não tem o fulgor da francesa e que a comida rápida é tão má como outra qualquer. É comida rápida. Para compensar há o Jamie Oliver, que é inglês, e o Gordon Ramsay, que é escocês. Segundo parece até cozinham bem e o primeiro dedicou um livro inteirinho à cozinha tradicional das ilhas britânicas. 

Mas temos de reconhecer que em termos de espírito prático e de "contra-politicamente-correto" ninguém lhes leva a palma.
Certas afirmações, certos conceitos, que, entre nós, gerariam uma corrente de protestos indignados, são em "terras de sua majestade" prova de um olhar sarcástico sobre a sociedade que nos deixa um pouco algures, na terra de ninguém entre o sorriso amarelo de quem tem medo de ser cúmplice de um pensamento pouco correto e a gargalhada funda do "era mesmo isto que apetecia fazer".

O pior é que não só pensam coisas "pouco próprias", como as publicitam em cartazes no meio da rua.
Gostava de ver o que acontecia por cá se os restaurantes do bairro fizessem as propostas feitas por dois respeitáveis pubs, imbuídos desse espírito prático, no centro de Edimburgo.
O mais grave é que muitos/muitas de nós pensam, ou já pensaram, em certas alturas, em soluções semelhantes (ou piores...) a essas.
Mas ninguém tem coragem de o confessar.
Não vá alguém pensar que podemos passar à prática.


The White Hart Inn, Edinburgh
The Newsroom, Edinburgh

domingo, 30 de agosto de 2015

Speedy's - Sandwich Bar & Cafe

Speedy's, Londres - 2014
Perdoem-me os que não são apreciadores ou conhecedores da série televisiva da BBC "Sherlock" mas ter estado no Speedy's e não referir o lugar seria um crime.

Para quem não está familiarizado com a série poderei dizer que esta é uma fabulosa adaptação das obras originais de Conan Doyle, transpostas para os nossos tempos.
Sherlock é um génio convencido e mimado, Watson um traumatizado veterano do Afeganistão e Moriarty um génio demente. Todas as interpretações são excelentes, suportadas por um script muito bem elaborado e uma realização desconcertante.
Apesar de terem sido realizados apenas dez episódios, três por temporada e um especial de Natal, foram os suficientes para criar um grupo desmesurado de fãs e uma venda invejável de memorabilia.

Curiosamente, quando pela primeira vez vi na televisão o anuncio à série, a figura de Sherlock pareceu-me excessiva. Um detective super convencido, pedante e que insultava toda a gente que o rodeava. Não me atraiu e, como tal, não vi nenhum dos episódios da série.
Quis o destino que, numa noite de pasmaceira em que não havia nada de interesse na televisão, o zapping me fizesse cruzar com um dos episódios da série, já a meio. 
Como não havia mais nada para ver, perguntei-me a mim mesmo " e porque não ver o que isto é?"
E foi a minha desgraça. No final do episódio estava rendido.

Mas o que é que tudo isto tem que ver com o Speedy's?
Na série, as filmagens da casa de Sherlock não se realizaram em Baker Street, rua muito movimentada, mas sim na pacata North Gower Street. Junto ao Speedy's.

Apesar do Speedy's já existir antes da série televisiva, foi com ela que ganhou notoriedade, passando de um desconhecido café de bairro ao local de romaria e culto dos fãs da série.

E foi assim que, numa calma manhã de Agosto, perto das 10 da manhã, emergimos da estação de metro de Euston, à procura do dito cujo café. De mapa na mão, lá fomos entrando no sossegado bairro. 
Ao fim de alguns metros, ao virar de uma esquina, ali estava ele. Um café de bairro, pacato, com duas mesas na esplanada, na altura ocupadas por alguns operários que faziam a sua pausa, para beber um café.

Contemplamos o exterior e decidimos, num acto corajoso, entrar e beber também nós um café (corajoso porque, de uma forma geral, o café em Londres é mau).
Ao abrirmos a porta apercebemo-nos da pequenez do lugar. Nas paredes fotografias das filmagens, numa decoração sóbria e despretenciosa, confirmavam a sua ligação à série.
O café estava sossegado mas cheio. Maioritariamente de fãs, uma vez que apenas duas ou três pessoas tinham ar de serem habitantes do bairro, Os restantes clientes destoavam completamente.

