domingo, 17 de janeiro de 2016

O fim do Mundo

The Word's End, Royal Mile, Edimburgo - 2015
Se tudo tem um fim, terá de haver um fim do mundo.
E há. Jantei lá em Novembro passado.

Hoje o World's End é um pub, mas nem sempre foi assim.
No séc. XVI, depois da batalha de Flodden onde os Ingleses derrotaram os Escoceses, os habitantes de Edimburgo construiram uma muralha protectora para defesa da cidade dos ataques ingleses. A Flodden Wall.
A muralha limitava não só a cidade como também o espaço até onde os seus habitantes podiam ir. Junto ao lugar onde hoje se situa o pub ficava uma das principais portas da muralha. Como o mundo exterior já não lhes pertencia, aquela porta marcava o fim do mundo.

Hoje a muralha já ali não existe, restando apenas a sua memória e a sua localização marcada no chão. Para além, claro, do World's End.

Do World's End só tenho boas memórias. A cerveja, de produção própria, é muito agradável e a comida bem feita.
O Fish and Chips (prato que comi), um dos ex-libris do pub, estava ao nível das minhas expectativas.

Hora e meia depois, findo o repasto e a cerveja, com a conversa ainda animada, regressámos ao frio da rua, bem mais aconchegados do que quando para lá entrámos.

Agora, depois desta experiência, posso dizer que afinal o fim do mundo é um lugar bem acolhedor.


Informação adicional em:
The World's End

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

A Gaita de Foles

Pipefest, Edimburgo - 2015
Não sei porquê, mas sempre que se fala da gaita de foles, a primeira associação que me ocorre é a Escócia. E num dia "bom" posso até, por momentos, vislumbrar a imagem de um escocês no cimo de uma colina, a tocar, solitário, o "Amazing Grace".

Digo que não sei porquê porque, ao longo da minha vida, cruzei-me já com várias versões, de outras tantas nacionalidades, do dito instrumento.

Durante o carnaval, ainda gaiato, assisti vezes sem conta ao desfile de grupos de Zés Pereiras, liderados por um ou dois tocadores de gaitas de foles (e 'perseguidos' por cabeçudos e gigantones).
No entretanto, talvez por me preocupar mais com os cabeçudos e me fascinarem mais os ritmos dos bombos, ignorei quase por completo os pobres dos tocadores de gaita.
Para mim Zés Pereiras sempre foram e serão sinónimo de bombos.

Mas estas não são as minhas únicas referências.
No primeiro dia em que cheguei à Galiza, mais concretamente a Santiago de Compostela, fui brindado nas ruas com modas e muinheiras, musicas onde também predomina o som da gaita de foles. Só que aqui esta é, sonoramente, mais doce e dançante.
Sempre que lá vou ou quando falo de Santiago, não consigo imaginar aquelas ruas sem lhe associar o som quase renascentista das musicas tradicionais galegas e, obviamente, o som da gaita de foles. Mas não chega para criar essa associação.

A gaita de foles escocesa tem outras força, outro sentimento.
No último verão, cruzei-me com um tipo de evento que desconhecia: um "pipefest".
Já tinha assistido a Tatoos militares mas nunca a nada como isto. Grupos de tocadores de gaita de foles escocesa, vindos dos mais diversos pontos do globo, reúnem-se anualmente para trocar experiências e tocar em conjunto. Aparentemente o ponto alto (ou um dos pontos altos) é uma concentração de todos os grupos, seguida de um desfile pelas ruas da cidade que acolhe o evento. E foi a esse desfile que eu assisti.

Durante o tempo de espera, para ir "aquecendo", cada grupo vai tocando à vez, exibindo destreza e algumas das suas habilidades, enquanto se vão deixando orgulhosamente fotografar por "outsiders" como eu.
Chegada a hora da parada, é dada ordem de formatura  e iniciado o desfile.
Em ritmo de marcha os grupos avançam de forma ordenada, decidida e quase intimidatória, tocando todos em simultâneo a mesma sequência de melodias, previamente acordadas.

Passado o último grupo, engrossei a multidão de espectadores que, pelo meio da rua seguiu atrás dos músicos, acompanhando o desfile até ao seu ponto de chegada.
Enquanto ia com a multidão, ao som de centenas de gaitas de foles e caixas de rufo, senti-me invadir por uma estranha sensação de felicidade e alegria, gerando quase um sentimento de orgulho por integrar o desfile.
Não sei se são as melodias, se o timbre ou se outra coisa qualquer, mas de facto em nenhuma das outras ocasiões aquele som foi tão hipnotizante.

É por essa razão que, se num jogo de associação de palavras me disserem "gaita de foles", vislumbro uma colina verdejante e digo "Escócia".


Informação adicional em:
A Gaita de Foles
Pipefest-2015

domingo, 1 de novembro de 2015

Uma ponte com sabores

Ponte de Ucanha, Portugal - 2012
As barreiras naturais foram sempre lugares limitadores. Montanhas ou rios marcaram fronteiras e ajudaram na defesa de povoações e territórios.
É por isso que os vales e as pontes foram sempre pontos importantes e criadores de riqueza. Quem quisesse ou necessitasse de ultrapassar esses obstáculos tinha de passar por ali.

Assim, a posse ou controlo de tais lugares era (e por vezes ainda é) um factor de poder.

Vem toda esta conversa a propósito da ponte fortificada de Ucanha, única no género em Portugal.
Aparentemente com origem numa antiga via romana, é, na forma actual, originária do séc. XII.
Pertenceu ao então couto do Mosteiro de Salzedas e marcava o limite desse mesmo couto. Servia para a sua defesa, bem como para o controlo e cobrança da passagem sobre o rio Varosa.

Com a evolução dos tempos e a proliferação das autoestradas e vias rápidas, depressa estas pequenas obras de arte foram sendo esquecidas e, em muitos casos, deixadas ao abandono e/ou à ruína.
Felizmente nem todas tiveram esse destino.

Com um cada vez maior apelo ao litoral e às praias, muita da riqueza do interior do nosso país vai ficando esquecido. 
Apesar de nos anos 80, termos corrido boa parte do norte e do seu interior, achámos por bem revisitar alguns dos lugares por onde já andáramos, mostrando muitas das ´pequenas pérolas' que conhecíamos ás gerações mais novas, que é como quem diz, à nossa filha.
E foi assim que, nas férias de 2012, chegámos a Ucanha e à sua inesquecível ponte.

Apesar de todo o aprumo do lugar e dos seus bons acessos, é nas pequenas coisas que se verifica a diferença entre o litoral e o interior.
Chegada a hora do almoço, não encontramos nas redondezas nenhum sítio para almoçar, que, de preferência, nos possibilitasse uma refeição rápida e despretensiosa, para podermos voltar à estrada e continuar as nossas "visitas".

Confrontados com o facto de não encontrarmos nada, no meio do silêncio rural de um principio de tarde quente de Agosto, rendemo-nos a ter de ir almoçar ao único restaurante a que tínhamos visto referência, num anuncio colocado na beira da estrada de acesso a Ucanha: a Tasquinha do Matias.

Não me perguntem porquê mas, de uma forma geral, sou avesso aos restaurantes ditos "típicos", algo que, também não sei porquê, associei a este.
Mas na falta de alternativas e com a hora já adiantada, tivemos de nos render ao destino.

Estacionámos o carro e seguimos as indicações que apontavam o caminho a percorrer até à referida tasquinha.
Agradavelmente, esta ficava junto à ponte, no lado oposto ao da torre, com uma pequena esplanada sobre o rio. Mas o calor não nos convidou a ficar na rua, pelo que entrámos.

Na sala, fresca e já meia vazia, com o aspecto de final de refeição, fomos recebidos cordialmente por uma senhora que nos confirmou ser ainda possível almoçar, apesar de alguns dos pratos já terem acabado.
De qualquer forma ainda havia escolha suficiente.

A chegada da comida foi uma agradável surpresa. Pratos despretenciosos feitos com mestria e ingredientes de um sabor divinal. E não, não era resultado da fome.
O mastigar das batatas, dos legumes ou da salada fez-me recuar à minha infância, relembrando-me sabores há muito esquecidos.
Eis como uma refeição que se pretendia rápida e sem história, se transformou num momento de degustação e reencontro de sabores, "arruinando" os planos previstos para a tarde. Até porque as sobremesas também pediam que se saboreassem.

Moral da história:
Por vezes, quando procuramos beber a cultura e o passado em pedras ancestrais, somos 'obrigados' a saborear muito dessa cultura numa tasquinha "plantada" junto ás mesmas, fazendo perdurar na memória sabores também eles quase perdidos pela modernidade.

Para que conste, quando voltar à Ucanha espero voltar à Tasca do Matias. E espero não sofrer nenhuma desilusão "modernista".