Face à lotação esgotada da sala, quando uma simpática empregada nos perguntou o que desejávamos, pedimos três "moka" para levar (o chocolate ameniza o gosto)
Já cá fora, sentados num muro junto ao café, a bebericar as nossas bebidas, fomo-nos apercebendo da silenciosa romaria que ia decorrendo na rua.

Tal como nós, notórios fãs, sós ou em grupo, de mala de viagem a rasto ou mochila às costas, iam cumprindo o mesmo ritual (não necessariamente por esta ordem): uma 'inspeção' ao lugar, uma fotografia ao café, uma fotografia frente ao café ou sentados na esplanada, uma volta pelas redondezas, uma espreitadela ao interior... enfim, tudo aquilo que um fã faz quando se encontra num lugar que, reconhecidamente, pertence ao universo da sua devoção.
Curiosamente sempre num 'registo' discreto, respeitoso, diria mesmo religioso, de quem não quer interromper nada mas apenas "viver" o lugar.

Esgotada a bebida e saboreado o lugar, seguimos o nosso caminho de regresso ao metro. Não sem antes notar uma pequena curiosidade: a casa que seria a morada de Sherlock na série, estava à venda.
Decididamente Holmes já não morava ali.


Informação adicional em:
Speedy's Cafe
Sherlockology - Speedy's cafe

Sherlock na Wikipedia
I Believe in Sherlock Holmes

domingo, 26 de julho de 2015

221 B

Baker Street, Londres - 2014
Baker Street. Em 1985, no primeiro ano que fomos a Londres, esta teria de ser uma das paragens obrigatórias.

A avidez de vermos o mais possível, no pouco tempo que tínhamos, obrigou-nos a fazer escolhas. Alguns museus ficaram de fora e noutros apenas visitamos uma ou outra sala. O mesmo aconteceu com ruas ou bairros. Se uns ficaram de fora do nosso roteiro, outros houve que apenas vimos de dentro de um autocarro.

Mas Baker Street era um destino obrigatório.
Sir Arthur Conan Doyle tornou-a uma das ruas mais populares de Londres ao situar ali a morada daquele que é, talvez, o mais famoso detective: Sherlock Holmes.

O passe de Londres levou-nos de metro até à estação de Baker Street, fazendo-nos sair directamente na rua do mesmo nome.
A rua, com passeios folgados e prédios de três andares, tinha bastante transito. De cabeça no ar, fomos seguindo a sequência dos números das portas até finalmente chegarmos ao tão desejado 221B.

A desilusão não poderia ser maior. Um prédio de habitação semelhante aos demais e nenhuma referência à celebridade da porta.
A imagem que me vem hoje à ideia, é de eu estar no passeio de uma rua com muito trânsito automóvel, a olhar para uma porta e eventualmente a pensar: "Pronto. É isto."

Felizmente nesse mesmo ano, numa das nossas voltas ao acaso, deparamo-nos, junto a Charing Cross, com o Sherlock Holmes... o Pub. Ali sim, havia uma sala, um pequeno museu, evocativo da personagem.

A recente realização de alguns (bons) filmes (nomeadamente o realizado por Guy Ritchie em 2009) e séries de televisão (entre boas - Sherlock da BBC - e menos boas - Elementary da CBS), reavivou a popularidade e a memória do detective.

Assim, quando no ano passado saímos do metro na estação de Baker Street, para mostrar a célebre morada à nossa filha, nada me preparava para o que nos esperava.
Ao contrário da primeira visita, não foi preciso procurara o número 221B.
Do outro lado da rua, ao longo do passeio formava-se uma longa fila de pessoas, sobretudo jovens, que aguardavam a entrada e visita, paga, da conhecida morada.
Na porta ao lado, no 221, entra-se agora para a loja de souvenirs, onde é possível comprar toda a memorabilia do detective.

Embora esta fosse uma visão próxima do que esperava encontrar na minha primeira visita, reconheço hoje que não sei qual das duas foi a mais desiludente.

Felizmente o Sherlock Holmes, o Pub, continuava igual a si mesmo, permitindo acabar o dia curando as 'mágoas' frente a um pint de boa cerveja.