Uma última nota curiosa. Ao deambularmos pela pequena povoação de Ucanha apercebemo-nos que foi aqui que nasceu Leite de Vasconcelos, arqueólogo e etnólogo tão importante na nossa história recente.


Informação adicional em:
Ucanha
Ponte e Torre de Ucanha
Património Classificado

Leite de Vasconcelos

domingo, 18 de outubro de 2015

Uma travessia quântica

Ponte Oresund rumo á Suécia - 2009
Estando de férias, qual a melhor forma de atravessar a ponte Oresund? Pelo tabuleiro rodoviário ou pelo tabuleiro ferroviário?

Mas que raio é a ponte Oresund e porque é que se coloca essa questão, perguntarão.
Confesso que até 2009 também não sabia o que era, nem fazia ideia que existia. E a questão da sua travessia só se coloca porque necessitei de o fazer.

No nosso caso atravessamos... pelos dois tabuleiros, na mesma viagem.
Esse facto fê-la tornar-se parte das minhas pequenas histórias de férias.

Mas vamos por partes.
Copenhaga (Dinamarca) e Malmo (Suécia) são duas cidades vizinhas, separadas pelo estreito de Oresund.
Até ao ano 2000 estavam ligadas apenas por barco. Nesse ano a ponte foi inaugurada, ligando as duas cidades por "terra".

Na realidade a travessia faz-se através da ponte e de um túnel. A ponte liga a Dinamarca à ilha artificial de Peberholm, numa extensão de quase oito quilómetros (7.854 m), lugar onde, quer o comboio quer a estrada "mergulham" num túnel de perto de 4 Km, último percurso para atravessar o referido estreito e chegar à Suécia.

Ora, estando nós em Copenhaga, com a Suécia mesmo ali ao lado, seria pena não aproveitar o facto e ir até lá, mais não fosse para almoçar e ver as vistas.
Foi aí que se nos colocou a questão de "como atravessar a ponte".
Apesar dos guias dizerem que a travessia "por cima", pela estrada, é a mais bonita, a viagem de comboio é a mais prática, por ter mais horários, quer de ida quer de vinda, para além de ser mais barata.

Tomada a opção do comboio e tomado o pequeno almoço demos início à nossa viagem à Suécia.
Na estação, que ficava perto do hotel, compramos os bilhetes e embarcámos no comboio.
Atravessámos a ponte, mergulhamos no túnel e, passados poucos minutos depois de termos emergido na Suécia, parámos no meio do nada.
Como não se vislumbrava qualquer estação ou cidade e os restantes passageiros continuavam sentados, presumimos que ainda não tínhamos chegado ao nosso destino.

Após esperarmos alguns minutos, ouvimos pela instalação sonora do comboio o maquinista (presumo) dizer qualquer coisa numa língua estranha, repetido-a noutra língua, igualmente estranha.
Dito isso (o que quer que tenha sido), o comboio recomeçou a andar em marcha moderada. Só que em sentido inverso, ou seja, voltando para a Dinamarca.

Como os restantes passageiros continuavam "calmos", presumimos que seria algo natural.
No entanto, assim que vislumbramos o revisor, a Manela foi-lhe perguntar o que é que se estava a passar.
De acordo com o relato do mesmo, alguém tinha sido atropelado pelo comboio anterior, estando a linha interrompida. Sendo assim, regressávamos a Copenhaga onde seria feito o transbordo para autocarros, para que a viagem pudesse chegar ao seu destino.

E assim foi. Voltámos a atravessar o túnel e depois a ponte e regressamos ao ponto de partida.
Saímos do comboio, encaminharam-nos para uma zona lateral da estação onde aguardamos pela chegada dos referidos autocarros.
Uns vinte minutos depois reiniciámos a nossa viagem. Atravessámos a ponte, agora pelo tabuleiro rodoviário (de facto com uma vista mais interessante e desocupada), reentramos no túnel e emergimos de novo na Suécia.
Desta vez de forma definitiva.

Nesta fase da história, não sei porquê, lembro-me sempre do "Mandarim", de Eça de Queirós.
Graças ao infortúnio de um desconhecido, podemos fazer a travessia da ponte pelos dois tabuleiros, na mesma viagem.
Com a vantagem de que não fiquei com o peso na consciência de me sentir responsável pela desgraça de alguém.


Informação adicional em:
Welcome to the Øresund Bridge
Øresund Bridge na Wikipedia


domingo, 11 de outubro de 2015

Bigger on the inside...