Informação adicional em:
Sherlock Holmes
Sherlock Holmes na Wikipedia
Sherlock Holmes, o pub

domingo, 12 de julho de 2015

Estradas de água

Eclusa em Carcassone, França - 1996
Na escola, aprendi que os grandes rios eram importantes meios de transporte.
Como exemplo falavam-nos do Danúbio, do Reno ou do Ródano, entre outros. Estes rios eram percorridos por grandes barcos de mercadorias e de cruzeiro, sendo responsáveis por parte da economia e da riqueza dos países que atravessavam.
Em Portugal tínhamos o Tejo, o Douro e o Guadiana, já para não falar do Mondego, relegado para uma segunda categoria. Mas, tirando o transporte do vinho do Porto em barcos típicos, apenas à foz destes rios era dada alguma importância. Isto porque nós tínhamos o mar.

Olhando para Espanha o panorama que eu conhecia era semelhante ao nosso. Também têm o Tejo, o Douro e o Guadiana (chamados de uma forma um pouco diferente, claro), e mais um ou outro rio "grande", mas, importantes para a economia, eram mesmo os portos de mar.

Paralelamente, a minha experiência dizia-me que, no Verão, grande parte dos pequenos rios ou ribeiros secava, ou ficava perto do seco. E em Espanha imperava quase o deserto.

Como dei por adquiridos todos estes factos, não pensei muito mais no assunto.

Por tudo isto, quando pela primeira vez cheguei de carro a França, achei curioso e agradável encontrar frequentemente pequenos rios.
No entanto, ao contrario dos nossos, estes transportavam grandes quantidades de água. Por isso, não me foi estranho ver muitas vezes, ou atracados na margem ou andando de forma dolente, barcos de recreio e pequenas barcaças de transporte de mercadorias.

Com margens bem cuidadas, boa parte deles tinham agradáveis caminhos que acompanhavam o leito do rio. Foi ao ver esses caminhos que se me fez luz.
Eu deveria saber que aquilo não eram própriamente rios. Simenon já mos tinha descrito, de forma bem melancólica, em muitas das aventuras de Maigret. Eram canais.

Esta "descoberta" foi curiosa. Apesar de saber da sua existência, nunca pensei neles como algo com que me pudesse cruzar.
E o "pior" não foi isso. Foi o facto de que a sua presença se tornar normal na paisagem por onde quer que me deslocasse.
À medida que fui conhecendo a França, apercebi-me que existe praticamente uma segunda rede viária, mas de água. Grande parte de França está coberta por uma rede de canais. E essa rede de canais não se fica apenas por França. Entre canais e rios pode-se chegar à Bélgica, à Holanda ou à Alemanha.

Fascinante também foi ver toda a arquitectura e engenharia associada aos canais. Para permitir a ligação entre os diversos cursos de água existem dezenas, senão centenas de eclusas, assim como incontáveis pontes e viadutos.
Para espanto meu existe, pelo menos, um aqueduto de vários arcos que permite a passagem de um dos canais por cima de um vale, sobre uma estrada nacional.

Como referi, é fácil ver com frequência nos canais e pequenos rios, barcaças e barcos de recreio. Já junto ás eclusas a sua quantidade é bem maior.
Apercebi-me então da dimensão e importância que estas "estradas" têm no interior da Europa.

No entanto, à minha dimensão, o que mais me seduz nos canais é poder percorrer boa parte de França, calmamente, atravessando aldeias, bosques e campos de cultivo. Enfim, fazer umas férias bucólicas e rurais, com uma perspectiva completamente diferente de uma região ou país.

E, se apenas por ver os canais esta sedução já existia, ela aumentou substancialmente no dia em que, na 'Autoroute des Deux Mers', após algumas horas de viagem nuns quase constantes 130 Km/h, decidimos parar numa área de serviço, junto a Toulouse, para almoçar.
Descobrimos então que esta área de serviço era utilizada não só pelos utentes da auto estrada como também pelos do canal do Midi. E, acreditem, no final da refeição, achei que seria muito mais agradável embarcar num dos pequenos barcos que ali estavam e seguir viagem calmamente, à sombra das enormes árvores que ladeiam o canal, do que voltar para o carro, mesmo com ar condicionado, para retomar a autoestrada.

No horizonte ficou a esperança de um dia alugar um barco e percorrer languidamente algumas dessas "estradas de água".