Police Phone Box, Earls Court, Londres - Agosto 2014
Quem passar em Earls Court depara-se, mesmo à saída da estação do metro, com uma cabine telefónica azul.
Nada de especial, não fosse ser objecto constante de fotografias tiradas, a maior parte das vezes, por jovens turistas que arrastam atrás de si a clássica mala de rodinhas, companhia de quem anda a viajar.
Não passa aparentemente de uma cabine telefónica da policia, igual a outras, outrora muito comuns na cidade de Londres, a partir das quais se podia fazer uma chamada de emergência direta à polícia, que podia localizar e socorrer rapidamente quem estivesse em situação difícil.

Mas é aí que está o engano dos incautos que por ela passam, ignorando a verdadeira natureza da cabine.
Não, não se trata de uma vulgar Police Box, mas sim de uma TARDIS, uma "Time And Relative Dimension In Space" time machine, uma máquina consciente que permite ao seu utilizador viajar no tempo e no espaço, dotada de um "circuito camaleão" que lhe permite adotar a aparência de um qualquer objeto comum no local e tempo de chegada. Maior por dentro do que o seu aspeto nos deixa adivinhar.
O sonho de qualquer viajante...

Está ali desde sempre, atraindo viajantes de todo o mundo que conhecem o segredo que ali se esconde e a rondam procurando ter um vislumbre do seu dono, conhecido apenas por Doctor.Who? perguntam os menos informados. Sim, esse mesmo: o viajante do tempo e do espaço que se apaixonou pela Terra e a escolheu, de todo o Universo, como planeta de adoção, depois de ter visto o seu próprio planeta destruído por uma guerra sem fim nem solução. Ninguém sabe o seu verdadeiro nome, mas quem precisa de ajuda não precisa de o chamar. A TARDIS sabe onde o deve levar.

Figura mítica da BBC, Doctor Who, o Doctor, como é conhecido, é a série televisiva com mais longa emissão conhecida, tendo iniciado emissão em 1963 e celebrado 50 anos de vida em 2013. Tornou-se ao longo dos anos uma série de culto que acompanhou o crescimento de pais e filhos, muitas vezes cúmplices na devoção pela série.

Num período em que a guerra fria e muitas guerras quentes se travavam no planeta, Doctor Who trouxe para o ecrã televisivo a recusa da guerra como solução, a linguagem do diálogo necessário e possível entre inimigos, a consciência de que a a violência apenas conduz à destruição do planeta e dos seres que o habitam. Falava de paz e compaixão, de perdão e memória. A violenta simplicidade das histórias conseguiu uma multidão de seguidores fiéis e tornou-se parte integrante da cultura popular britânica.
O culto renasceu em 2005 quando a BBC relançou a série que ganhou uma nova onda de seguidores, muitos deles filhos de antigos seguidores. São esta nova geração que vai a Earls Court prestar o seu tributo ao Doctor.

As Police Box azuis, comuns em Londres nos anos sessenta, foram progressivamente desmontadas durante os anos setenta e oitenta, mas esta foi ali levantada em 1996. Deveria ser apenas uma cabine como as outras, mas para os milhões de adeptos do Doctor Who ela é a TARDIS, um local de visita obrigatória.

Também nós por lá passámos e tirámos a inevitável fotografia, rondando a porta, na esperança de que alguém a abrisse e pudéssemos fianlmente saber quem era o verdadeiro Doctor.
Não tivemos essa sorte. Mas, para todos os efeitos, sabemos onde o podemos procurar.

É que nos tempos que correm nunca se sabe quando precisamos de ajuda...


Police Box
BBC - Doctor Who Site Oficial
TARDIS
Doctor Who
Somerton TARDIS


domingo, 4 de outubro de 2015

A Donzela de Orléans

Chinon, França - 2002
Quando chegámos a Chinon fomos surpreendidos por esta espectacular escultura.
A surpresa foi ainda maior quando nos apercebemos de que a personagem nela representada era Joana d'Arc.

Joana d'Arc é talvez uma das personagens mais comuns na estatuária francesa. Quem viaja por França facilmente "esbarra" numa imagem sua, seja numa grande cidade, seja numa humilde vila.
Se procurarmos num jardim, numa praça ou numa igreja, em algum deles a vamos encontrar.
Paris tem uma (pelo menos), equestre e dourada, junto ao Louvre, na place des Pyramides (aliás alvo de uma jocosa referência, nas aventuras de Adéle Blanc-Sec, de Tardi).