Informação adicional em:
Vias navegáveis de França
Projecto Babel - Dicionario dos rios e canais
Carta das eclusas
Lista dos canais - Wikipedia

Aluguer de embarcações

domingo, 28 de junho de 2015

Com mil milhões de macacos

Château de Cheverny, França - 2004 
Estas são, talvez, as palavras mais conhecidos do capitão Haddock, companheiro inseparável do jornalista Tintin.
Curiosamente é também essa a expressão que nos vem à cabeça quando, frente à fachada do castelo de Cheverny, reconhecemos o célebre castelo de Moulinsart.

Enfim, não é exactamente igual.
Apesar de lhe ter servido de inspiração, Hergé foi um pouco mais modesto ao desenhar o castelo de Moulinsart e retirou os dois 'torreões' laterais que existem em Cheverny.
Mas não é por causa dessa diferença que deixaríamos de achar natural se, pela porta principal, víssemos sair o criado Nestor ou uma outra qualquer personagem das conhecidas aventuras.

É aliás esta ligação que está na origem da exposição montada numa das casas anexas ao castelo. 
Nessa exposição, dedicada às aventuras de Tintin, é possível ver ou entrar em muitas das salas por onde se desenrolaram algumas das suas aventuras.
Com o mesmo espectro de cores dos álbuns de banda desenhada, podemos ver, entre outras, a sala do piano da Castafiore, o laboratório de Tournesol com o célebre submarino em forma de tubarão, ou as caves onde Tintin foi aprisionado pelos irmãos Pardal.

Mas Cheverny não se resume à exposição das aventuras de Tintin. Ao entrarmos na mansão, o interior que admiramos é digno de um 'château', a condizer com o seu aspecto exterior. As salas visitáveis são amplas, agradáveis e bem decoradas.

Seja porque a decoração das salas tenha sido bem concebida, seja porque os actuais proprietários também lá vivem, ou porque o interior serviu, também ele, de inspiração a Hergé (ou talvez por todas estas razões), estar e atravessar as diversas divisões transmite-nos uma sensação bastante acolhedora.
Ao contrario de outros palácios ou castelos que visitei, onde tudo é muito "rígido" dando-nos a sensação de atravessar uma exposição, aqui o ambiente parece mais informal, transmitindo uma atmosfera mais familiar ou "caseira".
Ao passear por aquelas salas ficou-me a sensação de estar a visitar a casa de um amigo ou conhecido, apesar de mais abonado do que o habitual.

Quando em alguma ocasião, falo da visita ao vale do Loire e aos seus castelos, é essa memória acolhedora que associo a Cheverny.
De tal forma que poderia dizer que foi o dia em que, verdadeiramente, visitei a casa de Tintin.


Informação adicional em:
Chateau de Cheverny
Cheverny na Wikipedia

domingo, 14 de junho de 2015

A cabine telefónica

Londres, Inglaterra - 2006
Para quem parte de viajem, uma questão que se lhe coloca é a de como comunicar com quem não nos acompanhou na viagem mas que, de alguma forma, espera receber noticias nossas.

Quando comecei nestas andanças a forma mais rápida de comunicar com alguém era o telegrama.
Embora não falássemos directamente com o destinatário, tínhamos a certeza de que a mensagem era entregue, e no mais curto espaço de tempo.
Mas os telegramas tinham como problema o de serem caros. Como tal, eram normalmente utilizados em último recurso e para notícias urgentes. Normalmente e infelizmente, más.
Por essa razão nunca foi considerado por nós como meio para dizer que estava tudo bem e que nos estávamos a divertir muito.

No extremo oposto ficava a carta ou melhor ainda, o postal.
Barato, poucas palavras e, como bónus, uma imagem para complementar as palavras. Adicionalmente serviam como um bom pretexto para ficar numa explanada a gozar o descanso enquanto os escrevíamos.
No entanto peca por ser lento. Por vezes mesmo muito lento. Quantas vezes não cheguei eu a casa, vindo de férias, antes do bendito postal chegar ao seu destino.

No meio termo estava o telefone. Não era muito caro e tinha a vantagem de ser imediato e interactivo.
Foi por isso eleito por nós como o meio priveligiado para comunicar com quem nos estava mais próximo. Mas nem sempre o seu uso era fácil..

Nos primórdios das nossas viagens todos os telefones eram fixos. E os telefones públicos dividiam-se em três categorias (por ordem de preferência):
1) As cabines telefónicas (no início quase uma curiosidade, nomeadamente fora dos grandes centros);
2) As estações dos Correios (quando as havia e, de uma forma geral, apenas disponíveis durante as horas de expediente) e
3) Os estabelecimentos (normalmente cafés) cujo telefone tinha acoplado um contador de impulsos, geralmente cobrados a um preço elevado, para justificar o "favor" que nos estavam a fazer.