Curiosamente, este constante cruzar de caminhos com imagens de Joana d'Arc, nunca me tinha levado a procurar saber mais sobre ela. Até agora.
Face a tão poderosa visão colocou-se-me a questão: afinal quem é esta "donzela"?

Entre o que eu já sabia e o que entretanto descobri, de uma forma muito resumida e livre, aqui fica a sua história:
Filha de agricultores, nasceu em Janeiro de 1412, em Domrémy (mais tarde Domrémy-la-Pucelle) na Lorena.
Aos 13 anos começa a ouvir vozes que a incitam a frequentar a igreja e a tornam numa devota fervorosa. Aos 16, em plena Guerra dos Cem Anos, as referidas vozes dizem-lhe para ir ao encontro de Carlos VII, que se encontrava aqui, em Chinon, para libertar Orléans. E assim fez.
Desse encontro saiu a comandar um exército de 4.000 homens, rumo a Orléans, cidade que conquistou, dando início a um ciclo de muitas vitórias militares.
Quis então o destino que a guerra abandonasse o plano militar para se centrar mais no plano politico e diplomático.
Ao continuar a dar ouvidos às vozes que a atormentavam, tornou-se numa personagem incómoda para o rei.
Para sorte dos franceses e azar seu, foi capturada pelos opositores do rei e entregue aos ingleses. Estes rapidamente a acusam de bruxaria e mandam-na queimar, pondo assim fim à sua aventura.

Em 1920, após ter sido reabilitada, foi canonizada pelo Papa Bento XV, e em 1922 foi declarada padroeira de França, dando origem à proliferação das estátuas.

Na iconografia mais comum, ou aparece amarrada a um poste, a ser devorada pelas chamas, ou segurando uma espada e/ou um estandarte, ora a pé, ora a cavalo, mas sempre numa atitude entre o sonhador, o piedoso, ou o sofredor.
Uma ou outra imagem podem ser curiosas mas, na sua grande maioria, não passam de mais uma versão do "já visto".
Mas nada como aqui.

Esta escultura, feita em 1893 por Jules Roulleau, transmite determinação, força e movimento. Claro que o mérito é do artista, não da personagem.

À personagem, quanto muito, perdura o azar. A espaçosa praça onde a estátua foi colocada é hoje um parque de estacionamento.
Resta-lhe talvez continuar a sua cruzada, já não contra os ingleses mas agora contra o excesso de automóveis que a cerca.


Informação adicional em:
Joana d'Arc na Wikipédia
Chinon

domingo, 27 de setembro de 2015

O monte do Anjo


Mont Saint-Michel, França - 2002
Primeiro vê-se ao longe como um castelo de conto de fadas perdido na bruma. Depois vai-se avolumando no horizonte, no corpo de uma ilha que flutua no espaço. É preciso chegar muito perto para lhe perceber os contornos e os pormenores das casas e das ruas coroadas por uma abadia desenhada por um mestre do irreal e do fantástico.
Foi com esta visão que chegamos a Saint-Michel. Destino de sonho, ele próprio um sonho.

Chega-se a Saint-Michel de várias maneiras: pelas imagens nas revistas e nos folhetos turísticos, pela palavra de quem lá esteve e pelos livros sobre imaginário e esoterismo. E pela banda desenhada. O nosso percurso tinha sido ditado pelos livros e pela banda desenhada. Quando isto acontece, a maior parte das vezes acaba por trazer alguma decepção mas, neste caso, o que trouxe foi a percepção de que a realidade era bem maior que a ficção.


Chegamos bem cedo e conseguimos arrumar o carro mesmo na entrada da ilha. A baía estava seca até perder de vista e o monte erguia-se como um desenho saído das páginas de um livro.

A memória da visita à abadia e da íngreme subida até lá, perderam-se na bruma da visão que tivemos do alto, suspensos em silêncio, algures entre o céu e a areia.

Percebemos na descida a sorte que tínhamos tido ao chegar tão cedo. 
As ruas apinhadas de turistas que se acotovelavam e os parques de estacionamento repletos de carros que brilhavam ao sol retiravam ao lugar toda a magia. 
Entramos num pequeno restaurante onde comemos uns excelentes mexilhões e uma ainda mais excelente tarte Tatin. Depois arrancamos estrada fora. 

Paramos uns quilómetros mais à frente para rever a silhueta majestosa do monte. 

E dali de longe pudemos mais uma vez imaginá-lo apenas habitado pelo silêncio e pelos anjos.


O Mont Saint-Michel - video
Le Mont Saint-Michel
O Mont Saint-Michel na Wikipedia