Ainda nessa altura as ligações telefónicas tinham outras particularidades. Ouviam-se muitos ruídos na linha e, quanto maior a distâncias, mais "longe" ouvíamos o destinatário (sendo, por vezes, quase obrigados a gritar).

Bom, mas pelo facto de termos acesso a um telefone não tínhamos ainda a garantia de conseguirmos falar com a pessoa que pertendiamos. Acontecia por vezes que, quando ligávamos, o destinatário não estava perto do aparelho do outro lado e, por isso, não atendia a chamada.

No entanto eram todas estas condicionantes que davam alguma emoção ao acto de telefonar.
Assim, durante as férias, havia sempre pelo menos um dia em que íamos telefonar. De preferência numa hora em que sabíamos que o destinatário estava do outro lado, quer por lhe conhecermos os hábitos, quer por termos previamente combinado uma hora para o fazer.

Como o horário mais cómodo (e barato) era o nocturno, as cabines telefónicas foram sempre os nossos locais preferidos para telefonar. No entanto traziam outro problema adicional: as moedas.
Para remediar essa questão, durante o dia, íamos coleccionando moedas compatíveis com as cabines a que tínhamos acesso. Mas os possíveis problemas ainda não terminavam aqui. Mesmo com as tão desejadas moedas não tínhamos ainda a garantia de conseguir fazer a ligação. Os telefones também tinham as suas manias.
Por vezes o telefone "comia" a moeda e não fazia a ligação, outras vezes (infelizmente raras) fazia a ligação e recusava-se a ficar com as moedas e, por último, havia a situação em que, recusando-se a "engolir" o dinheiro, o telefone cortava a chamada ao fim de poucos segundos de ligação.

Foi por causa de uma situação como esta última que, entre nós, ficou célebre um telefonema feito, a partir de Viana do Castelo, para casa das nossas mães (uma chamada para cada casa).
Como a cabina se recusava a "engolir" as moedas a conversa foi efectuada no intervalo de tempo que mediava a ligação e o seu corte automático. Obviamente a conversa só foi possível com muitas (muitas mesmo) remarcações do número do destino, num jogo hilariante com a cabina.

Quem não achou muita piada à situação foram os futuros utilizadores dessa mesma cabina.
Só nos apercebemos de que havia alguém à espera para telefonar quando abrimos a porta da cabine, para sair. E foi com cara de poucos amigos que nos olharam quando finalmente saímos, ainda a rir, possivelmente julgando que a nossa atitude se devia a uma falta de dinheiro e não à falta de colaboração do aparelho.

Com o avanço tecnológico começaram a surgir cabines que devolviam troco e, pasme-se, cartões pré-pagos (vulgo crédifones) que evitavam a necessidade de "catar" moedas durante o dia, para poder telefonar à noite. Claro que, depois de gastos, os cartões também permitiram uma interessante colecção.

Com o advento do telemóvel (e mais tarde do roaming) o problema de encontrar uma cabine para telefonar foi desaparecendo, sendo gradualmente substituído pelo problema de "encontrar" um local com rede.
No entanto, no início, com o custo da comunicação elevado, continuamos a preferir utilizar as cabines que íamos encontrando pelo caminho (aumentando a já referida colecção de cartões).

A partir do momento em que os custos das comunicações baixaram drasticamente e a Internet e as ligações wi-fi se generalizaram, o contacto com quem quer que seja tornou-se quase uma 'não preocupação'.
Hoje é basicamente indiferente se nos encontramos na praia, em Lisboa, Londres ou algures na Finlândia.

Em compensação as nossas outrora tão desejadas cabines telefónicas vão desaparecendo da paisagem urbana sem que notemos a sua falta.
Num destes dias passei por alguém que falava num telefone público, situação que estranhei por inusitada. O pior foi ser num local por onde passo quase todos os dias e não me ter apercebido sequer que aquela, agora velha e decadente, cabine telefónica ali se encontrava.

Agora, quando reparo num telefone público serve-me apenas para lembrar, sem nostalgia, das muitas peripécias por que passei, por causa de um daqueles aparelhos.